quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A tarde mais agradável

Era uma noite chuvosa, trovões, raios... não, mentira, não era não! Era uma tarde fria, gélida em que as árvores batiam suas folhas secas e amareladas nos pássaros que, exaustos escondiam o canto e pareciam querer um pouco de paz e piedade... não, também não era... na verdade era uma tarde, acho que quente, não me lembro bem! Minha vizinha estava no quintal tomando sol, mas o fogo que a "moça" tem por debaixo das saias não se apaga há trinta anos, segundo meus pais, por isso não podemos considerar a tarde realmente "quente"! A coitada toma sol até mesmo no inverno, não perde uma só oportunidade de se exibir. Mas enfim, como meu intuito não é contar a rotina pacata da minha vizinha e seu furor uterino; vou tentar continuar, antes que a mosquinha da distração passe por aqui novamente. Como eu dizia, era uma tarde, apenas uma tarde, sem mais detalhes (e pouco importa) em que eu decidi assistir um Dvd de comédia, para ver se me animava. "O homem mosquit.." Não! "O homem lesma!" ... não também.. ah, isso pouco importa! Liguei a Tv, coloquei o Dvd no vídeo, tocou o telefone! Foi o tempo de eu pensar em me sentar no sofá, já apareceu um desocupado querendo acabar com a minha vida. Mas qual o problema? Eu estava de bom humor naquele dia e nada iria atrapalhar a minha felicidade!

- Alô?
- Alô, quem fala? - perguntou a voz do outro lado da linha.

Pensei comigo: Primeiro... o babaca que ligou que deveria se identificar primeiro, e "alô" é uma palavra um tanto quanto esquisita, devíamos sempre atender o telefone dizendo: "Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico" (Sim, é a maior palavra da Língua Portuguesa composta de apenas 46 letras e estou viciada nela ultimamente)... Mas ok, convenhamos... não daria muito certo!

- Com quem deseja falar? - perguntei.
- Quem é que tá falando? - a maldita voz insistiu.
- Com quem O SENHOR deseja falar?
- Pra que número eu liguei?
- Pra qual número desejava ligar?

E de repente me vi envolvida em um estranho jogo de perguntas eternas.

- Meu senhor, estou extremamente ocupada agora e preciso desligar, portanto me diga com quem o senhor deseja falar!

É impressionante como ao telefone tomamos coragem e dizemos coisas que nunca diríamos pessoalmente, cara a cara, principalmente se o tal senhor fosse musculoso e tivesse 2 metros de altura. Mas isso é algo que nunca irei descobrir. Também, pouco importa!

- É da casa da Epifânia? - perguntou gaguejando.

"Mas que raios de ser-humano colocaria o nome da própria filha de Epifânia?", pensei com meus botões, "... Não colocaria esse nome nem mesmo em uma empresa telefônica, Oh céus!"
Embora a vontade fosse de responder "Caralho, graças a Deus, não!", respondi apenas:

- Não meu senhor, acho que foi engano! Não tem ninguém aqui em casa com esse nome! (E assim quebrei o jogo neurótico que até então participávamos.)
- Mas aqui na lista está dizendo que é este mesmo o número!

"Ora, mas que inferno... e eu com isso? me diga... e eu com isso? Se é A LISTA que está dizendo... pois discuta com ela, não comigo! A não ser que todos esses anos tenha vivido uma tal de Epifânia escondida em meu guarda-roupas e eu não saiba" - a vontade que eu tinha era de mandar ele catar coquinhos na ladeira. Mas como eu já disse: havia acordado de bom humor e nada estragaria a minha felicidade, ok? Raios.. enfim...

- Nãoooo, meu senhor! Sinto muito, foi engano mesmo!
- Ai jesus! tem certeza menina? ("Não, espera aí que eu vou dar uma conferida!" - pensei.) Meu Deus do céu, minha mulher vai me matar! ("Ai que leve pontada de felicidade hehe"- pensei novamente.)- me desculpe meu anjo... tenha uma boa tarde!

Ah que bom! Desligou... agora posso assistir o filme em paz. Paz? Paz me lembra branco, que me lembra pipoca! Não consigo assistir filme sem pipoca. Fui até a cozinha decidida e cheia de vontade de comer algumas pipocas. Abri a dispensa... e nada, o armário da sala de jantar... nada também! Ai caramba! Esqueci de passar no supermercado na saída do colégio! Droga, droga, droga. Vou ter que estourar na panela mesmo.

Estava eu na cozinha segurando a tampa. Já havia perdido exatos 30 minutos de minha vida, quando toca a campainha. Mais uma vez passa a mosquinha da distração e eu me esqueço que as pipocas não são civilizadas o bastante para permanecerem quietinhas na panela enquanto vou até a porta. E é pipoca pra tudo quanto é lado. "Ai meu Deus, depois eu arrumo!"

No caminho para a porta da frente passei pelo corredor da sala de estar e me deparei com um bilhetinho branco e perfumado na mesinha de madeira.

"Floquinho da mamãe, irei ao dentista e depois ao colégio de sua irmã. Volto as 16horas! Não bagunce nada, deixe tudo em ordem! Beijos... sua mamãe!"

Floquinho da mamãe? Mas que raios minha mãe pensa que eu sou? Um dos protagonistas do Ursinhos Carinhosos? Pois bem, tive que abrir a porta. Um homem amarelo e azul, de boné, com uma enorme bolsa lateral escrito "Sedex" em letras enormes, olha para a minha cara sorrindo e diz:
- Correio!

"Ah, mas não me diga! Eu jurava que era o stripper que eu havia chamado para acabar com esse meu vazio existencial! Mas.. peraí... pensando bem: Você não é um dos Power Rangers? É hora de Morfaaaar!!!" - pensei comigo, já extremamente irritada.
Peguei os pacotes das mãos do moço, agradeci e fui trancando a porta.

- Espera mocinha! Tem que assinar alguns papéis! - disse o desanimador de festas para idosos.
- Arrrrghhh! Mas são muitos! - reclamei.
- São normas, meu bem!

"Meu bem é a sua avó... digo, sua avó é SEU bem.. ou é Bem... bem velha! Ahh, pouco importa!"

Nisso, perdi mais dez preciosos minutos. Agora faltavam cinco apenas para as quatro horas. Entrei correndo e comecei a arrumar a cozinha. "Pipocas são orgânicas" - pensava comigo - "Deixe elas aí que com o tempo elas somem!" - mas não, melhor não... minha mãe me mataria.

No segundo em que terminei de arrumar a cozinha, toca novamente o telefone. Já excessivamente irritada, corri até a sala e grosseiramente respondi:

- Não tem nenhuma Epifânia aqui seu velho maluco!
- Filha? - respondeu a voz do outro lado da linha - Tudo bem?
- Pa... pa... pai?
- Mas que Diabos você está fazendo, gritando com os outros pelo telefone? Posso saber?
(Porque a vida às vezes é um grande exemplar de Só desabafo nas horas erradas!)
- Não pai, não é nada de mais, um homem ligou aqui e...
- Conversaremos sobre isto mais tarde! - disse meu pai com uma voz autoritária - Sua mãe me mandou avisar que chegará só as nove horas da noite!
- Mas...
- E trate de ficar pronta em 20 minutos que estou passando para te buscar, teremos a missa de sétimo dia da dona Vânia, mulher do seu Lisaudo.

"Ai caramba! Eu mereço! Não joguei pedras na cruz, devo ter jogado dardos, facas, bombinhas! Por que a dona Vânia (Deus a tenha!) tinha que morrer semana passada?"

Me arrumei em 15 minutos. Foi a conta de meu pai buzinar e eu sair ainda escovando os cabelos. Estou indo agora para uma das mais belas celebrações de sétimo dia de morte já vistas, com cantos gregorianos que o fofo do seu Lisaudo arranjou para a falecida. E o filme? "Necas"! até perdi a vontade de assistir! Mas, como eu já disse, acordei de bom humor; e não é um detalhe que vai estragar a porra da minha felicidade! INFERNO!