quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Terra da Garoa;

Antes de mais nada vou confirmar a dúvida de muitos por aqui, o título da postagem foi sim uma ironia. Talvez em outra época, em outras circunstâncias não fosse; mas devido aos fatos, enchentes devastadoras e acontecimentos, passou a ser. Venho em meio desta postagem então defender a terra que tem nos trazido tanta preocupação ultimamente. Embora não tenha nascido lá, grande parte de minha infância passei nos apartamentos de meus tios, nas praças, museus e parques que fazem história nessa cidade. Não a chamamos exatamente de "cidade maravilhosa" até mesmo porque esse título já existe para um outro lugar, mas eu diria que, dentre as principais qualidades, a de 'não ser extremamente perfeita' é a melhor delas.
Dilvulgo agora um texto repassado pelo meu amigo Guilherme Dietrich (@GuiDietrich) do Twitter que foi publicado no dia 7 de dezembro no blog Contra a Correnteza.
Eis aqui um texto realisticamente poético sobre a cidade mais culturalmente industrializada desse imenso país de variedades...

Voltei à rotina.

Depois de alguns dias passeando na tal "Terra da Garoa", volto à "Cidade Maravilhosa" com uma constatação: pode fazer um sol danado em São Paulo e o Rio continua bonito, mas longe de ser maravilhoso.

Temos aqui engarrafamentos proporcionalmente tão monstruosos quanto.

Mas não é esse o assunto, hoje quero falar sobre a cidade em que não nasci, mas pela qual me apaixono mais e mais a cada visita.

São Paulo não é para pessoas rasas, isso é fato.

Apreciá-la requer um olhar que transponha a sua grandeza, o seu caos, a sua multidão de rostos indo e vindo e penetre nas suas nuances. Causa espanto para quem tem a sorte de possuir este olhar como esta cidade grandiloquente em tudo pode ser tão intimista, detalhista, minimalista.

Cafés, sorveterias, livrarias, recantos, um simples banco no Parque Trianon e a refrescante sombra de suas árvores, as esquinas, as pequenas galerias, os achados.

Seu mapa sinuoso é um mapa do tesouro, de vários tesouros, basta que se procure.

Sabores, cores, histórias e recantos de uma cidade que, para quem assim como eu aprecia sensações, é um dos melhores lugares do mundo.

Pude rever a sua Rua Augusta, que tão paulistana como é, não se contenta em ser "normal" e dependendo do referencial, tem duas subidas e duas descidas.

Cada uma guardando tesouros, como uma pequena loja que vende lindos e deliciosos cupcakes, a Sotto Zero e seus sorvetes ali há tanto tempo, a Galeria Ouro Fino e seus doidões de butique, as Alamedas e a Oscar Freire, que possuem quase todos os prazeres que o dinheiro pode comprar.

Para os demais prazeres, basta ir "pro outro lado", com seus bares, casas noturnas, puteiros e teatros. De um lado, a Estados Unidos e na outra ponta a praça Roosevelt, no meio disso tudo, o mundo. Nada poderia ser mais perfeito para definir uma rua.

São tantos assuntos, que acho que voltarei a falar sobre a cidade algumas vezes aqui, porque ela não merece um texto, uma crônica, uma poesia e nem um livro, essa cidade merece uma enciclopédia dedicada só a ela.

Fazia tempo que não visitava São Paulo, mas pude lembrar bem porque gosto tanto dessa terra. Ela desperta paixões porque possui um pouco de todos nós, um pouco do que trazemos dentro de nós, a beleza, a feiúra, a doçura, a violência, o caos e a paz.

São Paulo é um pouco da vida, cada curva revela uma surpresa e cada retorno ou cruzamento que viramos, pode revelar coisas muito belas ou muito feias, mas todas extremamente verdadeiras.

Problemas, todos os tem, não seria diferente por lá.

Mas poucos lugares no planeta possuem tantos antídotos para os males da rotina quanto o antigo Povoamento do Pátio do Colégio, essa minha querida São Paulo de Piratininga, que um dia ainda me concederá intimidade suficiente para chamá-la simplesmente de "Sampa".

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A escolhida

Entre tantas outras vidas
Outras tantas almas perdidas
Vi a sua se desfazer
Dentre inúmeros infelizes loucos
Ouvi seus gritos aos poucos
Saudarem cada amanhecer.

Entre variadas rotinas
Em milhares de meninas
Uma é destinada a sofrer
Quando falo do passado
Além de um verso rasgado
Alimento o meu ser.

Entre letras escorridas
Escarradas e esculpidas
Entendi o seu pesar
Toda angústia torturante
E a dor em seu semblante
Me ensinaram amar.

Entre amargos devaneios
Procuramos outros meios
De fugir da realidade
Cada ato indolor
Hoje deixa uma dor
Bem mais forte que a saudade.

Entre tantos outros poemas
Um ressalta seus problemas
E hoje me leva a crer
Que dentre tantas outras vidas
Outras tantas almas perdidas
Quem mais sofre é você.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Almoço em família

"Droga! Droga! Droga! Não quero ir!" resmunguei enquanto minha mãe abria a janela do meu quarto permitindo a invasão daqueles floquinhos brilhantes misteriosos que circulam pelo ar.

- Filha, você sabe que domingo é dia de almoço em família. Todos seus primos estarão lá e vai ser divertido ouvir as histórias dos seus tios.

Temos aí dois bons motivos para não ir: (1) Todos os primos reunidos arquitentando um plano para acabar com o seu domingo e (2) Seus tios brincando de conte-aquela-história-idiota-o-máximo-de-vezes-que-puder!
Mais que depressa acionei meu estoque de desculpas para não ir...

- Mãe, tenho prova de álgebra no terça; tenho que cuidar do cachorro; estou gripada, com dor-de-cabeça, náusea, coriza, dor no corpo, dor de ouvido, dor nas unhas e nas pontas do cílios e, além do mais, tenho que estar por aqui caso um grupo de ninjas chineses decidam assaltar nossa geladeira durante a tarde!
- Ok querida, vou tomar um banho e quando sair quero ver você pronta. Estou ansiosa para conhecer o namoradinho da sua prima Karina.

"Como? Karina? Eu tenho uma prima chamada Karina?" pensei comigo. Minha família se multiplica como uma criação de coelhos! A não ser que essa Karina seja aquela minha prima chata de treze anos que ainda nem saiu das fraldas.
Ah meu Deus!! O maior crime que cometi foi o de roubar balinhas na infância e já estou recebendo uma pena para assassinos.
Todo almoço em família é assim: Chegamos sorrindo, os primos mais novos estão gritando e correndo pela casa enquanto os aborrescentes os censuram com olhares rotulados de "ainda bem que agora sou adulto"; as tias distribuem beijocas e falam mal de vizinhos e conhecidos; os tios tiram sarro uns dos outros e exibem fotos de seus carros e suas empresas, os avós assistem aquele programa depressivo de domingo enquanto a cozinheira Maria se estabana toda com as travessas e talheres. Quando você chega, você passa a ser o assunto. "E aí? Já arrumou namorado? Está indo bem nas provas? Passou no vestibular? Está ajudando sua mãe com as tarefas do lar? Decidiu seu futuro? Vai querer casar? Ter filhos? Está emburrada? Caiu da cama hoje? Acordou com o pé esquerdo? Qual a cor da calcinha que você está usando?" ... e você mantêm aquela resposta única na mente, para todas essas perguntas, a convencional "Vá se ferrar!".
Enfim chega a hora do almoço. Os priminhos se estapeiam pelos lugares mais confortáveis, enquanto os adultos "quebram a cabeça" para arranjar um jeito de não separar os casais. (O que eu nunca entendi, porque estamos ali para comer e não para conversar, ou namorar...). Surge sempre um pentelho que não gosta do prato e a coitada da Maria corre para fritar uns bifes para o parente enjoado. A lei de murphy sempre age de acordo com a hora mais inoportuna e nunca se esquece de derrubar um talher ou um copo, aumentando ainda mais o tumulto.
É impressionante como as travessas se organizam na mesa a favor do aumento do grau de nossa insanidade. Sempre nos sentamos perto daquilo que menos gostamos de comer e longe daquilo que queremos repetir. As crianças geralmente são colocadas em frente às saladas e longe das batatas fritas, e acabam subindo por cima de todo mundo durante o almoço. Os que não comem feijão acabam atraindo a travessa de feijão para a sua frente e assim sucessivamente.
Todos comem, falam, gritam, dão risada, as crianças choram; os adultos discutem a última cena da novela, a criação dos filhos e tentam criticar e questionar temas universalmente inquestionáveis. Bebês engasgam, pirralhos brigam, a TV continua ligada, o radinho de pilha da Maria "manda bala" no sertanejo e quando você menos espera alguém derruba um copo cheio de refrigerante em você. Seu cérebro fica cada vez mais comprimido devido ao excesso de besteira de alguns parentes fúteis e sua alma corre da esquerda para direita e da direita para a esquerda batendo nos cantos da sala de jantar. Suas pernas pulam sozinhas, suas veias pulsam, sua pele arde, sua língua coça... mas qualquer coisa que você diga ou faça só vai ser mais um pretexto para uma nova discussão. Você tem que fingir que é um deles para não ser chamado de "anti-social" optando então por deixar sua coerência um pouco de lado.
Bater de talheres, trincar de copos, arrastar de cadeiras, sertanejo no radinho, apresentador gordo e maluco mostrando ao mundo gente que definitivamente não tem talento e, ufa! Fim de almoço. Aos poucos as pessoas vão terminando, deixando a mesa, levando os pratos para a cozinha... você só tem que aguentar mais alguns minutos na sala com seus priminhos mimados e os aborrescentes que acham que sabem de tudo e em poucas horas estará novamente na paz do seu quarto.
Ah... o seu quarto... Aquele silêncio só seu, aquela liberdade... aquele tédio! Tédio... tédio... falta do que fazer... tédio! (...) Nada de parentes por perto. Nada de família barulhenta, nada de histórias repetidas e engraçadas dos seus tios... E de repente, você se dá conta que o seu mundinho é muito chato, e que a maior aventura é estar em família.

- Pronto filha! Terminei o banho. Vamos depressa que seus avós já devem estar esperando!

Mais que depressa pego minha máquina fotográfica e corro em direção a porta. Ahh .. ALMOÇO EM FAMÍLIA! Estou ansiosa para registrar esse momento!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Mulher de Marte - Betty Vidigal

"Não me olhes com esses olhos de perigo:
cuidado comigo.
Se mergulho nos teus olhos, não consigo
deixar de provocar-te. É um vício antigo,
e esse meu lado disfarçado, ambíguo,
tão diferente do meu jeito
usual de fazer tudo direito
é, dos meus defeitos,
talvez a pior parte.

Sei que dizem que as mulheres são de Vênus,
mas sei que eu, pelo menos,
sou de Marte."

[Mulher de Marte - Betty Vidigal.]

sob o sobre mim

Fogo frio, tudo e nada;
Emoções passadas, personalidade presente.
Não me julgue, não me irrite... não percebo!
Não me condene pelo grau de meu medo,
Quem dirá pela minha opinião ausente.

Sou daquele jeito, desse jeito e nem sei;
Não descrevo sensações, pessoas e momentos;
Não relato com clareza os sentimentos,
Mal sei sentir,
Nem sei amar profundamente;
Já nem me encontro constantemente,
Mal sei sorrir.

Sou fogo frio, tudo e nada;
Inodora, incolor, insensível, apática,
Talvez uma imagem desfigurada.

Impossível citar características válidas,
Quanto mais descrever algo tão complicado.
Só não me julgue,
Se nem sei sobre o presente...
É pura tolice encontrar o passado.