quarta-feira, 3 de abril de 2013

Mergulho na morada do tempo

Texto encontrado entre papéis separados para reciclagem. Achei interessante guardar tais lembranças em um lugar mais organizado que o meu coração. Eis aqui um devaneio sobre meu retorno à banheira do quarto de minha avó. De 04 de abril de 2010, aos meus 17 anos, segue...

A mente. Morada do tempo. Procuramos tantas vezes no mundo externo sendo que seu óbvio refúgio é aqui, onde as horas não passam...

"Mãe, prende o meu cabelo bem forte!... Odeio quando as pontas molham!"

Mergulhei na banheira quente. Nunca tão quente quanto eu desejava, mas quente o suficiente para me remeter a milhões de lembranças.
Lembranças não!...
Lembranças são ferramentas que os amargurados usam para ilustrar a si mesmos os momentos que já passaram. A mim nada ainda havia passado, não ali.
"Vou refletir sobre o meu doce passado" pensei; mas logo afastei a ideia de "reflexão", pois se refletimos demais deixamos de ser crianças, e eu deveria SER criança acima de qualquer coisa para lembrar dos detalhes da melhor época da minha vida.
"Não vou pensar em nada!", como sempre costumava fazer durante meus banhos de banheira, minutos antes de colar meus olhinhos na televisão, na hora exata de meu programa infantil favorito.
Não vou pensar, não vou agir... Não vou chorar...
Onde estão as flores engraçadas dos azulejos?
Conforme crescemos a inocência nos é tirada e a criatividade nos é abafada ou apenas trocaram os azulejos do banheiro?
Droga! Prometi que não choraria!...
É intrigante como uma mesma figura pode muito bem representar duas coisas completamente diferentes conforme o mundo gira...
Agora chega! Estou pensando demais.
Quando criança eu tinha a virtude de questionar e agora me encontro em meio à doença de pensar para resolver?... Não, não quero.
Vou ser neutra como a água. Quente como a água.
Aliás, qual foi o momento em que o contrário de frio passou a ser sinônimo de sensualidade?
Chega! Vou parar de pensar, acho que é a deixa...
Saindo daqui vou dar uma passada no mundo dos desenhos. Não sei se vocês identificam, mas se bem me recordo, lá tem um animal amarelo que canta e parece um leopardo. Ele ainda pula e tem umbigo.
Nem Adão e Eva tinham umbigo e o Marsupilami tem. Vou até fingir que não tenho palpites a arriscar sobre o assunto, pois quanto mais falta o nexo mais minha infância fica pertinho do coração. Não quero explicações, quero saudades!
Em contrapartida não quero dar de cara com aquela menininha branca, de olhos enormes que foi brutalmente assassinada pelo tempo. Não quero chamá-la pois sei que corro o risco de defrontar-me com sua presença neutra e anti-reflexiva; e o que mais me amedronta: posso não me identificar com a tal pequena.
Vou então procurar minha humilde origem, o que me parece mais seguro... Mas não vou ousar explicar as diferenças, não desta vez. Isso pode soar um tanto adulto e terrivelmente doentio. Não quero sair do meu caminho, não agora que estou quase lá...
Não. Na verdade não estou quase lá. Sinto que não estou chegando a lugar algum. Estou apenas caminhando em uma linha torta de pensamentos, quando na verdade a intenção era apenas voltar.
O barulho da chuva até consegue criar o clima propício. Mas não me leva de volta!
A água quente simula um útero, e toda criança que se preze a adora. Mas também não me faz voltar.
Estou aqui parada esperando o maldito tempo me rondar até a hora da morte. Esse assassino estúpido checa cada atitude minha para ver se estou sabendo gozar de sua companhia. Antes eu mal me dava conta de sua existência e, agora que me vejo uma de suas vítimas, não posso alertar os outros sem ser classificada como louca sob respostas de "Sim, eu sei, o tempo está aí!" (...) Pois então não sabem de nada. O tempo não existe para se "saber que ele está aí", ele existe para ser sentido ou ignorado. E ignorado somente durante a insanidade.
Eu vou é para o mundo dos desenhos. Lá o tempo não passa e podemos voar em nuvens coloridas. Lá as pessoas não devem pensar demais tais questões tão "adultas" e corrosivas. Lá a água é simplesmente quente, sem muitas conotações e as flores dos azulejos sorriem para mim. Lá os azulejos simpáticos NUNCA são trocados. Lá não somos neuróticos, apenas criativos. É permitido sonhar, criar e chorar porque não queremos cumprir com as obrigações do dia. Lá não há tempo para nos preocuparmos somente com nossos próprios umbigos, pois no mundo dos desenhos infantis, há umbigos de leopardos amarelos que pulam dentre as árvores.
É lá que posso reclamar novamente cada vez que as pontas dos meus cabelos molham durante o banho.

"É tarde. E eu aqui nessa banheira deixando o tempo passar... Me espere tempo, vou passar com você!..."