quinta-feira, 16 de maio de 2013

Aos treze

Aqui está mais um ano, mais um poema e mais um pouquinho do meu amor pela prima/irmã/filha/amiga Maitê... Que eu vi crescer, ajudei a cuidar, aplaudi muitas vezes e apertei inúmeras outras.
Dizem que os treze são provavelmente o início da adolescência, ou auge da pré-adolescência, idade em que muitos se revoltam, passam a agredir quem mais amam e a lutar pelo seu lugar no espaço. Começam a viver em "sociedade" (suas mini sociedades) e sentem-se pressionados a agir uns como os outros.
Pois bem, se é dessa fase que estamos falando, sinto-me confusa ao perceber que, mesmo em meio a tantos problemas familiares e impulsos naturais a minha pequena admirável não tenha despertado nenhuma dessas características...
Talvez por isso ela seja A pequena admirável (já não mais tão pequena assim)...

Feliz Aniversário Maitê! Eis aqui mais um poeminha pra você...


Se os treze são enfim a idade da batalha
Confesso que não sei por mim mesma entender
Se na criação de meu anjo houve falha
Que a fez assim, perfeita, nascer;

Não há revolta, então posso agradá-la
Não há desespero, nem agressividade
E mesmo tão jovem em conflito se cala
Inspira uma paz que contraria a idade;

Não lhe interessam os grandes amores
Que jovens começam a (tão cedo!) seguir
A pequena ainda quase brinca com flores
E sabe que a vida deve somente fluir

Sem acompanhar "a tal sociedade"
Por vezes a bela é deixada pra trás
Sutilmente se faz ignorar a idade
Seguindo, com foco, os seus ideais...

A vaidade tão doce que lhe é aparente
Esconde sua doçura por trás dos panos
É mais do que honra conhecê-la realmente,
E assim são seus treze admiráveis anos.



quarta-feira, 8 de maio de 2013

O jornal proibido


[Conto criado para a avaliação da disciplina de Didática, inspirado na peça que estou montando para meu TCC. "Terror e Miséria no Terceiro Reich", de Brecht.]

A jovem judia aguardava na fila do açougue enquanto arrancava incessantemente os fios soltos de sua blusa. Pensava nas horas como quem pensa na morte. Sabia que qualquer local público era claramente propício a um ato de violência naqueles tempos. Era "tempo de perseguição", declarava sua estrela azul numa faixa colocada em seu braço direito. O führer não a conhecia, mas a odiava, pois "é assim que gira o mundo", pensava ela, "em torno de guerras, conquistas, preferências e traumas sociais". Jamais cruzariam o mesmo caminho, mas eram inimigos. Ele a queria morta, sem saber de seus gostos, traumas, ideologias ou o que quer que fosse. Mas ninguém lia seus pensamentos, nem mesmo pela fisionomia, para sua sorte. Qualquer um pensaria que aqueles tempos difíceis haviam tornado uma menina tão jovem já apática e desinteressante. Mas não, a dor da jovem judia relacionava-se minimamente com toda aquela perseguição ao seu povo.

Havia ela, por volta de 1928, anos antes da perseguição aos judeus, tido um pai. E nisso ela pensava diariamente. Lembrava-se das canções infantis que havia aprendido com seu velho, horas antes de seu sono ainda tranquilo naquela época. Sabia que as poucas palavras que havia ouvido sair da boca do também judeu deviam-se ao seu cansaço pelo exaustivo trabalho na indústria de um amigo polonês. E, apesar das poucas palavras, seu pai havia deixado um eterno tormento na mente maquinante da menina: "Como pode alguém ser tão fiel a um mundo que não o merece?". Ao longo do tempo, a pequena haveria de descobrir que tal fidelidade de seu velho não se aplicava a todos. No ano de 1929, no auge de seus 8 anos de idade, a judia entendeu que o sofrimento era um presente; pois vinha seguido de superação, e como a menina adorava o sabor da superação! "Do abandono guardarei ensinamentos e das memórias de meu pai, que fique a admiração", determinou ainda criança.

Daquele tempo em diante a jovem aprendeu que de qualquer dor imposta pelo mundo, havia uma necessidade de se retirar algo que compusesse sua personalidade. E passou a lutar internamente com toda e qualquer sensação ruim. E naquela tarde, com o sol iluminando sua estrela no braço, a jovem sentia-se plena e disposta a enfrentar o monstro da guerra que estava por vir. Sentia-se forte. Sentia-se orgulhosamente abandonada. Sentia-se judia!
Quando, em desalinho com o universo, a vendedora a chama: "Próximo!". E a jovem caminhou, com seus passos de guerreira, encostando a barriga no balcão e pedindo sua peça de gordura. Pode ouvir, em poucos minutos um diálogo entre a vendedora judia e uma outra cliente, sobre um velho enforcado naquela mesma semana. "Os jornais não podem contar o que se passa na Alemanha! Foram até recolhidos e a firma foi tomada pelo governo!", afirmava a vendedora. "Tudo é progresso no Terceiro Reich!", concordava ironicamente a freguesa desconhecida. 
E naquele minuto, a jovem judia sentiu-se à vontade para perguntar discretamente "A senhora ainda não teria por acaso o seu exemplar? Gostaria de dar uma olhada!". (...) "Sim" - respondeu a vendedora à menina; "É este o tal jornal proibido.", sussurrou enquanto passava-lhe em um pequeno gesto pelo canto do balcão.

E se fosse uma foto do próprio führer abraçando um judeu, a jovem não se desestabilizaria tanto. Abaixo da manchete "Velho judeu solitário se enforca na manhã de domingo!" havia uma foto chocante do corpo de seu velho pai. Canções de ninar passavam brevemente pelo seu pensamento.