segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Desenhando a alma;

Já me disseram que existe local para se demonstrar a arte. Que determinadas imagens são belas num quadro e não no corpo. Que é ignorância vandalizar a morada da própria alma. Que queremos apenas chamar a atenção. E querem saber?...
Estão todos errados. Talvez certos nos pensamentos, mas errados na maneira de encará-los.




Posso não saber argumentar bem a ponto de convencê-los que 'rabisco' meu corpo na esperança de colorir o interior, mas acima de minhas palavras fracas estão meus sentimentos, e estes são mais fortes que qualquer censura.
Se realmente existe um local determinado para se demonstrar a arte, esse local é o coração de cada artista que tem a necessidade de se expressar. Se existe um local 'correto' para se expor um desenho que conta uma história ou demonstre um sentimento, esse desenho deixa de ser arte.
A arte é algo visceral demais para seguir regras.

E o que é o corpo do artista se não um quadro de suas emoções?
É tão errado assim refletir através de desenhos no corpo o brilho dos meus olhos que a sociedade faz questão de ignorar?
Não posso ter em mim algo mais eterno que sentimentos compatíveis?


Os que julgam as diferentes maneiras de se expressar são os mesmos que tentam limitar essa liberdade que corre no sangue e está marcada hoje na pele daqueles que querem mais do que uma beleza tradicionalista!
Já que nossos olhos permanecem fechados diante desse injusto julgamento, a janela da alma passa a ser a pele que, independente da cor, brilha à podridão do novo mundo.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O dia em que acordei morta

Abri os olhos, que se fecharam ainda mais. Tudo fora de lugar... Mas não minha desordem.
Ele não estava mais ali... E chovia, como em meu coração que, já petrificado, ainda pulsava o resto do que havia sobrado na noite anterior.
O interfone tocou; não era ninguém. (...) Na verdade era alguém. Alguém que mal existia para mim, portanto... Ninguém.
Sozinha ainda.
Sozinha porém sem a solidão, pois sempre que esta aparece me leva ao encontro de mim mesma, causando assim a própria destruição, de tola que sou. Mas nem ela me aguenta agora. Nem eu me aguento agora. Como ele também não aguentou.
Qualquer coisa menos desinteressante que o teto chamava a minha atenção.
Permaneci parada por horas e horas; e nem sequer lembrei-me das pessoas que um dia havia amado.
E se desta leitura aguardam o acontecimento de algo, passe para a próxima. Se não estivesse tão desinteressada até mesmo nisso, estaria aqui unicamente para provar que posso vomitar milhões de palavras sobre absolutamente nada. Não continuarei então narrando apenas o "absolutamente nada" que sinto, como na maioria das vezes. Paro por aqui o desabafo dessa cruel narrativa sobre o acaso de quem simplesmente nasceu para não ser.
De quem já foi, mas agora não é mais.
De quem não acordou.
De quem acordou morta.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

A inauguração do Circo Raro - Celly Borges

“Atenção, senhoras, senhores e crianças! Chegou o circo mais espetacular jamais visto! Faremos nossa apresentação de estreia nesta cidade. Animais adestrados, nunca antes vistos em um circo. A primeira sessão será inteiramente grátis!”

Anunciava o carro de som precário que passava por todas as ruas dos bairros próximos. O motorista aproveitava para jogar pela janela panfletos. As crianças corriam e pegavam vários, as que não sabiam ler, rapidamente procuravam um adulto próximo que lhes contasse o que dizia nos papéis.

A pequena Mary entregou o papel a João, seu pai, que leu:

“Chegou o incrível Circo Raro! A inauguração será sábado, dia 14, às 21h.
Venham todos, e vejam a mais incrível das criaturas já adestradas!
Será uma surpresa incrível, não tenha dúvida!
Retire seu ingresso na bilheteria do circo, no endereço R...
Obs.: todos os grandes nomes da cidade estarão presentes!”

Na sexta-feira todos estavam ansiosos, mas o sábado não tardou a começar. E, como era um espetáculo gratuito, a fila teve início cedo.

Entre as rodas de pessoas que esperavam a hora de receber o ticket, várias resolveram apostar que animais interessantes seriam aqueles. Alguns arriscavam em ornitorrincos, enquanto outros concordavam, sem mesmo saber o que seria um, ou como seria.

Todos acomodados, o espetáculo teve início, exatamente às 21h. No centro do palco, uma jaula coberta por um tecido escuro. O que quer que estivesse lá dentro, fazia muito barulho ao se jogar contra as grades.

(Ah, como se eu não soubesse o que era.)

O apresentador chegou. Uma luz somente nele. Apenas quem estava muito próximo pôde perceber aqueles olhos. Olhos negros, tão escuros quanto a própria noite sem estrelas nem lua. Tão escuros quanto um ser desprezível, sem alma. Mas aquele homem tinha alma, e não era desprezível, a meu ver.

A plateia ainda estava lá, sem saber o que a aguardava. Enfim, vamos lá, o espetáculo deve ter seu ciclo eterno um dia iniciado. E a oportunidade chegou.

Corro para frente do palco, pois Lorde John me chama. Agora é a minha vez de ver mais de perto aqueles olhos vidrados numa atração nova. Os olhos de Lorde John estão extasiados, vidrados naquela nova atração a sua frente. O público.

Nunca disse ao contrário, mas tenho de reafirmar aqui: Lorde John é louco! Todos nós sabemos. Bem, “nós”, somos seus seguidores. E, por isso, também loucos.

Chegou a hora, Lorde John pede para que eu, sua assistente, retire o pano que recobre a jaula, aliás, uma jaula não muito grande! Apenas para que caibam todos os nossos pequenos bichinhos treinados. Deleite-se, público.

O pano cai, o rosto das pessoas em uma fisionomia chocada. Minha risada pode ser ouvida por todos os cantos, Lorde John olha para mim e sorri encantador, insano. Meu ser preferido neste e em outros mundos.

Dentro da jaula, vários seres, iguais àqueles na arquibancada, seres repulsivos, humanos, que maltratam os animais que não podem se defender. Mas, oh, nós, do Circo Raro, pagamos bem, damos comida, aos seres humanos – claro que sempre esquecemos que precisam se alimentar, mas e daí??? Não é assim também que funciona com os animais? Oh, como pude esquecer? Afinal, eles também são animais, racionais, como se definem, não? Agora eles são parte do Circo de Horrores!

Olhe lá, os seres humanos correndo da própria raça. Eles estão presos, como todos deveriam estar, são maltratados, como todos deveriam ser... São hipócritas como todos são.

Lorde John está ali, ao meu lado, segurando minha mão, e olha com prazer àquela cena, mas eu sabia que, por dentro, estava triste, pois não conseguimos apresentar os truques que ensinamos aos nossos bichinhos.

Quem sabe da próxima vez.

O Circo Raro estará em breve na sua cidade.

Celly Borges é dona do blog de livros "Mundo de Fantas"
Roubei o texto do blog "MEDO B."

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cinco versos

Cinco versos na chuva...
Cinco versos na estrada...
Cinco versos no pó...
Cinco versos inacabados...
Cinco versos, e só.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Inspiração que corre à ela;

Tentei mil assuntos, mil encantamentos
Que posso fazer se meu dom é só dela?
Posso encontrar milhões de momentos
Mas é ela que pinta a vida em aquarela.

Narrei o amor, ausência, saudade;
E ela é o misto de minhas emoções
E eu não encontro a mínima vontade
De justificar as minhas razões.

Falo assim pois perdi o meu medo
De amar por amar, quando ela nasceu;
O meu sentimento não é mais segredo
Nem mesmo pro mundo, que me corrompeu.

Se escrevo um verso, a fonte é ela
Se faço rabiscos vejo assim seus traços
Cada nota que ouço me lembra aquela
Da qual sinto falta de seus doces abraços.

Não há alguem no mundo que me ame mais
E meu amor por ela, corresponde assim
Em um poema raso, sinto-me incapaz
Não narrei nem metade, e ja chega o fim...

Não a odeio por nem um segundo;
É a mais amável, só ela não vê
Podem existir mil nomes no mundo
E em meu pensamento só há 'Maitê'.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Chacina de letras

Juntei meia dúzia de palavras.
Depois matei-as, uma a uma;
Apaguei letra por letra, sentimento por sentimento...
Elas iam chorando, agonizando;
Mas minhas próprias sensações não estavam mais lá.

Primeiro, "O amor se vai"... E se foi, realmente!
Se foi como a frase, ligeira e serena.
Em seguida o "conforme"... sem se conformar.
Se foram com o vento...
Palavras pequenas.

"O verso" em seguida quis acompanhar;
E foi para onde não há mais poema...
De uma poesia repleta de tons
Encontra-se um ponto, perdido e só.

No fim da chacina, restou uma palavra;
Sozinha, sem força, mas com sentido único.
Descrita por último, em sua importância...
"Acaba" é o sinal de que o verso é mudo.

Como o amor, como o poema, como o verso enfim se foi...



"O amor se vai conforme o verso acaba."