quinta-feira, 25 de março de 2010

musicalmente "adeus"...

Andando no Anhangabaú vi um homem.
Não mais, nem menos do que eu. Era um homem... mais precisamente um senhor, com toda uma história escrita na face.
Sentado no chão, rabiscava uns traços fortes.
Mal olhava em volta, estava em paz.
Eis que surge um outro homem e leva um de seus papéis.
O velho mal levantava a cabeça, mas pediu que resgatassem seu desenho.
As pessoas, que passavam apressadamente mal notaram sua presença, muito menos o fato ocorrido. Foram frias, indiferentes e egoístas; mas pior fiz eu: que vi!, e nada fiz.
Foi o que me passou em mente: vi e nada fiz! ... vi e nada fiz!... como se eu pudesse fazer realmente algo. Como se fosse meu dever como cidadã brigar por um desenho de um morador de rua. E não era?

Me sentindo mais culpada do que o próprio ladrão de papéis fiz então algo ainda mais deplorável que, embora digam ser um ato de sensibilidade, não consigo ver sendo menos que um atestado de total incompetência: chorei. Disfarcei e chorei. No meio da rua, no meio de todos, escondida apenas atrás de um óculos escuro. A infelicidade morava tão vizinha que de tola, até pensei que fosse minha.

Não chorei pelo desenho, pelo homem, pela miséria, pelo egoísmo humano...
Chorei por mim! Sei que é desumano... mas chorei somente por mim.
Não senti as mesmas sensações que sentiria a algum tempo atrás.
Procurei nas mais profundas lembranças, mas não encontrei nada semelhante à indiferença praticada a segundos antes.
Acontece que o meu coração ficou frio. Um vazio se fez em meu peito, e de fato eu senti em meu peito um vazio.

Lembrei-me ainda menininha, inocente e feliz. Acreditei por alguns segundos que eu poderia pensar como antes pensava, mas logo vi que a criança que tomaria uma iniciativa não estava mais ali.
Mas por que antes eu podia abraçar o mundo e agora não posso mais?
Nosso coração é inversamente proporcional à nossa idade, só pode.

E aquela garota que ia mudar o mundo? Nem assistir a tudo em cima do muro consegue, pois fechar os olhos é absurdamente mais fácil, não é?
Não quero uma ideologia pra viver, não quero! O poeta exagerado que me desculpe, mas a única coisa que senti no momento foi a lástima de querer não saber nem ao menos o que vem a ser uma "ideologia"! Mas não posso.

Meu coração sensitivo de criança não queria crescer. Já disse mil vezes e repito: nunca quis correr na frente do tempo. Mas aconteceu. O maldito passou e continua passando!

E nesse dia, durante tal fato percebi que o que deixou mais saudades de tudo que passei na infância, acabou sendo eu mesma. A menininha morreu. Hoje temos vestígios da doçura de uma criança, que podem se corromper com o passar dos anos.
Mas a pequena heroína que tinha por volta de seus 6 ou 7 anos de idade, não está mais aqui para construir um mundo melhor! Levou minhas esperanças, meu sorriso, meu assunto, meus planos, meus pobres enganos, meus sete anos, meu coração... e só deixou suas saudades.