terça-feira, 22 de março de 2011

Criatura

Quem era aquela cínica estranha que fingia me conhecer tão bem?
Talvez conhecesse.
Não aguentava as horas perto dela. Me testava, observava, seduzia... me assustava! Eu talvez a conhecesse tão bem quanto achava que ela me conhecia.
Quando criança era diferente; sempre havia alguém para afastá-la de mim. Meus familiares viviam em estado de alerta, de modo que eu jamais ficava sozinha em qualquer cômodo da casa, por mais que as paredes dessa fossem minhas amigas. Curiosa característica: ela só aparecia quando eu estava só, fragilizada, me sentindo mais insegura do que uma criança costuma se sentir.
Vez ou outra sentia que ela me observava por trás dos espelhos do sobrado em que eu morava. Sentia sua presença, sua maldade; mas sempre que virava ao encontro dela... estava novamente só. Mas isso durava alguns segundos, até sentir que ela estava voltando a me observar.
Não ouvia sua voz, mas sentia seus suspiros. Certa vez cheguei a bater de frente com o olhar provocador dela, que se dispersou rapidamente.
Acho que ela também tem medo de mim. Agora digo no presente pois ainda vem me visitar quando estou sozinha, obviamente.
Por volta dos sete anos de idade falei de sua existência para a minha mãe, que me assegurou de que ela não existia. Mas eu sabia que sim. Só queria descobrir quem era ela, o que estava fazendo ali, porque se escondia nos cantos frios da casa e porque tinha aquela crônica expressão maldosa, de quem tramava algo.
Confesso que senti muito medo, até acostumar com sua presença. Aí então acabei esquecendo-me da solidão, que era a única que proporcionava o ambiente propício à presença da estranha. Passei a não ficar mais um segundo sozinha, por imposições do cotidiano. Até que um dia, não faz muito tempo, a solidão voltou; e trouxe a estranha consigo.
Não consegui apagar as luzes, fiquei apática, mas me escondi dos espelhos. Encarar aqueles olhos atentos que complementam o tal "quase-sorriso" cruel seria muito forte naquele momento para mim. Me assustei por, mais uma vez, ela saber que eu estava fragilizada, e ter vindo me provocar.
Aguentei calada, a noite toda.
Uns dias depois, em uma leitura, acabei entendendo mais ou menos quem é a criatura atormentada que reaparece de tempos em tempos...
Ela não é africana, hindú ou hebraica na verdade nem se enquadra em um povo, ou raça.
Eu não sei o que ela é. Se parece muito comigo fisicamente, mas é bem menos humana. Os olhos são os mesmos; mas o olhar é outro, quase inverso...
Inverso para o bem ou para o mal, uma vez que não desvendei nem mesmo ainda o que sou em minha forma real.
Me abrindo a mente e mostrando as opções de fuga, reflexão e quaisquer outros tipos de relações com essa estranha que eu possa manter, já tendo enfrentado o medo, percebi que ela não quer meu mal, mas também não quer meu bem, por simplesmente não querer. E ela apenas "não quer" por ser parte de mim. Sendo meu anjo, meu monstro. Meu bem, meu mal. Minha luz, minha escuridão. Meu eu-exú; abrindo os caminhos que eu mesma não queria (e talvez ainda não queira) aceitar.