sábado, 27 de dezembro de 2008

A Tenda Vermelha

Bom gente, atualmente estou lendo A Tenda Vermelha, de Anita Diamant, e como me chamou a atenção por ser um livro extremamente diferente de todos os que eu já li, aproveito o espaço para recomendá-lo àqueles que, como eu, adoram dar uma viajada através do tempo mergulhando em inúmeras páginas escritas. Primeiramente, gostaria de dizer que o livro me chamou atenção por se tratar do cotidiano das mulheres nos tempos bíblicos, e acredito que Anita Diamant seja uma das pouquíssimas escritoras que explorou tal assunto. E se você é ateu, ou algo do tipo, quero que saiba que, no começo, quando me foi recomendado, tive certo preconceito pois sempre afirmei que detestava o assunto e essa época não me agradava, mas enfim, a história é tão boa e movimentada que acabei gostando.
Conta a história da menina Dinah, que vive com seu bando de irmãos e o pai Jacó, que casou-se com Raquel e Lia, que além de serem irmãs, eram irmãs também das concubinas de Jacó, Zilpah e Bilah. Contando assim, pode parecer meio parado, mas acredite, a cada página você se envolve em uma rede de intrigas, ciúmes e inveja entre as irmãs, e acaba se confundindo quanto à personalidade de cada uma delas. Além dos conturbados perfis psicológicos, algo que nos atrai no livro é a relação de Jacó com seu sogro, Labão, que espanca uma das esposas (Ruti) e se mostra um personagem violento e perseguidor. Vale a pena ler, sem desespero, uma vez que a árvore genealógica dos personagens se encontra no começo do livro (Também pudera, com tantos nomes estranhos!).

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Uma estranha em meu novo mundo

Quando ainda muito pequena determinei: jamais vou ser adulta.
Um tipo de promessa para mim mesma, coisa que me fazia sentir bem.
Dizem que as crianças tem um sexto sentido mais aguçado, ou algo assim, mas quando eu chorava e negava a verdadeira condição de existência de todos nós, parece que eu realmente pressentia algo mais forte, ou eu já conhecia o mundo dos adultos melhor do que qualquer outra criança.

Com o passar do tempo, sem ao menos notar, fui crescendo, minha vida foi mudando, meus hábitos, meu modo de pensar e enfrentar problemas simples, que muitas vezes considerei complicados, não eram mais os mesmos. Aos poucos fui sendo engolida por uma massa de pensamentos antes inexplorados, fui me afundando cada vez mais na arte de conhecer coisas novas e tentar entender os chamados 'adultos civilizados'; afinal... eu sabia que um dia seria um deles. (Como diz o ditado: "Se não pode vencê-los, junte-se a eles").

Pois bem... chegou o dia em que me olhei no espelho e encontrei uma estranha, repetindo meus gestos e a aflição que aos poucos tomava conta de meu rosto. Uma estranha que não me conhecia direito, não entendia muito bem o que eu pensava, não fazia o que eu gostava de fazer, enfim... uma 'quase-adulta', digamos assim. Era também muito estranha fisicamente. Os olhos maiores e rasgados, o rosto maior, os cabelos maios longos, o corpo tomava forma. Me assustei, mas fiquei a encará-la alguns minutos. Perguntei se ela gostava de bonecas, logo respondeu que não, talvez um dia tivesse gostado, mas ainda assim preferira bichinhos de pelúcia, e que atualmente gastava seu tempo lendo ou estudando. Quis saber se tinha uma família perfeita, ela riu, debochou, e me chamou de eterna criança (que não soube amadurecer), logo presumi que a estranha também gostava de mpb.

Decidi tocá-la, para saber se havia algum laço que nos ligasse profundamente, e talvez entender o que tal figura estava fazendo dentro do espelho de meu quarto. Levei meus dedos vagarosamente ao encontro dos dela. A estranha fez o mesmo. Quando a ponta de meu dedo indicador tocou a ponta de seu dedo indicador, senti algo que temera desde o momento em que ganhara a razão, senti um choque enorme e doloroso e, em um impulso, fui jogada violentamente para trás, caindo sentada em minha própria cama. Olhei em volta, percebi que ainda estava em meu quarto... mas as bonecas haviam desaparecido, os bichos de pelúcia não estavam mais sob a cama, meus porta-retratos haviam sido invadidos por fotos da tal menina estranha do espelho e inúmeros cadernos e livros estavam espalhados pelas estantes e prateleiras. Toquei em meu próprio rosto e percebi que estava mudada. Corri em busca de minha real imagem por todos os espelhos da casa, mas em qualquer lugar que fosse, somente a tal estranha se refletia. Encontrei (finalmente) uma boneca em um pequeno armário do antigo 'quartinho de brinquedos', durante um tempo fiquei imóvel, apenas observando a feição imaculada de tal objeto e, alguns segundos depois, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, dei-me conta de que a estranha era eu. Eu havia crescido, minha casa havia mudado, meu modo de pensar não era mais o mesmo, e apesar do susto, não sentia tanto medo quanto pensava que iria sentir. Era agora uma chamada 'quase-adulta', mas isso não me encomodava.

Corri para a porta da frente, e qual não foi o meu espanto ao deparar-me com um imenso buraco negro que, decerto, me engoliria assim que eu tentasse pisar no asfalto desgastado, próximo a tal monstruosidade. Apertei a boneca em minha mão esquerda e caminhei em frente.
Não fui engolida, muito menos deixei-me levar pelo pavor que havia sentido minutos antes. Caminhei vagarosamente e, a cada passo, descobria segredos, antes jamais revelados. Conheci aos poucos um mundo sujo, no qual vivo, onde os mais diabólicos sentimentos da humanidade brotam por todos os lados, causando calafrios e náusea. Pisei em lama, quase afundei-me no lodo verde de intrigas que havia se formado em minha volta. Senti nojo de tudo, senti nojo da poeira da verdade que intoxicava o ar que todos respirávamos, senti nojo dos monstros repugnantes que soltavam fogo pelas ventas e cortavam a cabeça uns dos outros. Tive vontade de gritar, correr de volta para a minha casa, mas de nada adiantaria. Quase me rendi, me juntando a eles, e fazendo parte desse circulo vicioso de maldade e sujeira impregnada nos poucos corações ainda existentes. Senti medo, muito medo, e uma angústia que me maltratava como a ponta de uma faca afiada tocando um de meus olhos. Estava pronta para me juntar a eles quando tudo parou. Um silêncio estranho tomou conta do inferno astral que tais adultos cultivavam e percebi que ainda segurava a boneca. A branca porcelana do rosto imaculado queria me dizer algo. Logo entendi, assim que senti uma brisa leve tocar meu rosto, que minha promessa havia sido cumprida até então: eu ainda era criança. Uma criança vivida, uma criança que conhecera diferentes experiências e sabia de toda a verdade sobre o que acontecia no mundo dos adultos, uma 'quase-adulta' de alma doce. Não sentia mais medo, passei a sentir pena dos monstrinhos infelizes que perambulavam tentando sugar um pouco de felicidade das vidas alheias. E, ao reparar bem, percebi até mesmo que alguns deles tinham a essência boa, uma essência perfumada, com o aroma de inocência, porém, com seus rostos marcados pelo sofrimento.
Voltei para casa. Meus parentes, antes chamados de 'família', não tinham aspecto monstruoso, mas também não eram crianças doces e puras, definitivamente não; eram adultos, com rostos marcados e olhos cândidos de olhar sereno. Sorri, e percebi que a dor estava toda em volta de mim, mas que não me atingia, pois estava estampado na minha testa: eterna criança. Voltei para meu quarto, e adormeci, aprendendo a conviver com meus pesadelos.

ps.: Por favor, me desculpem os erros, confesso que tive preguiça de reler o conto! rs