quinta-feira, 24 de março de 2011

meia dúzia de besteiras..

Sem coragem de reler, aí vai...

Você poderia ser menos inacessível se eu tiver que me apaixonar por você uma segunda vez. Poderia ter sido menos eufórico, mas não ter me deixado sumir, pois era isso mesmo que eu tinha em mente. Poderia também ter notado de primeira que eu já te queria. Poderia ter sofrido menos. Poderia ser menos preocupado. Poderia ser menos insistente. Poderia ter me beijado antes.

Você poderia ter selecionado mais o que ouviu da minha boca. Poderia exigir mais o direito de estar ao meu lado. Poderia ser menos inocente. Poderia ser mais político no cotidiano. Poderia ser menos irritante com seus amigos. Poderia ser mais informal com a minha família. Poderia ter esperado mais tempo para falar de casamento e filhos.

Poderia também ter um pouco mais de juízo e não ter firmado relacionamento com uma atriz libriana que sofre com distúrbios alimentares. Aliás... poderia não ter firmado relacionamento! Poderia parar de implicar com seu cabelo. Poderia parar de pedir mil desculpas por ser imperfeito. Poderia não saber cozinhar e parar de tentar ser a mulher da relação.

Poderia ser mais alto, mais forte, mais novo, menos aquariano, mais rico e ter menos controle emocional. Poderia ser mais subserviente. Poderia ser um monte de coisas desnecessárias, só para pensar que estaria me agradando mais.

Ou você poderia ser você, e fazer meu coração disparar cada vez que abro a porta e te vejo me encarando com aquele sorriso bobo no rosto e aquele olhar que diz “Ta vendo? Sou perfeito pra você!”

terça-feira, 22 de março de 2011

Criatura

Quem era aquela cínica estranha que fingia me conhecer tão bem?
Talvez conhecesse.
Não aguentava as horas perto dela. Me testava, observava, seduzia... me assustava! Eu talvez a conhecesse tão bem quanto achava que ela me conhecia.
Quando criança era diferente; sempre havia alguém para afastá-la de mim. Meus familiares viviam em estado de alerta, de modo que eu jamais ficava sozinha em qualquer cômodo da casa, por mais que as paredes dessa fossem minhas amigas. Curiosa característica: ela só aparecia quando eu estava só, fragilizada, me sentindo mais insegura do que uma criança costuma se sentir.
Vez ou outra sentia que ela me observava por trás dos espelhos do sobrado em que eu morava. Sentia sua presença, sua maldade; mas sempre que virava ao encontro dela... estava novamente só. Mas isso durava alguns segundos, até sentir que ela estava voltando a me observar.
Não ouvia sua voz, mas sentia seus suspiros. Certa vez cheguei a bater de frente com o olhar provocador dela, que se dispersou rapidamente.
Acho que ela também tem medo de mim. Agora digo no presente pois ainda vem me visitar quando estou sozinha, obviamente.
Por volta dos sete anos de idade falei de sua existência para a minha mãe, que me assegurou de que ela não existia. Mas eu sabia que sim. Só queria descobrir quem era ela, o que estava fazendo ali, porque se escondia nos cantos frios da casa e porque tinha aquela crônica expressão maldosa, de quem tramava algo.
Confesso que senti muito medo, até acostumar com sua presença. Aí então acabei esquecendo-me da solidão, que era a única que proporcionava o ambiente propício à presença da estranha. Passei a não ficar mais um segundo sozinha, por imposições do cotidiano. Até que um dia, não faz muito tempo, a solidão voltou; e trouxe a estranha consigo.
Não consegui apagar as luzes, fiquei apática, mas me escondi dos espelhos. Encarar aqueles olhos atentos que complementam o tal "quase-sorriso" cruel seria muito forte naquele momento para mim. Me assustei por, mais uma vez, ela saber que eu estava fragilizada, e ter vindo me provocar.
Aguentei calada, a noite toda.
Uns dias depois, em uma leitura, acabei entendendo mais ou menos quem é a criatura atormentada que reaparece de tempos em tempos...
Ela não é africana, hindú ou hebraica na verdade nem se enquadra em um povo, ou raça.
Eu não sei o que ela é. Se parece muito comigo fisicamente, mas é bem menos humana. Os olhos são os mesmos; mas o olhar é outro, quase inverso...
Inverso para o bem ou para o mal, uma vez que não desvendei nem mesmo ainda o que sou em minha forma real.
Me abrindo a mente e mostrando as opções de fuga, reflexão e quaisquer outros tipos de relações com essa estranha que eu possa manter, já tendo enfrentado o medo, percebi que ela não quer meu mal, mas também não quer meu bem, por simplesmente não querer. E ela apenas "não quer" por ser parte de mim. Sendo meu anjo, meu monstro. Meu bem, meu mal. Minha luz, minha escuridão. Meu eu-exú; abrindo os caminhos que eu mesma não queria (e talvez ainda não queira) aceitar.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Outra infância


Nos mostram um pouquinho do céu no início da vida
Até que se passa a infância e fica só o gostinho.
As sensações, os cheiros, os costumes, as palavras...
Aí você morre para a felicidade,
Não adianta correr o mundo atrás da menininha da foto,
Ela, e tudo dela, já não existem.
Depois de tanto chorar adormeci, com os pensamentos latejantes,
Numa falsa paz
Breve;
E fica a impressão de derrota por não encontrar a "terra do nunca";
E fica o resto.

Me desculpem os versos confusos;
Retratam bem, mas são incompreensíveis.

sábado, 5 de março de 2011

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão;

"Quanto riso! Oh! quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão.
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão..."


Volto a escrever sobre tal frase, que tanto me atrai.
Um dos meus primeiros textos do blog envolvia a canção "Máscara Negra", pois nunca entendi o fato de o Arlequim estar chorando pelo amor da Colombina, se na versão original, da Commedia dell'arte é o Pierrot que sofre com o amor não correspondido nesse triângulo insano.
No começo achei que o autor estivesse errado.
Só depois percebi, com o tempo (com a prática), que todo Pierrot tem um quê de Arlequim.

Para quem não sabe, a personalidade do Arlequim é de um rapaz brincalhão, insensível, e cafajeste, por que não?
Colombina, que por sua vez é apaixonada por esse, ignora o sofrimento do pobre Pierrot, que de tanto amar, de tanto sofrer, é representado com uma lágrima em um dos lados da face.

Do mesmo modo, todo Arlequim tem um quê de Pierrot.

Todo apaixonado sensível não foge de atos cafajestes que a vida lhe impõe. E todo homem canalha se apaixona um dia, identificando-se assim com o Pierrot.
Pierrot é Arlequim, Arlequim é Pierrot. O misto dos dois é o homem.

"Foi bom te ver outra vez,
Está fazendo um ano,
Foi no carnaval que passou.
Eu sou aquele Pierrô
Que te abraçou e te beijou meu amor.

Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade.
(...)
Vou beijar-te agora,
Não me leve a mal:
Hoje é carnaval."

Acho que entendi...

terça-feira, 1 de março de 2011

Essência nostálgica

Que fazer se minha essência é nostálgica?
Se fujo da alegria pois sei que ela não é para mim.
E quisera eu acreditar nos que dizem que esta é mais uma fase; o fato é que a tal fase dura já dezoito anos, por isso talvez não me incomode nem um pouco.
Nasci com essa tendência ao que todos fogem.
E veja bem, que drama!
Drama que não é drama, é cotidiano.
Não fujo do tempo pois seria inútil.
Não afasto a solidão, pois é ela que sempre volta.
E afaga meus cabelos, como nos tempos de outrora.
Em que sentia falta de quem havia sumido.
Mas meu êxtase pela volta não durava mais que alguns segundos.
Que fazer então, com minha essência nostálgica?
Além de versos vazios, de alguém que sofre mas não sente.