sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bem tarde

No canto da sala de janelas pequenas e brancas estava sentada uma pequena criaturinha com seu livro de capa azul sobre os biomas brasileiros. Chovia desde as três da tarde e já estava anoitecendo. Os ponteiros do relógio arrastavam-se e o telefone no final do corredor tocava de minuto em minuto. O colégio estadual primário estava vazio, embora todas as luzes ainda estivessem acesas. A menininha, que mexia incansavelmente no canto de suas unhas do polegar, não se importava com o fato de estar sozinha, e nem ao menos levantava os olhos quando ouvia os raros passos largos que ecoavam no corredor de piso frio.
Passaram-se duas horas e a pequena ainda estava lá, sentada no cantinho da sala, em um banquinho de madeira todo colorido. Estava tensa e imóvel. Não era uma quinta-feira qualquer, era o dia em que completaria oito anos, e milhões de sonhos passavam na sua mente de criança.
Ouviu através da janela um barulho de motor, e sentiu uma luz muito forte do farol de um carro atravessar os vidros quebrados da janela da sala da frente; mas não se moveu. Parou de mexer nas unhas por alguns instantes e cruzou os dedos. Minutos depois, ao perceber que tudo estava como antes, deu um suspiro profundo e fechou os olhos por alguns instantes. Encostada no canto da parede, adormeceu.
Já era tarde quando uma simpática senhora ruiva veio chamá-la. A pequena abriu lentamente os olhos ao som dos portões de ferro do colégio sendo fechados. A mulher colocou-a de pé, ajeitou o vestido da menina enquanto dizia algo como: "Vamos meu bem, vou levá-la até sua casa." A criança, esfregando os olhos claros de cílios longos explicou:
- Me desculpe professora, mas não posso ir agora, meu pai me pediu que eu o esperasse aqui!
Deixando os livros de lado, a senhora ruiva ajoelhou-se, pegou as mãos da menininha e insistiu: "Eu vou levá-la pois seu pai me pediu agora mesmo pelo telefone. Ele teve um imprevisto e não poderá buscá-la!"
A pequena olhou mais uma vez para seus dedinhos pequenos e brancos, passou as mãozinhas no cabelo, pegou seu livro de capa azul e acompanhou a professora de volta para casa enquanto lembrava-se da figura sempre ausente a quem chamava de 'pai'. Anos depois, quando o mesmo fosse beijar sua testa ao parabenizá-la por alguma conquista, poderia até mesmo sorrir em retribuição, mas jamais se esqueceria das marcas de sua infância.