quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A casa ilusória

É ruim, eu sei! E eu não reli para não perder o costume. Mas preciso guardar isso em algum lugar... que seja...

Como todo pesadelo, começou do nada. Eu ainda estava confusa, entrando em transe, não me lembro ao certo. Só me lembro de que, me deitei na cama e, assim como ocorreu a 5 minutos atrás, acordei no meio da madrugada, no meu quarto mesmo, com uma tontura muito forte. O quarto inteiro girava, como uma sensação de estar bêbada com o mal-estar pós-porre. Foi então que o mais estranho aconteceu, não perguntem-me como, mas percebi que era um pesadelo.
Foi tão real que eu estava passando o final de semana na casa dos meus avós, e o meu quarto estava do mesmo jeito. Pensei: se é um pesadelo pode acontecer qualquer coisa, e foi assim que meu medo aflorou. Precisava de alguém, urgentemente, para me acordar. Decidi gritar. Inocência a minha de achar que naquele pesadelo algo seria diferente e,pela primeira vez, minha voz fluiria normalmente no auge de um pesadelo clichê, onde não se corre, fala, grita e muito menos ganha. (Seja de qualquer perigo que você esteja enfrentando).
Tentei gritar diversas vezes mas a voz não saía. Um líquido frio começou a escorrer da minha boca, mas algo dificultava meus movimentos, eu nem ao menos conseguia levar uma das mãos ao rosto. Tudo pesava e rodava ao mesmo tempo.
A solução que encontrei foi levantar e correr até o quarto de meus avós. Ao me virar na cama fui arremessada ao chão, sentindo uma sensação de peso ainda maior. Tentei gritar mais algumas vezes e percebi que parte do meu quarto não existia. Havia um buraco negro enorme, como uma verdadeira ilusão de ótica. De fato, era um pesadelo e eu estava lutando para acordar. Uma dúvida me apareceu por um momento: “Se no pesadelo estou me esforçando até a alma para que saia um único ruído, será que minha forma real nesse momento está emitindo algum som?”. E seria bom que, no plano real, mesmo dormindo eu estivesse gritando, um pouco que fosse, assim alguém me acordaria e eu não teria que passar pelo resto dessa jornada na casa ilusória.
Me arrastei pelo corredor até o quarto de meus avós. Meu avô estava parado em frente a porta. Ocorreu-me que o fato de eu estar estirada no chão chamaria a atenção para algo sobrenatural, mas nada. Ele apenas me olhou e passou reto.
Fui até o sofá, lá consegui me levantar e sentei. Minha priminha estava sentada no chão, a minha frente e, como de costume, mandei ela ser minha mensageira. Só consegui falar algo como “avise a vovó que estou num pesadelo”. Ela avisou. E o mais surpreendente foi que, minha lúdica avó agiu como provavelmente agiria minha avó real: não deu muita importância ao caso e me mandou ser forte e esperar o final.
Como todo pesadelo típico de Malu Paixão, teve um ‘quê’ de engraçado e cínico quando passaram pela porta do quarto minha mãe, meu padrasto e um amigo deles que eu nunca vi na vida. Eu simplesmente inventei essa terceira pessoa. Eles foram em uma festa nessa noite (no plano real!) e, no pesadelo, lembrei-me da festa e ainda pude pensar “Nossa, chegaram cedo! Ainde nem é de dia...”. O amigo sentou-se na cadeira do balcão, meu padrasto sentou-se ao meu lado no sofá e minha mãe sumiu. Meu padrasto começou a comentar algo que passava na televisão mas eu prestava atenção apenas no meu objetivo. Acordar. Por que não acordar sozinha? Certa vez, quando criança, eu tivera um pesadelo e estava ciente disso, então fechei os olhos, me concentrei e acordei! Estranho, mas foi assim que aconteceu.
Tentei me concentrar diversas vezes,mas não conseguia sair de lá de jeito algum. Em uma delas, algo me arrastou para o chão. Estava tudo tão ondulado e ilusório que, para meu desespero, eu nem vi o que foi. Na última tentativa de me concentrar, quando abri os olhos eu estava na cama! ... mas no quarto de meus avós! Eu não havia dormido lá, e a sensação de fracasso por não estar conseguindo acordar foi me torturando a cada segundo.
Tudo estava muito escuro. Tive uma última idéia, pensei “as pessoas costumam pedir para serem beliscadas quando acham que estão sonhando, é crença, lenda, bobeira... ridículo! Mas não custar tentar...” Levei meus dedos, ainda pesados, ao braço e, com a unha, me belisquei forte até machucar de verdade. Abri os olhos e vi a televisão do quarto de meus avós. Não deu certo. Tentei novamente e aconteceu a mesma coisa,mas dessa vez não sentia meu corpo tão pesado. Virei-me devagar e vi que estava em meu quarto. O buraco negro havia sumido e as coisas estavam tão devidamente em seus lugares que não poderia mais ser algo surreal. Acordei ainda me beliscando, tive um pequeno devaneio de olhos abertos sobre a televisão, mas ao acender a luz tudo voltou ao normal, e me senti mais acordada do que nunca e, até que entre mais alguém surpreendentemente por aquela porta, estou convencida de que estou relativamente bem.