terça-feira, 24 de maio de 2011

O jardim secreto das flores

A vida parou em meio segundo
Não há mais espaço para o que não é belo
E o meu pôr-do-sol, exclusivo em meu mundo
Tinge o céu num vibrante amarelo

É hora das flores, hora do meu jardim
Volto-me então ao recanto de paz
E o fim de tarde, cheirando a Jasmin;
Reluz à cor púrpura dos Manacás.

E às Azaléias contava histórias;
Colhendo os frutos das Pitangueiras
E na tardezinha de minhas memórias
Conservo ali, aventuras inteiras;

Por seres acolhedor criei os meus laços
Dando atenção à beleza das cores
E guardo as lembranças dos primeiros passos
Regando o jardim secreto das flores.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

nunca bonecas

Só então entendi porque nunca gostei de bonecas, sempre preferi os demais brinquedos.
Boneca é a representação da juventude,
a vaidade sendo descoberta...
constraste do signo 'inocência' com a forma desenvolvida;
Boneca é o abandono da infância, o ato de ser mãe, ser mulher...
A busca da perfeição.
É a idealização de nossos futuros, tão inacessíveis!
Mas querendo ser bonecas, deixamos para trás a fase mais linda de nossas vidas;
que é a única que nos permite manuseá-las sem que haja a dor.
E nos tornando as próprias nos quebramos com o tempo,
Porque estrutura de boneca não suporta um coração.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dois pra cá, dois pra lá;

"São dois pra cá e dois pra lá Lívia, me acompanha!"

O casal baila pelo antigo salão do pequeno teatro demolido. A cidade estava praticamente deserta após o golpe militar. Nada mais que envolvesse cultura e fizesse parte do patrimônio histórico daquele Vale interessava à Prefeitura. Talvez por esse motivo a bela jovem de negros cabelos trançados tivesse escolhido tal local para o encontro.

"Vamos... Se entregue à dança!..."

Pedro era o professor de dança de salão mais tradicional da cidade, para não dizer o único. De sobrenome conhecido e pai da bailarina de destaque da turma juvenil do balé da cidade, era também casado com uma senhora respeitável, que tinha por volta de quatro ou cinco décadas, como ele. Sua esposa estava passando a semana de páscoa na casa do irmão mais novo, como de costume.
Lívia, recém-formada em jornalismo, diferentemente do professor de dança, era determinada e controladora.

A jovem vivia apenas com seu pai, um sujeito rude e desinteressado, que não sabia nem mesmo os horários que a filha estava em casa. Ninguém na cidade percebeu quando Lívia começou a se encontrar às escondidas no velho teatro com Pedro.

"Dois passos curtos Lívia! É só me acompanhar!..."

"O fato é que você está me levando, Pedro!"

"Sim, sou eu! É o homem que leva a mulher na dança!"

"Pois aqui sou eu que mando" - dois pra cá - "Sabe o que dizem por aí, não sabe, Pedro? Andam dizendo que estamos saindo! Nós dois, eu e você! Pelos motéis baratos da cidade enquanto sua mulher cuida da sua menina. E dizem também que estamos planejando irmos embora juntos, pra bem longe de toda essa roubalheira... Outro país, talvez. (...) Ouvi na farmácia o rapaz perguntando se eu era a 'nova namoradinha do professor de dança'. É assim que me chamam agora, sabe?
Não é por maldade, longe de mim! Eu jamais destruiria o casamento de um homem honesto, respeitável, chefe de uma família digna... Mas as pessoas são maldosas, Pedro! As pessoas falam..."

"Lívia, já disse que é o homem que controla a dança!" - dois pra lá - "E duvido que as pessoas dessa cidade fossem capazes de jogar meu nome assim, na lama, por causa de uma aluna. Todos sabem que sempre dei aulas particulares. Não é por causa de uma garota bonita, com todo respeito, que vou mudar minha reputação. (...) Mas que mal lhe pergunte: você deixou o rapaz da farmácia dizer tamanho absurdo?"

"Mas o que eu poderia ter feito, Pedro?" - dois pra cá - "Quando me dei conta ele já estava dizendo para todos que estávamos nos beijando em praça pública e que nosso escândalo fora capaz de calar até mesmo os militares. Só lamento que sua esposa tenha ficado sabendo tão depressa. Mas tenho certeza que, compreensiva e delicada como é, saberá tratar muito bem a situação e sua doce filhinha será poupada o tempo que for preciso."

"Minha esposa está sabendo? Blasfêmia!" - dois pra lá - "Lívia, se for verdade será o meu fim! E a família dela? O que vão achar? Minha sogra eu contorno, sei bem como lidar, mas meu sogro... Lívia, se for manipulação de sua parte... Não sei nem do que sou capaz! (...) O que faço, Lívia? O que digo à ela? (...) Lívia, não quero perder minha família. Lívia, estou na merda. Lívia, você continua conduzindo a dança!

"Perdão, senhor! É o meu jeito..." - dois pra cá - "Mas que mal há nas atitudes dos que amam? Não o fiz por mal, juro! (...) Bem, o fato é que agora todos pensam que estamos apaixonados e sua esposa deve estar com a confissão."

"Confissão?" - Pedro desequilibra-se e pisa no pé de Lívia. - "Do que você está falando?..."

"Pedro, meu amado, apenas conduzi a dança... como de costume!..."

Fim do bolero.