quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um rosto na árvore

Eis aqui um retrato [escrito] perfeito, nessas linhas tortas e descombinadas, da melhor fase de minha vida até então. Minha simples infância. Eis a saudade de toda inocência do tempo em que eu nem imaginava que atrás de toda panela havia fogo, atrás de toda bossa havia um baseado, de toda infância havia um futuro, de todo ato havia uma consequência, e de toda família havia um inferno; inferno esse que ainda um dia deixará saudades.


























Em um dia qualquer de minha vida
enquanto a panela de pressão apitava no fogo
a bossa nova tocava na rotina passageira
e minha avó chamava para o almoço, anunciando o fim da manhã
Fiz um rosto em uma árvore.

Um coqueiro enorme, o mais bonito da rua.
Fiz MEU rosto nessa árvore!

Um rosto inocente, alegre, infantil.
Rosto de criança que acredita em "para sempre".
Rosto de alguém que ainda crê em mitos e lendas.
Rosto de menina que teme assombração, por ainda não conhecer a saudade, distância, separação.
Fiz meu rosto nessa árvore.
Rosto que já foi meu, mas que hoje não carrego mais.

Passa a hora do almoço e na calada da noite já sou adulta
em alma de criança que não se encontra, e nem quer!

Se a saudade fosse pouca...
Mas nem mesmo meus monstros me visitam agora que sou outra
E até disso sinto falta...

Deixei um rosto na árvore e uma infância para trás.