quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Almoço em família

"Droga! Droga! Droga! Não quero ir!" resmunguei enquanto minha mãe abria a janela do meu quarto permitindo a invasão daqueles floquinhos brilhantes misteriosos que circulam pelo ar.

- Filha, você sabe que domingo é dia de almoço em família. Todos seus primos estarão lá e vai ser divertido ouvir as histórias dos seus tios.

Temos aí dois bons motivos para não ir: (1) Todos os primos reunidos arquitentando um plano para acabar com o seu domingo e (2) Seus tios brincando de conte-aquela-história-idiota-o-máximo-de-vezes-que-puder!
Mais que depressa acionei meu estoque de desculpas para não ir...

- Mãe, tenho prova de álgebra no terça; tenho que cuidar do cachorro; estou gripada, com dor-de-cabeça, náusea, coriza, dor no corpo, dor de ouvido, dor nas unhas e nas pontas do cílios e, além do mais, tenho que estar por aqui caso um grupo de ninjas chineses decidam assaltar nossa geladeira durante a tarde!
- Ok querida, vou tomar um banho e quando sair quero ver você pronta. Estou ansiosa para conhecer o namoradinho da sua prima Karina.

"Como? Karina? Eu tenho uma prima chamada Karina?" pensei comigo. Minha família se multiplica como uma criação de coelhos! A não ser que essa Karina seja aquela minha prima chata de treze anos que ainda nem saiu das fraldas.
Ah meu Deus!! O maior crime que cometi foi o de roubar balinhas na infância e já estou recebendo uma pena para assassinos.
Todo almoço em família é assim: Chegamos sorrindo, os primos mais novos estão gritando e correndo pela casa enquanto os aborrescentes os censuram com olhares rotulados de "ainda bem que agora sou adulto"; as tias distribuem beijocas e falam mal de vizinhos e conhecidos; os tios tiram sarro uns dos outros e exibem fotos de seus carros e suas empresas, os avós assistem aquele programa depressivo de domingo enquanto a cozinheira Maria se estabana toda com as travessas e talheres. Quando você chega, você passa a ser o assunto. "E aí? Já arrumou namorado? Está indo bem nas provas? Passou no vestibular? Está ajudando sua mãe com as tarefas do lar? Decidiu seu futuro? Vai querer casar? Ter filhos? Está emburrada? Caiu da cama hoje? Acordou com o pé esquerdo? Qual a cor da calcinha que você está usando?" ... e você mantêm aquela resposta única na mente, para todas essas perguntas, a convencional "Vá se ferrar!".
Enfim chega a hora do almoço. Os priminhos se estapeiam pelos lugares mais confortáveis, enquanto os adultos "quebram a cabeça" para arranjar um jeito de não separar os casais. (O que eu nunca entendi, porque estamos ali para comer e não para conversar, ou namorar...). Surge sempre um pentelho que não gosta do prato e a coitada da Maria corre para fritar uns bifes para o parente enjoado. A lei de murphy sempre age de acordo com a hora mais inoportuna e nunca se esquece de derrubar um talher ou um copo, aumentando ainda mais o tumulto.
É impressionante como as travessas se organizam na mesa a favor do aumento do grau de nossa insanidade. Sempre nos sentamos perto daquilo que menos gostamos de comer e longe daquilo que queremos repetir. As crianças geralmente são colocadas em frente às saladas e longe das batatas fritas, e acabam subindo por cima de todo mundo durante o almoço. Os que não comem feijão acabam atraindo a travessa de feijão para a sua frente e assim sucessivamente.
Todos comem, falam, gritam, dão risada, as crianças choram; os adultos discutem a última cena da novela, a criação dos filhos e tentam criticar e questionar temas universalmente inquestionáveis. Bebês engasgam, pirralhos brigam, a TV continua ligada, o radinho de pilha da Maria "manda bala" no sertanejo e quando você menos espera alguém derruba um copo cheio de refrigerante em você. Seu cérebro fica cada vez mais comprimido devido ao excesso de besteira de alguns parentes fúteis e sua alma corre da esquerda para direita e da direita para a esquerda batendo nos cantos da sala de jantar. Suas pernas pulam sozinhas, suas veias pulsam, sua pele arde, sua língua coça... mas qualquer coisa que você diga ou faça só vai ser mais um pretexto para uma nova discussão. Você tem que fingir que é um deles para não ser chamado de "anti-social" optando então por deixar sua coerência um pouco de lado.
Bater de talheres, trincar de copos, arrastar de cadeiras, sertanejo no radinho, apresentador gordo e maluco mostrando ao mundo gente que definitivamente não tem talento e, ufa! Fim de almoço. Aos poucos as pessoas vão terminando, deixando a mesa, levando os pratos para a cozinha... você só tem que aguentar mais alguns minutos na sala com seus priminhos mimados e os aborrescentes que acham que sabem de tudo e em poucas horas estará novamente na paz do seu quarto.
Ah... o seu quarto... Aquele silêncio só seu, aquela liberdade... aquele tédio! Tédio... tédio... falta do que fazer... tédio! (...) Nada de parentes por perto. Nada de família barulhenta, nada de histórias repetidas e engraçadas dos seus tios... E de repente, você se dá conta que o seu mundinho é muito chato, e que a maior aventura é estar em família.

- Pronto filha! Terminei o banho. Vamos depressa que seus avós já devem estar esperando!

Mais que depressa pego minha máquina fotográfica e corro em direção a porta. Ahh .. ALMOÇO EM FAMÍLIA! Estou ansiosa para registrar esse momento!