quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Nesse mundo tão pseudo-liberal..

Que tenhamos os mesmos pensamentos, sentimentos, emoções. Que sejamos invejavelmente perfeitos um para o outro. Que gostemos das mesmas coisas, das mesmas músicas, das mesmas bandas, dos mesmos programas de tv, dos mesmos lugares, dos mesmos restaurantes... Mas que, ainda assim, sejamos opostos o bastante para você gostar de mulher .

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Como era doce;


Como era lindo;
As noites tão quentes repletas de histórias...
Que em minhas memórias...
Conservo sorrindo,

Como brilhava;
Nem mil serenatas sob a branca lua...
Me fariam amar tanto aquela rua,
E a praça, tranquila, que eu idolatrava,

Como era azul;
Aquele meu céu do outro lado da janela
E a estrela mais bela
Que apontava pro sul,

E era perfeito;
De tão empolgada com a mocidade...
Não despedi da cidade...
Que era meu leito,

Emolduro a tal querida...
Em cada segundo,
Tão perdida no mundo!...
Cidade de minha vida.

domingo, 9 de outubro de 2011

Palavras de março...

Em março te escrevi uns versos, com meia dúzia de "poderia".
Cinco parágrafos inúteis pra rodear o meu amor; e mascarar, e disfarçar a declaração que aparecia.
Mas meu jeito quase-insensível foi confundível, e te fez pensar que eram pedidos, ou quem sabe reclamações do seu jeito incomum.
Mas reclamação sincera, sobre o seu 'sorriso bobo', não havia em nenhum!
E naqueles versos perdidos, haviam só "palavras de março"...
E palavras não descrevem a alegria que sinto ao te ver dormindo, acordando; e fazendo as coisas mais banais que o mundo te designa a fazer.
Entende agora o que eu quero dizer?
E se a resposta ainda for "não". Tenho mais uma vida inteira para te ensinar que amo você.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A foto que resume saudade;

(Porque até mesmo eu, tão ocupada pela arrogância, guardo meu espacinho no peito para o essencial ingrediente da vida.)
Uma menininha de longos cabelos negros no auge da infância de pés descalços em frente à porta de madeira da casa 6 de um dos bairros mais antigos da cidade.
Um portão de ferro logo ao lado, cujo barulho avisava os moradores do velho sobrado de que o mesmo fora aberto e, conseqüentemente, estavam lavando a calçada.
Uma parede alta de tijolinhos marrons, como a casa do mais esperto dos “três porquinhos” do antigo conto infantil; indicando que ali havia não somente segurança, mas muito espaço para a alegria e fantasias juvenis.
Uma antiga arandela com uma lâmpada de luz muito baixa que permanecia acesa durante todas as noites enquanto o último filho dos donos do sobrado não entrasse; e iluminava pequenas trilhas de formiguinhas na parede branca, entre outros universos interessantíssimos aos olhos de uma criança...

Ah sim! E os olhos. Os olhos da menininha que, entre seus traços característicos de meio-mestiça e seus universos de criança, refletidos em cada piscadela... olhavam para mim, e hoje (se bem observados) parecem ter tentado me alertar de que “observar tudo isso um dia ainda seria apenas saudade”.
É, parece que o tempo passou na janela e só eu não vi.

sábado, 10 de setembro de 2011

À minha mãe...

À essa relação de amor descomunal.
Eis um vídeo dedicado à pessoa que me fez conhecer sensações bipolares, de ternura ao desespero. Em cada traço dessa antítese facial está escrita a mais linda história que presenciei e da qual, orgulhosamente, faço parte. Não sei se estou presente em seus olhos tristes e serenos ou em seu sorriso largo e contagiante; o fato é que sou parte dela pois ainda não consigo ser Milene inteiramente. Aí está o capítulo ilustrado mais difícil da época em que quase fui 'de privilegiada a órfã'... Os meses mais difíceis da minha vida... O tempo em que quase perdi minha mãe.
(...)
E que cada volta sua realmente apague o que alguma ausência sua possa ter me causado.

video

domingo, 14 de agosto de 2011

O Meu Pai Frankenstein

Cá estou novamente, mais um ano, chegando nessa grandiosa festa sem trazer um presente e nem ao menos saber quem é o aniversariante.
É estranho sentir-se perdida numa data em que muitos já têm a opção certeira do que fazer enquanto outros apenas deixam-se levar pela emoção da ocasião. O fato é que nesse dia, para mim, não há emoção alguma que eu possa chamar de "legalmente minha". Estaria errada em me sentir no direito de comemorar o Dia dos Pais sem ter um pai (propriamente dito) para presentear? Um ateu é errado ao presentear a mãe, católica fervorosa, com um belíssimo presente de natal? É justo uma criança de apenas cinco anos não ganhar mais ovos de chocolate durante a páscoa porque alguém acabou com o encantamento revelando que o coelhinho não existe?
Pois bem, estou aqui de braços abertos para presentear com toda minha gratidão qualquer figura paterna que tenha passado pela minha vida, mesmo não recebendo o honrado título de "pai". Estou aqui para, finalmente, apresentar a vocês O MEU PAI...
Só há um probleminha: ele está meio fragmentado! (...) Sim, é difícil ter um pai em pedacinhos, mas nem por isso deixa de ser uma opção interessante. Quero que vocês conheçam, nessa data tão especial, os tais pedacinhos, cada qual em sua função. Apresento-lhes agora... O Meu Pai Frankenstein:
Não me canso de repetir, ano após ano, meu agradecimento clichê aos meus tios Marcos e Marcelo, que com laços de afeto que vão muito além de relação de tios com sobrinhas me fizeram entender o lado jovem da relação fraternal.
Em meu tio Marcelo sempre tive o conforto de uma mente jovem, apaziguando qualquer possível choque de gerações e me ajudando nos momentos mais difíceis. Em meu tio Marcos encontro o conforto intelectual de "pai que ensina", despertando assim o brilho de admiração de um olhar confuso de menina perdida, em cada conversa que temos.
Sinto-me à vontade para agradecer também meu padrasto, Luis Mauro, que considero não somente o pai que acompanha e cuida da minha mãe nos momentos em que ela precisa, mas a pessoa que me adotou por livre e espontânea bondade.
Agradeço meu tio Luiz, do Rio, que apesar da distância é o molde de pai que deveria ser copiado várias e várias vezes. Um pai do qual eu me orgulharia e gostaria muito de ter tido.
Devo lembranças também à meu pai biológico que, embora (talvez) nem ao menos se lembre de mim, é o grande responsável pela minha existência e deve ter seus motivos pela longa distância.
Também agradeço minha mãe que, incrivelmente (e eu imagino o quanto tenha sido difícil) muitas vezes assumiu também o papel de pai da maneira que pôde.
E finalmente, assumindo a posição de frente, agradeço meu avô Fausto, o grande coração desse "Pai Frankenstein", que após ter criado quatro filhos em moldes tradicionais, contrariou seus próprios conceitos provando assim à sociedade que é possível amar uma criança que veio em "hora inesperada", e me ensinando que o pai biológico é apenas um detalhe na verdadeira relação fraternal.

Agora vocês já conhecem meu pai Frankenstein... e todo amor que provém desse meu coraçãozinho impuro dedicado a ele;
Para quem não tinha pai, agora tenho mais do que vocês!
Grande beijo a todos os papais do mundo!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

como era verde o meu vale...

Uma mulher do povo falava quantas picadas tivera que levar no braço durante as intermináveis horas em que ficara no hospital público.
Passei por inúmeras pequenas farmácias do centro
(A palavra "centro" já não me exprime sentido exato desde que fui viver no caótico centro paulistano)
Conforme me perdia nas pequeninas ruas da cidadezinha da minha infância (ora histórica, ora industrialmente desconhecida por mim) assisti o filme da morte...
Flashs da infância passaram na minha cabeça...
A farmácia que meu avô ia todo fim de tarde na época em que a palavra "trânsito" ainda não existia para os cidadãos taubateanos...
O Grupo de Estudos da Lingua Portuguesa em que eu era paparicada por todos os colegas de faculdade e professores de minha mãe...
A antiga floricultura localizada perto de um charmoso café que, nunca tive o prazer de entrar, mas sempre achei muito bonita...

Cheguei então na praça da Eletro, já bem perto de casa, a praça onde tinha um palco onde artistas de rua se apresentavam, bem em frente ao antigo supermercado, que mais tarde viria a ser o "Pão de Açúcar 24 horas".
O cheiro de fim de tarde era o mesmo.
Lembrei-me dos pequenos passeios pelas redondezas em que meus avós me levavam para a tal praça, comprávamos pipoca, assistíamos o terrível show de bandas e cantores totalmente desarmônicos, e nos divertíamos com o casal de velhinhos que dançavam a noite toda em frente ao palco.

Subi mais um pouco, a Igreja era a mesma;
O velho convento onde aprendi pouco do que guardo sobre religião, mas muito do que sinto sobre lembranças!
O cemitério, a ladeira, o pequeno boteco perdido na entrada do então bairro nobre, a rua das árvores, a entrada do bairro, a pracinha, a rua da minha casa; cheguei então ao fim do devaneio incrível, pequeno sonho que enquanto realidade, deixei passar, sonhando com a realidade de hoje.

incomum;

Sempre serei considerada estranha
Porque sempre fui observadora
E de observar, me apeguei
E ao me apegar, não medi esforços... me apeguei em tudo!
Cheiros, sons, pessoas, lembranças, momentos..
E pra me reaproximar tentei qualquer coisa
Do incomum ao realmente inacreditável
E é assim que explico meu desinteresse por suas opiniões.

domingo, 3 de julho de 2011

sensibilidade

"Pra quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba no seu sonho..."

Busquei a fuga da sensibilidade na solidão
Cruelmente, facinoramente, me fez acreditar que havia encontrado

E espero no tempo o "quê" da esperança,
que leve essa sensibilidade exacerbada pra bem longe daqui

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Autenticarta

"No verso, logo abaixo da aba do envelope...

Rementente: Entidade que assegura não saber amar por completo, mas encontra-se perdida em paixão desvinculada de qualquer definição já encontrada pela própria em livros ou folhetins, alegando assim estar perdendo a lucidez, que já não era exata, mas nesse aspecto mostrava-se cada vez mais firme em suas definições pois sabia que amar era ato humano (e assim, desprezível) portanto, indigno de entrar em sua brincadeira arrogante de julgar a sociedade com seu olhar superior de pequena aprendiz de literata, ousando brincar de Saramago, em um parágrafo todo sem ponto final tornando a leitura cansativa (porque sou eu, jovem petulante) e ofegante - como vem sendo sua respiração - e não o próprio autor, velho e careca cheio das sabedorias; dia após dia, nesses medíocres tempos de simplesmente nada mais, nada menos do que... o amor. Grande merda!
Ao fim da brincadeira com o remetente, logo após o endereço desfigurado, encontra-se o destinatário...

Destinatário: A quem destino o infortúnio de ler toda a bobagem acima e a seguir e as que virão, ao resto de minha vida. Criatura eleita, por mim, que com tal desonra, terá/teria que se acostumar a aguentar meu amor/ódio extremo, exacerbado, doentio... que ainda não decidi ao certo qual é. Não sei dizer o que é isso. Talvez seja a concretização do meu sobrenome. Não sei se é possível o amor gerar a paixão, nessa ordem, intensificando cada vez mais os sentimentos e pensamentos até que tudo exploda! Não sei amar com o carinho... só sei amar com raiva, com o medo, com a cautela, com o desconhecido. E o exagero em paixão nos faz querer correr para longe e estar perto, ao mesmo tempo, destinatário? Nos faz querer sufocar com as próprias mãos de tanto amor, de tanta aflição e desespero passional?
Pois digo que estou enlouquecendo...

Mas vamos (finalmente) à carta...

A carta: Não. Mais nada a declarar. Att; Garcez, Paixão. "

terça-feira, 24 de maio de 2011

O jardim secreto das flores

A vida parou em meio segundo
Não há mais espaço para o que não é belo
E o meu pôr-do-sol, exclusivo em meu mundo
Tinge o céu num vibrante amarelo

É hora das flores, hora do meu jardim
Volto-me então ao recanto de paz
E o fim de tarde, cheirando a Jasmin;
Reluz à cor púrpura dos Manacás.

E às Azaléias contava histórias;
Colhendo os frutos das Pitangueiras
E na tardezinha de minhas memórias
Conservo ali, aventuras inteiras;

Por seres acolhedor criei os meus laços
Dando atenção à beleza das cores
E guardo as lembranças dos primeiros passos
Regando o jardim secreto das flores.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

nunca bonecas

Só então entendi porque nunca gostei de bonecas, sempre preferi os demais brinquedos.
Boneca é a representação da juventude,
a vaidade sendo descoberta...
constraste do signo 'inocência' com a forma desenvolvida;
Boneca é o abandono da infância, o ato de ser mãe, ser mulher...
A busca da perfeição.
É a idealização de nossos futuros, tão inacessíveis!
Mas querendo ser bonecas, deixamos para trás a fase mais linda de nossas vidas;
que é a única que nos permite manuseá-las sem que haja a dor.
E nos tornando as próprias nos quebramos com o tempo,
Porque estrutura de boneca não suporta um coração.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dois pra cá, dois pra lá;

"São dois pra cá e dois pra lá Lívia, me acompanha!"

O casal baila pelo antigo salão do pequeno teatro demolido. A cidade estava praticamente deserta após o golpe militar. Nada mais que envolvesse cultura e fizesse parte do patrimônio histórico daquele Vale interessava à Prefeitura. Talvez por esse motivo a bela jovem de negros cabelos trançados tivesse escolhido tal local para o encontro.

"Vamos... Se entregue à dança!..."

Pedro era o professor de dança de salão mais tradicional da cidade, para não dizer o único. De sobrenome conhecido e pai da bailarina de destaque da turma juvenil do balé da cidade, era também casado com uma senhora respeitável, que tinha por volta de quatro ou cinco décadas, como ele. Sua esposa estava passando a semana de páscoa na casa do irmão mais novo, como de costume.
Lívia, recém-formada em jornalismo, diferentemente do professor de dança, era determinada e controladora.

A jovem vivia apenas com seu pai, um sujeito rude e desinteressado, que não sabia nem mesmo os horários que a filha estava em casa. Ninguém na cidade percebeu quando Lívia começou a se encontrar às escondidas no velho teatro com Pedro.

"Dois passos curtos Lívia! É só me acompanhar!..."

"O fato é que você está me levando, Pedro!"

"Sim, sou eu! É o homem que leva a mulher na dança!"

"Pois aqui sou eu que mando" - dois pra cá - "Sabe o que dizem por aí, não sabe, Pedro? Andam dizendo que estamos saindo! Nós dois, eu e você! Pelos motéis baratos da cidade enquanto sua mulher cuida da sua menina. E dizem também que estamos planejando irmos embora juntos, pra bem longe de toda essa roubalheira... Outro país, talvez. (...) Ouvi na farmácia o rapaz perguntando se eu era a 'nova namoradinha do professor de dança'. É assim que me chamam agora, sabe?
Não é por maldade, longe de mim! Eu jamais destruiria o casamento de um homem honesto, respeitável, chefe de uma família digna... Mas as pessoas são maldosas, Pedro! As pessoas falam..."

"Lívia, já disse que é o homem que controla a dança!" - dois pra lá - "E duvido que as pessoas dessa cidade fossem capazes de jogar meu nome assim, na lama, por causa de uma aluna. Todos sabem que sempre dei aulas particulares. Não é por causa de uma garota bonita, com todo respeito, que vou mudar minha reputação. (...) Mas que mal lhe pergunte: você deixou o rapaz da farmácia dizer tamanho absurdo?"

"Mas o que eu poderia ter feito, Pedro?" - dois pra cá - "Quando me dei conta ele já estava dizendo para todos que estávamos nos beijando em praça pública e que nosso escândalo fora capaz de calar até mesmo os militares. Só lamento que sua esposa tenha ficado sabendo tão depressa. Mas tenho certeza que, compreensiva e delicada como é, saberá tratar muito bem a situação e sua doce filhinha será poupada o tempo que for preciso."

"Minha esposa está sabendo? Blasfêmia!" - dois pra lá - "Lívia, se for verdade será o meu fim! E a família dela? O que vão achar? Minha sogra eu contorno, sei bem como lidar, mas meu sogro... Lívia, se for manipulação de sua parte... Não sei nem do que sou capaz! (...) O que faço, Lívia? O que digo à ela? (...) Lívia, não quero perder minha família. Lívia, estou na merda. Lívia, você continua conduzindo a dança!

"Perdão, senhor! É o meu jeito..." - dois pra cá - "Mas que mal há nas atitudes dos que amam? Não o fiz por mal, juro! (...) Bem, o fato é que agora todos pensam que estamos apaixonados e sua esposa deve estar com a confissão."

"Confissão?" - Pedro desequilibra-se e pisa no pé de Lívia. - "Do que você está falando?..."

"Pedro, meu amado, apenas conduzi a dança... como de costume!..."

Fim do bolero.

sábado, 30 de abril de 2011

Conto da despedida

Chamei seu nome uma última vez. As costas largas, mãos compridas, em posição de partida, já abraçavam a direção do vento, que era contrária à minha. Gritar seu apelido, aquelas cinco letras que por tanto tempo eu havia exprimido como um hino, me fez retomar a esperança que eu havia perdido durante toda aquela semana e, por alguns segundos, achei que tudo poderia dar certo. Mas foram apenas alguns segundos. Seu olhar denunciava a dor de uma partida necessária e irreversível.
Não sei bem explicar as sensações; o mundo girou tão rápido naquele momento que acho que ficamos meses nos entreolhando e conseguimos finalmente desenvolver o dom da telepatia, mas não usamos. Nossa vida juntos passou refletida em seus olhos, mesmo porque não ouso chamar tudo que houve antes de 'vida'.

Pensei em mil possibilidades. Poderia correr até ele, abraçá-lo e implorar para que me levasse junto, ou para que ficasse. Poderia também agredí-lo de mil maneiras, despejando todo ódio que sinto por essa partida inesperada, ou apenas revelando meu amor, que parece ser muito mais do que ele pensa. Poderia gritar ao mundo inteiro, na praça pública em que estávamos, que me mataria se não fosse com ele, chorar, me descabelar, jogar coisas, deitar no chão, arrancar as roupas. Mas nem uma lágrima saiu. Elas se acumularam no canto de meus olhos, mas não ousaram escapar antes da minha permissão.

Em um mundo de possibilidades, com cerca de 97 mil letras incluindo locuções e fraseologias registradas em dicionário, haviam inúmeras formas de argumentação para completar a frase começada com aquele apelido que, por tanto tempo, fizera parte da minha vida. Ele apenas me olhava fixamente, com os mesmo olhos que me juravam amor eterno.
E em meio essa variedade de escolhas, aqueles olhos inexpressivos, pela primeira vez, soltaram as lágrimas que eu tanto segurava. E no ímpeto de dizer algo para acabar com a angústia do meu amado disse logo o que não deveria. De minha voz contida saiu apenas um lúgubre "Boa sorte!", que soou como despedida.
Ele fixou o olhar por mais alguns segundos. Se recompôs, agradeceu, e foi embora; deixando suas únicas lágrimas espalhadas no chão daquela praça na tarde ensolarada mais triste de outubro.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

e outra

Já disse mil coisas sobre ela, e a frustração de não ter conseguido expressar nem metade do que sinto é, pela primeira vez, maravilhosa! Não a amo por ser perfeita, mas por ter as imperfeições mais admiráveis que conheço.

quinta-feira, 24 de março de 2011

meia dúzia de besteiras..

Sem coragem de reler, aí vai...

Você poderia ser menos inacessível se eu tiver que me apaixonar por você uma segunda vez. Poderia ter sido menos eufórico, mas não ter me deixado sumir, pois era isso mesmo que eu tinha em mente. Poderia também ter notado de primeira que eu já te queria. Poderia ter sofrido menos. Poderia ser menos preocupado. Poderia ser menos insistente. Poderia ter me beijado antes.

Você poderia ter selecionado mais o que ouviu da minha boca. Poderia exigir mais o direito de estar ao meu lado. Poderia ser menos inocente. Poderia ser mais político no cotidiano. Poderia ser menos irritante com seus amigos. Poderia ser mais informal com a minha família. Poderia ter esperado mais tempo para falar de casamento e filhos.

Poderia também ter um pouco mais de juízo e não ter firmado relacionamento com uma atriz libriana que sofre com distúrbios alimentares. Aliás... poderia não ter firmado relacionamento! Poderia parar de implicar com seu cabelo. Poderia parar de pedir mil desculpas por ser imperfeito. Poderia não saber cozinhar e parar de tentar ser a mulher da relação.

Poderia ser mais alto, mais forte, mais novo, menos aquariano, mais rico e ter menos controle emocional. Poderia ser mais subserviente. Poderia ser um monte de coisas desnecessárias, só para pensar que estaria me agradando mais.

Ou você poderia ser você, e fazer meu coração disparar cada vez que abro a porta e te vejo me encarando com aquele sorriso bobo no rosto e aquele olhar que diz “Ta vendo? Sou perfeito pra você!”

terça-feira, 22 de março de 2011

Criatura

Quem era aquela cínica estranha que fingia me conhecer tão bem?
Talvez conhecesse.
Não aguentava as horas perto dela. Me testava, observava, seduzia... me assustava! Eu talvez a conhecesse tão bem quanto achava que ela me conhecia.
Quando criança era diferente; sempre havia alguém para afastá-la de mim. Meus familiares viviam em estado de alerta, de modo que eu jamais ficava sozinha em qualquer cômodo da casa, por mais que as paredes dessa fossem minhas amigas. Curiosa característica: ela só aparecia quando eu estava só, fragilizada, me sentindo mais insegura do que uma criança costuma se sentir.
Vez ou outra sentia que ela me observava por trás dos espelhos do sobrado em que eu morava. Sentia sua presença, sua maldade; mas sempre que virava ao encontro dela... estava novamente só. Mas isso durava alguns segundos, até sentir que ela estava voltando a me observar.
Não ouvia sua voz, mas sentia seus suspiros. Certa vez cheguei a bater de frente com o olhar provocador dela, que se dispersou rapidamente.
Acho que ela também tem medo de mim. Agora digo no presente pois ainda vem me visitar quando estou sozinha, obviamente.
Por volta dos sete anos de idade falei de sua existência para a minha mãe, que me assegurou de que ela não existia. Mas eu sabia que sim. Só queria descobrir quem era ela, o que estava fazendo ali, porque se escondia nos cantos frios da casa e porque tinha aquela crônica expressão maldosa, de quem tramava algo.
Confesso que senti muito medo, até acostumar com sua presença. Aí então acabei esquecendo-me da solidão, que era a única que proporcionava o ambiente propício à presença da estranha. Passei a não ficar mais um segundo sozinha, por imposições do cotidiano. Até que um dia, não faz muito tempo, a solidão voltou; e trouxe a estranha consigo.
Não consegui apagar as luzes, fiquei apática, mas me escondi dos espelhos. Encarar aqueles olhos atentos que complementam o tal "quase-sorriso" cruel seria muito forte naquele momento para mim. Me assustei por, mais uma vez, ela saber que eu estava fragilizada, e ter vindo me provocar.
Aguentei calada, a noite toda.
Uns dias depois, em uma leitura, acabei entendendo mais ou menos quem é a criatura atormentada que reaparece de tempos em tempos...
Ela não é africana, hindú ou hebraica na verdade nem se enquadra em um povo, ou raça.
Eu não sei o que ela é. Se parece muito comigo fisicamente, mas é bem menos humana. Os olhos são os mesmos; mas o olhar é outro, quase inverso...
Inverso para o bem ou para o mal, uma vez que não desvendei nem mesmo ainda o que sou em minha forma real.
Me abrindo a mente e mostrando as opções de fuga, reflexão e quaisquer outros tipos de relações com essa estranha que eu possa manter, já tendo enfrentado o medo, percebi que ela não quer meu mal, mas também não quer meu bem, por simplesmente não querer. E ela apenas "não quer" por ser parte de mim. Sendo meu anjo, meu monstro. Meu bem, meu mal. Minha luz, minha escuridão. Meu eu-exú; abrindo os caminhos que eu mesma não queria (e talvez ainda não queira) aceitar.