quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Neve, Vidro, Maçãs. - de Neil Gaiman

Neste conto (um de meus favoritos), o gênio Neil Gaiman nos mostra o conto de fadas que estamos acostumados a ouvir desde a infância de um outro ponto de vista. Uma psicanálise profunda e assustadora de "Branca de Neve". Depois de ler, sua visão da doce menina meiga e injustiçada nunca mais será a mesma. Sejamos justos! É hora de ouvir a versão da madrasta...

Neve, Vidro, Maçãs

Uma adaptação de Neil Gaiman

"Eu não sei que espécie de coisa ela é. Nenhum de nós sabe. Ela matou
sua mãe ao nascer, e nunca é demais lembrar sua culpa por isso.

Dizem que sou sábia, mas estou longe disso. Tudo que previ foram
fragmentos, momentos congelados e presos em poças d'água ou no vidro
do meu espelho. Se eu fosse sábia, não teria tentado mudar o que vi.
Se eu fosse sábia, teria me matado antes mesmo de encontrá-la, antes
mesmo de tê-lo conquistado. Sábia, e bruxa, ou assim o dizem, e eu
tinha visto o rosto dele nos meus sonhos e pensamentos por toda a
minha vida: dezesseis anos a sonhar com ele, antes do dia em que ele
parou seu cavalo perto da ponte, naquela manhã, e perguntou meu nome.
Ele me ajudou a montar no seu altivo cavalo, e fomos juntos para minha
pequena propriedade no campo, meu rosto enterrado no dourado dos seus
cabelos. Ele me pediu o que eu tinha de melhor; era seu direito, por
ser rei.

Sua barba era de um vermelho-bronze à luz da manhã, e eu o conheci,
não como um rei, pois eu não sabia nada sobre reis então, mas como meu
amor. Ele teve de mim tudo o que queria - é um direito dos reis - mas
me retribuiu no dia seguinte, e na noite também: sua barba tão
vermelha, seu cabelo tão dourado, seus olhos do azul de um céu de
verão, sua pele bronzeada, com a cor gentil do trigo maduro.

Sua filha era só uma criança: não mais que cinco anos de idade quando
eu cheguei ao palácio. Um retrato da sua mãe morta pendia da parede do
seu quarto, na torre: uma mulher alta, seu cabelo da cor do ébano, os
olhos castanhos. Sua pálida filha não parecia descender dela.

A garota não fazia suas refeições conosco. Eu não sei em que lugar do
palácio ela comia. Eu tinha meus próprios aposentos. Meu marido, o
rei, também. Quando ele me queria, ele mandava me procurar, e eu ia
até ele, e lhe dava prazer, e também recebia um pouco.

Uma noite, vários meses após eu ser levada ao palácio, ela veio aos
meus aposentos. Estava com seis anos. Eu bordava à luz do lampião,
apertando meus olhos à sua fumaça e à sua parca iluminação. Quando
levantei os olhos, ela estava ali.

- Princesa?

Ela não disse nada. Seus olhos eram negros como o carvão, negros como
seus cabelos; seus lábios eram mais vermelhos que o sangue. Ela olhou
para mim e sorriu. Seus dentes pareceram afiados, mesmo ali, à luz do
lampião.

- O que você está fazendo fora do seu quarto?

- Estou com fome - ela disse, como qualquer criança. Era inverno, um
tempo em que comida fresca é como um sonho de calor e luz do sol; mas
eu tinha cordões de maçãs, descaroçadas e secas, penduradas nas vigas
do meu aposento, e puxei uma para ela.

- Tome.

O outono é a época de secar, de preservar, a época de colher maçãs e
gordura de ganso. O inverno é a época da fome, da neve e da morte, e é
a época de Festival, quando esfregamos gordura de ganso na pele de um
porco e o
recheamos com as maçãs colhidas no outono, e então o assamos ou
grelhamos, e organizamos o festival enquanto ele estala no fogo.

Ela pegou a maçã seca e começou a mordiscá-la, com seus dentes
amarelos e afiados.

- Está boa?

Ela assentiu. Eu sempre tive medo da princesinha, mas naquele momento
me aconcheguei a ela e com meus dedos, gentilmente, acariciei seu
rosto. Ela olhou para mim e sorriu - ela sorria raramente - , e então
fincou seus dentes na base do meu polegar, tirando sangue.

Eu ia começando a gritar, de dor e surpresa; mas ela olhou para mim e
eu caí em silêncio.

A princesinha fixou sua boca à minha mão, e lambeu, chupou, sugou.
Quando terminou, deixou meus aposentos. Diante do meu olhar, a
perfuração feita por ela começou a se fechar, a cicatrizar, a sarar.
No dia seguinte, ela era como uma cicatriz antiga: eu poderia ter
cortado minha mão com um canivete, quando era criança.

Eu havia sido congelada por ela, possuída e dominada. Aquilo me
assustou, mais do que o sangue de que ela havia se alimentado. Depois
daquela noite, eu trancava meus aposentos ao anoitecer, barrando a
porta com uma tranca de carvalho, e pedi ao ferreiro que fizesse
barras de aço e as colocasse nas minhas janelas.

Meu marido, meu amor, meu rei, passou a me procurar cada vez menos, e
quando eu ia a ele o encontrava atordoado, indiferente, confuso. Ele
não conseguia mais fazer amor como um homem, e não me permitia dar-lhe
prazer com minha boca; a única vez que tentei, ele se sobressaltou
violentamente, e começou a chorar. Eu retirei minha boca e o abracei
com força, até os soluços pararem, e ele dormiu, como uma criança.

Enquanto ele dormia, corri meus dedos pela sua pele. Estava coberta de
muitas cicatrizes antigas. Mas eu não me recordava de nenhuma cicatriz
na época da nossa côrte, exceto uma, no seu quadril, onde um urso o
havia ferido na sua juventude.

Logo ele era apenas uma sombra do homem que eu havia conhecido e amado
naquele dia, na ponte. Seus ossos estavam aparecendo sob a pele, azuis
e brancos. Eu estava com ele nos seus momentos finais: suas mãos
estavam frias como pedra, seus olhos de um azul leitoso, seu cabelo e
barba escassos e opacos. Ele morreu sem tremer, sua pele picada e
pustulenta da cabeça aos
pés com cicatrizes minúsculas.

Ele já não pesava quase nada. O chão já estava bem congelado então, e
não pudemos cavar seu túmulo. Então fizemos um marco de rochas sobre o
corpo, como um memorial, pois restava muito pouco dele para proteger
da fome das feras e dos pássaros.

E então eu era rainha.

E era tola, e jovem - apenas dezoito verões tinham se passado desde
que vi a luz do sol pela primeira vez - e não fiz o que faria se fosse
agora.

Se fosse agora, é verdade que eu teria arrancado seu coração. Mas
também teria arrancado sua cabeça, braços e pernas. Eu a teria
estripado. E teria assistido, na praça da cidade, enquanto o carrasco
preparasse o fogo aos berros, assistido sem nem piscar enquanto ele
entregasse cada parte dela ao fogo. Eu colocaria arqueiros ao redor da
praça, que iriam atirar em cada pássaro ou animal que se aproximasse
das chamas, qualquer corvo, cachorro, falcão ou rato. E não fecharia
meus olhos até que a princesa virasse cinzas, e que um vento gentil
pudesse espalhá-la como neve.

Eu não fiz nada disso, e nós pagamos por nossos erros.

Dizem que fui enganada; que aquele não era o coração dela. Que era o
coração de um animal - um cervo, talvez, ou um urso. Dizem isso, mas
estão enganados.

E alguns dizem (mas quem mentiu foi ela, e não eu) que me foi dado o
seu coração, e que eu o comi. Mentiras e meias-verdades caem como
neve, cobrindo as coisas que eu me lembro e as coisas que vi. Uma
paisagem, irreconhecível depois de uma tempestade de neve; foi o que
ela fez da minha vida.

Havia cicatrizes no meu amor, nas coxas do pai dela, nos seus
testículos, e no seu membro, quando ele morreu.

Eu não fui com eles. Pegaram-na durante o dia, enquanto ela dormia e
estava mais enfraquecida. Levaram-na para o coração da floresta, e lá
abriram sua blusa e cortaram fora o seu coração, deixando-a morta,
numa vala, para a floresta engolir.

A floresta é um lugar escuro, a fronteira de muitos reinos; ninguém
seria tolo o suficiente para reclamar jurisdição sobre ela.
Foras-da-lei viviam lá. Ladrões viviam lá, e lobos também. Alguém
poderia cavalgar por ela uma dúzia de dias e nunca ver uma alma que
fosse, mas haveriam olhos sobre a pessoa o tempo inteiro.

Eles me trouxeram o coração dela. Eu sabia que era o dela - um coração
de porca ou de corça não teria continuado pulsando e batendo depois de
ter sido arrancado fora, como aquele.

Eu o levei para os meus aposentos. Não o comi; pendurei-o nas vigas
sobre a minha cama, e preenchi a distância entre ambos com frutinhas
do mato, vermelho-alaranjadas como o peito do tordo, e com cordões de
alho.

Lá fora, a neve caía, cobrindo as pegadas dos meus caçadores, cobrindo
seu corpinho na floresta onde ele jazia.

Pedi ao ferreiro que removesse as barras de aço das minhas janelas, e
passei algum tempo no meu quarto, cada tarde naqueles curtos dias de
inverno, perscrutando a floresta, até a escuridão cair.

Havia, como eu já mencionei, o povo da floresta. Eles saíam, alguns
deles, para a Feira de Primavera: um povo mesquinho, animalesco e
perigoso. Alguns eram atrofiados - anões, aleijados, corcundas. Outros
tinham os dentes enormes e olhares vagos de idiotas. Alguns tinham
dedos como barbatanas ou patas de caranguejo. Eles se arrastavam para
fora da floresta a cada ano, na Feira da Primavera, após a neve
derreter.

Quando eu era uma mocinha, trabalhei na Feira, e me assustava com
eles, aquele povo da floresta. Eu lia a sorte para os visitantes da
Feira, numa poça de água parada; e mais tarde, quando estava um pouco
mais velha, num disco de vidro polido incrustado em prata - um
presente de um mercador cujo cavalo desgarrado eu tinha encontrado
através de uma poça de tinta.

Os guardadores do estábulo da Feira tinham medo do povo da floresta,
pois eles roubavam suas coisas guardadas nas tábuas expostas do
estábulo: pedaços de pão de gengibre, ou cintos de couro, que ficavam
pregados com grandes pregos de ferro nas madeiras. Diziam que se seus
artigos não estivessem pregados, o povo da floresta os pegaria e
fugiria, mordiscando o pão e
açoitando o ar com os cintos.

O povo da floresta tinha dinheiro, todavia; uma moedinha aqui, outra
ali, às vezes já esverdeada pelo tempo ou pela terra, a face
desconhecida até pelos mais velhos deles. Também tinham coisas para
comerciar, e assim a feira continuava, servindo proscritos, anões e
ladrões (se fossem silenciosos) que pilhavam dos raros viajantes
vindos das terras além da floresta, ou dos ciganos, ou apanhavam
cervos (isso era roubo aos olhos da lei, os cervos pertenciam à
rainha).

Os anos passaram lentamente, e meu povo dizia que eu os governava com
sabedoria. O coração ainda pendia sobre minha cama, pulsando
gentilmente na noite. Se ainda havia alguém que pranteava a criança,
eu não tinha evidência: tinham terror dela, e se consideravam livres
da sua presença.

As Feiras da Primavera se sucediam; cinco delas, cada uma mais triste,
pobre e pior do que a anterior. Poucos do povo da floresta saíam para
comprar. Aqueles que vinham pareciam subjugados e apáticos. Os
guardadores do estábulo deixaram de pregar seus pertences nas tábuas.
E por volta do quinto ano, só um punhado do povo da floresta veio -
uma pequena e assustada turba de homenzinhos peludos, e ninguém mais.

O Lorde da Feira e seu pajem vieram a mim depois que a feira acabou.
Eu o havia conhecido de passagem, antes de me tornar rainha.

- Eu não venho a você como minha rainha - ele disse.

Eu não disse nada. Só escutei.

- Eu venho a você porque você é sábia - continuou - Quando você era
criança, encontrou um potro desgarrado olhando numa poça de tinta;
quando era uma donzela, encontrou um infante perdido que havia vagado
para longe de sua mãe, olhando naquele seu espelho. Você sabe
segredos, e consegue encontrar coisas perdidas. Minha rainha - ele
perguntou - o que está levando o povo da floresta? No próximo ano não
haverá Feira da Primavera. Os viajantes de outros reinos se tornaram
escassos, e o povo da floresta está quase desaparecido. Outro ano como
este, e nós deveremos morrer de fome.

Ordenei à minha serva que trouxesse o meu espelho. Ele era simples, um
disco de vidro polido incrustado em prata, que eu guardava envolto
numa pele de corça, dentro de uma arca em meu quarto.

Trouxeram-no para mim, e eu olhei.

Ela agora estava com doze anos, e não era mais uma criança. Sua pele
ainda era pálida, seus cabelos e olhos negros como carvão, seus lábios
vermelhos como sangue. Ainda usava as roupas com que tinha deixado o
castelo pela última vez - a blusa, a saia - apesar de elas estarem já
muito gastas e remendadas. Sobre elas, usava uma capa de couro, e em
vez de botas, usava sacos de couro, amarrados com cordões, em seus pés
minúsculos. Ela estava parada na floresta, atrás de uma árvore.

Enquanto eu olhava, com o olho da mente, vi-a correr e saltitar,
passando de uma árvore para outra, como um animal, um morcego ou um
lobo. Ela estava seguindo alguém.

Era um monge. Ele usava roupas de saco, e seus pés estavam nus,
endurecidos e cheios de crostas. Sua barba e tonsura estavam crescidos
e mal-aparados.

Ela o observava de trás das árvores. Finalmente ele parou para passar
a noite, e começou a fazer um fogo, empilhando gravetos, e quebrando
um ninho de torno para usar como acendedor. Ele tinha uma caixinha de
metal na bata, e bateu a pedra de acender no aço até as fagulhas
iniciarem o fogo. Havia dois ovos no ninho que encontrara, e ele os
comeu, crus e sem tempero. Não deve ter sido uma refeição muito
satisfatória para um homem tão grande. Ele sentou ali à luz da
fogueira, e ela saiu do seu esconderijo. Agachou-se do outro lado do
fogo e olhou fixamente para ele. Ele sorriu afetadamente, como se não
visse um outro ser humano há muito, e com um gesto chamou-a para perto
dele.

Ela se levantou e andou em volta do fogo, parando à distância de um
braço. Ele remexeu na roupa até achar uma moeda - uma pequena moeda de
cobre ? e jogou-a para ela. Ela pegou-a e assentiu, indo até ele. Ele
puxou a corda da cintura, e sua batina ondulou, abrindo-se. Seu corpo
era tão peludo quanto o de um urso. Ela o empurrou para trás, no
musgo; uma mão crispada, como uma aranha, caminhou pelo emaranhado de
pelos, até fechar-se no membro. A outra mão traçou um círculo em volta
do mamilo esquerdo. Ele fechou os olhos, e tateou com uma mão enorme
sob a saia dela. Ela desceu com a boca para o mamilo que estava
acariciando, sua pele suave e branca contra o corpo escurecido dele.

Ela cravou profundamente seus dentes no peito dele. Os olhos dele se
abriram, depois se fecharam de novo, e ela bebeu. Ela o derrubou e se
alimentou. Enquanto o fazia, um fino líquido enegrecido começou a
pingar por entre as suas pernas.

- Você sabe o que está afastando os viajantes de nossa cidade? O que
está acontecendo ao povo da floresta? - perguntou o Lorde da Feira.

Eu cobri o espelho com a pele de corça, e disse a ele que cuidaria
pessoalmente para que a floresta voltasse a ser segura. Eu tinha que
fazê-lo, apesar de isso me aterrorizar. Eu era a rainha. Uma mulher
tola teria então ido à floresta e tentado capturar a criatura; mas eu
já havia sido tola uma vez, e não tinha vontade nenhuma de sê-lo de
novo.

Passei algum tempo com livros antigos, pois eu sabia ler um pouco.
Passei algum tempo com as ciganas (que atravessavam nosso país pelas
montanhas para o sul, ao invés de passar pela floresta, para o norte e
oeste). Eu me preparei, e obtive as coisas de que precisaria, e quando
as primeiras neves começaram a cair, eu estava pronta.

Nua, eu fiquei, e sozinha na mais alta torre do palácio, um lugar
aberto ao céu. O vento arrepiava meu corpo; minha pele ficou como a do
ganso depois de depenado. Eu carregava uma bacia de prata, e uma cesta
onde havia colocado uma faca e um alfinete de prata, alguns tenazes,
um manto cinzento e três maçãs verdes.

Eu os pus no chão e fiquei ali, despida, na torre, humilde diante do
céu da noite e do vento. Se algum homem tivesse me visto parada ali,
eu teria atraído seus olhos; mas não havia ninguém para espiar. Nuvens
cruzavam o céu, escondendo e descobrindo a lua minguante.

Peguei a faca de prata e fiz um talho no meu braço esquerdo - uma,
duas, três vezes. O sangue pingou na bacia, a cor escarlate parecendo
negra à luz da lua.

Adicionei o pó do vial que pendia do meu pescoço. Era um pó marrom,
feito de ervas secas e da pele de um certa espécie de sapo, além de
algumas outras coisas. Ele tornou o sangue mais espesso, impedindo-o
de coagular.

Peguei as três maçãs, uma a uma, e furei suas peles suavemente com meu
alfinete de prata. Então coloquei as maçãs na bacia de prata, e as
deixei lá enquanto os primeiros pequenos flocos de neve do ano caíam
lentamente na minha pele, nas maçãs e no sangue.

Quando a luz do amanhecer começou a iluminar o céu, eu me cobri com o
manto cinza, e peguei as maçãs, agora vermelhas, na bacia, uma a uma,
colocando cada uma na minha cesta com tenazes de prata, tomando
cuidado para não tocá-las. Não havia restado nada do meu sangue ou do
pó marrom na bacia, a não ser um resíduo negro, como verdete.

Enterrei a bacia no chão. Então joguei um encanto de glamour nas maçãs
(como havia feito, anos antes, na ponte, comigo mesma), de modo que
elas se tornaram, indubitavelmente, as maçãs mais maravilhosas do
mundo; e o brilho carmim de suas cascas era da mesma cor cálida de
sangue fresco. Puxei o capuz do meu manto para que cobrisse meu rosto,
e levei fitas e lindos adornos de cabelo comigo, colocando-os sobre as
maçãs na cesta de junco, e caminhei sozinha pela floresta até chegar
ao lugar em que ela morava: um alto penhasco de arenito, entremeado
por grandes cavernas que penetravam profundamente nas paredes de
pedra.

Havia árvores e pedras redondas ao redor, e eu andei quieta e
suavemente de árvore em árvore, sem perturbar um único graveto ou
folha caída. Finalmente encontrei um lugar para me esconder, e
esperei, e observei.

Depois de algumas horas, um grupo de anões rastejou para fora de uma
das cavernas - homenzinhos feios, deformados e cabeludos, os velhos
habitantes do país, que são vistos raramente agora.

Eles desapareceram no bosque, e nenhum deles me viu, apesar de um
deles ter parado para urinar contra a rocha atrás da qual eu me
escondia. Eu esperei. Ninguém mais saiu.

Fui até a entrada da caverna e gritei para dentro: "Olá?", numa voz
rachada de velha.

A cicatriz perto do meu polegar latejou e pulsou quando ela veio da
escuridão em direção a mim, nua e só. Ela estava com treze anos de
idade, minha enteada, e nada maculava a alvura perfeita da sua pele, a
não ser a lívida cicatriz do lado esquerdo do seu peito, onde seu
coração havia sido arrancado dela há tempos atrás.

O interior das suas coxas estava manchado com uma líquido negro
imundo. Ela me olhou atentamente, escondida, como eu no meu manto.
Olhava para mim de um modo faminto.

- Fitas, senhora - grasnei - lindas fitas para o seu cabelo...

Ela sorriu e acenou para que eu me aproximasse. Um puxão; a cicatriz
na minha mão me puxava para ela. Eu fiz o que tinha planejado, mas fiz
mais prontamente do que achava que faria: soltei minha cesta e
guinchei como a velha mascate que fingia ser, e corri.

Minha capa cinzenta era da cor da floresta, e eu fui rápida; ela não
me pegou. Tomei o caminho de volta ao palácio.

Eu não vi como foi. Todavia, posso imaginá-la retornando, frustrada e
faminta, à sua caverna, e encontrando minha cesta caída no chão.

O que ela fez?

Eu gosto de pensar que primeiro ela brincou com as fitas, enrolou-as
nos seus cabelos negros, no seu pescoço pálido ou na sua fina cintura.
E então, curiosa, tirou o pano que cobria a cesta para ver o que mais
havia lá; e viu as maçãs tão vermelhas. Seu aroma era de maçãs
frescas, naturalmente; mas também cheiravam a sangue. E ela estava
faminta. Eu a imagino pegando uma das maçãs, pressionando-a contra a
face, sentindo a fria suavidade contra a pele. E abrindo a boca e
mordendo-a profundamente...

Quando cheguei aos meus aposentos no palácio, o coração que pendia da
viga do teto, junto com as maçãs, os presuntos e as salsichas, tinha
parado de bater. Pendia dali, quieto, sem movimento ou vida, e me
senti segura mais uma vez.

Naquele inverno, a neve foi alta e profunda, e começou a derreter
tardiamente. Todos nós estávamos famintos quando a primavera chegou. A
Feira da Primavera foi um pouco melhor nesse ano. O povo da floresta
ainda era pouco, mas estava lá, e haviam viajantes das terras além da
floresta. Vi os homenzinhos cabeludos da caverna na floresta comprando
e barganhando por pedaços de vidro, e lupas de cristal e de quartzo.
Pagavam pelo vidro com moedas de prata - o espólio das depredações da
minha enteada, não tenho dúvida. Quando não havia mais o que eles
comprarem, o povo da cidade corria às suas casas, voltando com seus
cristais da sorte, e, em alguns casos, com pedaços inteiros de vidro.

Eu pensei brevemente em matá-los, mas não o fiz. Enquanto o coração
permanecesse pendurado, silencioso, imóvel e frio, na viga do meu
quarto, eu estaria segura, e também o povo da floresta, além do povo
da cidade. Meu vigésimo-quinto ano veio, e minha enteada tinha comido
o fruto envenenado há dois invernos, quando o Príncipe veio ao meu
palácio. Ele era alto, muito alto, com frios olhos verdes e a pele
morena do povo além das montanhas.

Ele cavalgava com uma pequena comitiva, grande o suficiente para
defendê-lo, pequena o suficiente para que outro monarca - eu, no caso
- não o encarasse como uma ameaça potencial.

Eu fui prática: pensei na aliança de nossas terras, pensei no Reino se
estendendo das florestas até o mar, ao sul; pensei no meu amor louro e
barbado, morto há oito anos; e, à noite, fui até o quarto do Príncipe.
Eu não sou inocente, embora meu marido anterior, que foi meu rei,
tenha sido realmente meu primeiro amante, não importa o que digam. A
princípio, o Príncipe pareceu excitado. Ele me fez tirar a roupa e
ficar parada em frente à janela aberta, longe do fogo, até minha pele
ficar arrepiada e fria como pedra. Então ele pediu que eu me deitasse
de costas, com as mão cruzadas sobre meus seios e meus olhos bem
abertos - mas fixos nas vigas do teto. Ele me disse para não me mover,
e para respirar o mais imperceptivelmente possível. Implorou que eu
não dissesse nada. Abriu minhas pernas.

E então entrou em mim.

Quando ele começou a empurrar, senti meus quadris se levantarem,
senti-me começar a me encaixar nele, ação por ação, empurrão por
empurrão. Gemi. Não pude evitar.

Sua masculinidade escorregou para fora de mim. Eu a busquei e toquei,
uma coisa minúscula e escorregadia.

- Por favor - ele disse, suavemente - você não deve se mexer nem
falar. Só fique aí nas pedras, tão fria e tão bonita...

Eu tentei, mas ele havia perdido qualquer que fosse a força que o
mantinha viril, e, um pouco mais tarde, deixei o quarto do Príncipe,
suas maldições e lágrimas ainda ecoando em meus ouvidos.

Ele partiu cedo na manhã seguinte, com todos os seus homens, e eles
cavalgaram para dentro da floresta.

Imagino seus quadris agora, enquanto ele cavalgava, um nó de
frustração na base da sua masculinidade. Imagino seus lábios pálidos
pressionados juntos, tão estreitamente. Então imagino sua pequena
tropa cavalgando pela floresta, chegando finalmente ao jazigo de vidro
e cristal da minha enteada. Tão pálida. Tão fria. Nua sob o vidro,
pouco mais que uma garotinha, e morta. Na minha imaginação, quase
posso sentir o repentino enrijecer do membro dele, dentro das calças,
e vislumbrar a luxúria que o tomou então, as orações que murmurou sob
a respiração, agradecendo sua boa sorte. Eu o imagino negociando com
os homenzinhos peludos, oferecendo-lhes ouro e especiarias em troca do
adorável cadáver no monte de cristal.

Eles aceitaram o ouro de boa vontade? Ou olharam para aqueles homens
em cima dos seus cavalos, com suas espadas afiadas e suas lanças, e
perceberam que não tinham alternativa?

Não sei. Eu não estava lá. Não estava espiando. Só posso imaginar...

Mãos, removendo os blocos de vidro e quartzo que cobriam seu corpo frio.

Mãos, gentilmente acariciando seu rosto frio, movendo seu braço frio,
regozijando-se de encontrar o corpo ainda fresco e maleável.

Ele a possuiu ali, na frente de todos? Ou carregou-a até um lugar
recluso antes de montá-la? Não sei dizer.

Ele removeu o pedaço de maçã da garganta dela? Ou seus olhos se
abriram lentamente, enquanto ele estocava dentro do seu corpo? Será
que aquela boca se abriu, seus lábios vermelhos se separaram, aqueles
dentes amarelos e afiados se fecharam no pescoço dele, enquanto o
sangue, que é vida, escorria pela garganta dela abaixo, levando o
pedaço de maçã, minha posse, meu veneno?

Eu imagino; não sei.

O que sei é que fui acordada no meio da noite pelo coração dela,
batendo e pulsando mais uma vez. Sangue salgado pingou no meu rosto,
vindo de cima. Eu me sentei. Minha mão queimava e pulsava como se eu
tivesse acertado a base do meu polegar com uma pedra.

Houve uma batida na porta. Tive medo, mas sou uma rainha, e não o
demonstrei. Abri a porta.

Primeiro os homens dele entraram em meu aposento e ficaram em volta de
mim, com suas espadas afiadas e suas longas lanças. Então ele entrou,
e cuspiu no meu rosto.

Finalmente, ela entrou no quarto, como tinha feito logo que me tornei
rainha, e ela era uma criança de seis anos. Ela não havia mudado. Não
realmente.

Ela puxou o barbante onde o seu coração estava pendurado. Tirou as
frutinhas secas, uma a uma; os bulbos de alho, agora ressecados depois
de tantos anos.

Então ela pegou o seu pertence, seu coração pulsante - pequeno, não
maior do que o de uma cabra ou filhote de urso - enquanto ele pulsava
e despejava seu sangue na mão dela.

Suas unhas deviam ser tão afiadas quanto vidro; ela abriu o peito com
elas, correndo-as sobre a cicatriz púrpura. Seu peito se escancarou,
de repente, aberto e sem sangue. Ela lambeu seu coração uma vez,
enquanto o sangue corria pelas suas mãos, e empurrou-o para o fundo do
peito.

Eu a vi fazê-lo. Eu a vi fechar a carne do peito mais uma vez. Vi a
cicatriz púrpura começar a desaparecer.

Seu príncipe olhou, brevemente constrangido, mas colocou seu braço em
volta dela e ficaram lado a lado, esperando.

Ela continuou fria, e a exuberância da morte estava nos seus lábios,
mas sua luxúria não foi de modo algum apaziguada.

Eles me disseram que iriam se casar, e que os reinos seriam unidos.

Disseram-me que eu estaria com eles no dia da cerimônia.

Está começando a ficar quente aqui.

Disseram às pessoas coisas ruins sobre mim; um pouco de verdade para
dar sabor ao prato, mas misturada com muitas mentiras.

Fui amarrada e presa numa pequena cela de pedra sob o palácio, ficando
lá por todo o outono. Hoje eles mandaram me buscar; tiraram-me os
farrapos, lavaram-me a sujeira, rasparam-me o cabelo e o púbis, e
sujaram minha pele com gordura de ganso.

A neve caía enquanto me carregavam; dois homens em cada braço e em
cada perna, completamente exposta, aberta e fria, através da multidão
da meia-estação, e me trouxeram para este forno.

Minha enteada ficou lá com o príncipe. Ela me observava na minha
indignidade, mas não dizia nada.

Quando me jogaram lá dentro, escarnecendo de mim, vi um floco de neve
pousar na sua face branca, e ficar lá sem derreter.

Fecharam a porta do forno atrás de mim. Está esquentando aqui, e lá
fora estão cantando, festejando e batendo nos lados do forno.

Ela não ria, zombava ou falava. Não me olhou com desprezo, nem se virou.

Mas olhava para mim, e por um momento me vi refletida em seus olhos.

Não vou gritar. Não vou dar a eles esta satisfação. Terão meu corpo,
mas minha alma e minha história são minhas, e vão morrer comigo.

A gordura de ganso começa a derreter e reluzir na minha pele. Eu não
devo fazer nenhum som. Não devo mais pensar nisso.

Devo pensar no floco de neve no rosto dela. Penso no seu cabelo negro
como carvão, seus lábios vermelhos como sangue, sua pele, branca de
neve."