domingo, 9 de maio de 2010

O Conto de Duas Faces

FACE A

Tirei a vida de uma criança inocente, uma alma imaculada. No começo achei boa a sensação de alívio de me livrar de um peso que tanto me atormentava; algo que, anteriormente, jamais faria parte da minha história, da minha personalidade, dos meus princípios. Adoraria reverter essa situação, mas quando deixamos o impulso tomar conta da razão, o sentido de tudo muda; os sentimentos tornam-se apenas mais uma ferramenta de nossos desejos e ações. Um erro cruel se tornara meu pior e eterno pesadelo. Tornei-me assim um monstro.

Era um fim de tarde. Ela estava sentada em frente à janela. As pernas curtas juvenis balançavam de acordo com a música da vitrola, e as maçãs do rosto, coradas, exibiam uma beleza e vitalidade que eu jamais havia exibido em momento algum de minha existência. Um sentimento terrível tomou conta de qualquer outra sensação que pudesse me dominar naquele momento.

Sentei-me ao lado dela e fiquei algum tempo observando sua expressão inocente. Sempre odiei a solidão, precisava dela ao meu lado. Minha boneca malcriada, de ossos, carne e doçura. Me sentia cada vez mais insana e imoral.

Minha irmã havia sido minha pequena companheira por incontáveis anos. Não suportava a possibilidade de perdê-la, precisava embalsamá-la ao meu lado, pelo preço que fosse; mesmo que isso custasse minha alma. Tudo o que acontecera acabara por levar aos pouquinhos minha lucidez. Já não conseguia diferenciar meus sentidos da racionalidade. Esse medo de perdê-la alimentava minha vontade de agir de acordo com o desumano. Estava eu inquestionavelmente atormentada, e em outra dimensão.

Após meu terrível crime, cada minuto naquele lugar me levava a viver experiências extremamente saudosas, mas meu arrependimento vez ou outra controlava a situação. Não havia saída. Eu estava sozinha nessa e cada segundo me mostrava que a solidão poderia aumentar cada vez mais meu sofrimento.

Apenas um ato errôneo mudara o sentido de minha vida, ou da falta de vida que se instalava em meu ser. (...) Tirei uma vida. O que poderia fazer após tal monstruosidade?

Naquela noite silenciosa fui até a cômoda da sala de estar, tomei então uma decisão. Na primeira gaveta havia um vidro de veneno que meu pai, três anos antes usara para vingar-se das traições de minha mãe. Desde então, minha irmãzinha ficara sob meus cuidados. Decidi ir embora, deixar qualquer tipo de lembrança e culpa naquele sobrado frio e sombrio. Tirei minha vida naquela noite, mas não adormeci totalmente. Passei a vagar pelos cantos úmidos e escuros da velha mansão, carregando minhas lamúrias e a dor de uma tarde fria. Uma alma revoltada, pronta para trazer alguém ao meu novo universo.

Não cometi um crime em vida. Leia agora os parágrafos de baixo para cima e conheça meu medo da solidão.


FACE B

Naquela noite silenciosa fui até a cômoda da sala de estar, tomei então uma decisão. Na primeira gaveta havia um vidro de veneno que meu pai, três anos antes usara para vingar-se das traições de minha mãe. Desde então, minha irmãzinha ficara sob meus cuidados. Decidi ir embora, deixar qualquer tipo de lembrança e culpa naquele sobrado frio e sombrio. Tirei minha vida naquela noite, mas não adormeci totalmente. Passei a vagar pelos cantos úmidos e escuros da velha mansão, carregando minhas lamúrias e a dor de uma tarde fria. Uma alma revoltada, pronta para trazer alguém ao meu novo universo.

Apenas um ato errôneo mudara o sentido de minha vida, ou da falta de vida que se instalava em meu ser. (...) Tirei uma vida. O que poderia fazer após tal monstruosidade?

Após meu terrível crime, cada minuto naquele lugar me levava a viver experiências extremamente saudosas, mas meu arrependimento vez ou outra controlava a situação. Não havia saída. Eu estava sozinha nessa e cada segundo me mostrava que a solidão poderia aumentar cada vez mais meu sofrimento.

Minha irmã havia sido minha pequena companheira por incontáveis anos. Não suportava a possibilidade de perdê-la, precisava embalsamá-la ao meu lado, pelo preço que fosse; mesmo que isso custasse minha alma. Tudo o que acontecera acabara por levar aos pouquinhos minha lucidez. Já não conseguia diferenciar meus sentidos da racionalidade. Esse medo de perdê-la alimentava minha vontade de agir de acordo com o desumano. Estava eu inquestionavelmente atormentada, e em outra dimensão.

Sentei-me ao lado dela e fiquei algum tempo observando sua expressão inocente. Sempre odiei a solidão, precisava dela ao meu lado. Minha boneca malcriada, de ossos, carne e doçura. Me sentia cada vez mais insana e imoral.

Era um fim de tarde. Ela estava sentada em frente à janela. As pernas curtas juvenis balançavam de acordo com a música da vitrola, e as maçãs do rosto, coradas, exibiam uma beleza e vitalidade que eu jamais havia exibido em momento algum de minha existência. Um sentimento terrível tomou conta de qualquer outra sensação que pudesse me dominar naquele momento.

Tirei a vida de uma criança inocente, uma alma imaculada. No começo achei boa a sensação de alívio de me livrar de um peso que tanto me atormentava; algo que, anteriormente, jamais faria parte da minha história, da minha personalidade, dos meus princípios. Adoraria reverter essa situação, mas quando deixamos o impulso tomar conta da razão, o sentido de tudo muda; os sentimentos tornam-se apenas mais uma ferramenta de nossos desejos e ações. Um erro cruel se tornara meu pior e eterno pesadelo. Tornei-me assim um monstro.