domingo, 12 de agosto de 2012

mais um dia dos aquilo-lá-que-eu-deveria-chamar-de-pai

A cada ano minhas mensagens de "Dia dos Pais" ficam mais agressivas, também pudera... cada ano contém 365 dias de rejeição e resulta em algo que eu realmente gostaria de não apresentar a vocês, mas vou.
Pai, resultado de sua ausência ou não, o fato é que o tempo cria monstros, ressentimentos, amargura e consequências. Mesmo não havendo 0,05% de possibilidade de você ler, acho que um texto de desabafo é o mínimo que posso pedir como recompensa por ser tratada injustamente como uma "pequena burguesinha arrogante", como você mesmo me intitulou no tempo em que eu ainda era pequena demais até mesmo para pronunciar a palavra "papai". Como pode uma criança de 2 anos, um ser movido apenas por inocência, ser arrogante? O que faz um bebê ser merecedor do desprezo de um pai? Sendo assim, acho que serei eternamente 'pequena demais' para saber o significado da palavra "papai".

Fui bem criada pelos meus parentes "metidos", que se desdobraram para tapar o buraco que sua implicância sem motivos causou. E eles fizeram um bom trabalho!!!
Meus avós romperam com a visão conservadora na qual viviam e aceitaram minha mãe adolescente com uma criança rejeitada nos braços, mesmo tendo sido por muito tempo mal vistos pela sociedade e perdendo um pouco do contato social. Avós esses que, "arrogantes" e "burgueses", fizeram o SEU trabalho, que sua covardia o impediu de fazer.
Vejo em meu avô um paizão melhor do que eu poderia imaginar... e ainda tem meus tios de sangue, os "playboyzinhos estudados" que talvez tenham aprendido na faculdade o significado da palavra compaixão!
Tenho um padrasto que ganha os seus abraços de Dia dos Pais. E tenho também um tio-avô incrível que, lá do Rio de Janeiro, conseguiu ter mais presença na minha vida do que você, meu biológico, até porque ele seria incapaz de atravessar a rua para não ter que falar comigo. Nenhum deles jamais me recusou um "oi".

Não tenho filhos ainda, mas imagino o quão desprezível tenha que ser uma relação para evitar olhar em um rosto criado por você mesmo.
Não estou querendo cobrar nada, até porque sei que, se já me rejeitou um "oi", não conseguiria jamais me dar um telefonema... só quero que saiba (e que TODOS saibam) que dói sim, porra!
Mesmo com todo amor que recebo dos demais, com o costume que adquiri de não falar em você e com esta 'couraça defensiva' que vesti dizendo "hahaha foda-se o meu pai!"... Foda-se nada! Pode até soar humilhante, mas dói sim, eu confesso!
Já me senti um lixo por imaginar o quanto eu devo ser desprezível para ser a única filha rejeitada. Eu queria ter a oportunidade de conhecer meus irmãos, porque eles sim devem ser crianças incríveis para até você aceitá-los. E, por favor, se algum dia por algum motivo sentir ódio da mãe deles, não misture as coisas!... São crianças e não entendem ou nada tem a ver com os problemas de vocês. Como eu era... e ainda não entendo.
Já cheguei a pensar que me odeia por eu ter nascido menina, mas sabe pai... Eu poderia escolher nascer menino mil vezes se isso fosse sinônimo de aceitação.
Eu me lembro de sua figura da maneira que consigo e me incomodo com ela todos os dias, já você não deve nem ao menos ter a curiosidade de saber se ainda estou viva, se estou usando drogas ou engravidando de um cara qualquer que não vá assumir o filho.

Espero realmente que, pelo menos no Dia dos Pais, lembre-se que deu vida a 4 crianças e não 3. E espero que finalmente tenha aprendido o significado da palavra "criança", para não machucar mais nenhuma. Que tenha aprendido que para uma criança engolir as mágoas é muito mais difícil do que para um adulto inconsequente engolir o orgulho... E eu engoli, as mágoas e o orgulho, várias vezes, caso você não tenha percebido... Como no Dia dos Pais em que eu decidi (mesmo estando tanto tempo afastados) te dar um presente e liguei para minha avó avisando que iria lá. E qual não foi a minha surpresa ao chegar e saber que você tinha ido embora correndo minutos depois do meu telefonema. A camiseta que comprei ficou jogada num armário aqui em casa por meses, junto com um montão de sentimentos bons que você também não quis.

Não posso dizer que você como pai nunca me deu nada, pois foi graças a você que adquiri minha característica da qual mais me orgulho, que é essa minha couraça protetora baseada em ressentimentos. Ganhei também uma personalidade amarga, difícil de quebrar, mas que estou destruindo aos poucos com o apoio de muita gente que me mostra dia após dia que o amor existe sim!, entre eles um menino bom que pretende se casar comigo e te dar netos dos quais certamente você também não irá querer proximidade.
Um vez alguém me disse que você talvez sentisse algo por mim e que talvez até me procurasse. Uma de minhas tias, irmã sua, disse até mesmo que você havia pedido meu número de celular. As operadoras já foram até processadas e você ainda não me ligou.
Mas, sinceramente? Acho que vou esperar para sempre esse telefonema, cada vez mais desiludida, mas vou.
Se existe mesmo algum sentimento fraternal por mim, peço que leve todo esse meu ressentimento por bem. E não espere tempo demais até que eu me torne indiferente, pois enquanto houver alguma revolta certamente haverá a vontade de falar com você, nem que seja só aquele "oi" negado há tantos anos.

Enfim, desabafo de uma jovem tão desprezível certamente não tem valor algum.
Só digo que você não deveria me odiar, não sou minha mãe e pior: aceitando ou não, em parte sou você também...
Se a intenção fazendo tudo isso era machucar a minha mãe, parabéns, você fez um bom trabalho machucando muito a principal parte dela, que sou eu.