terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Olá, estranho!

Não há nada mais conveniente a se narrar nessa noite intensa do que a noite em que conheci o Alex. O escuro lá fora grita a sensação de “Abram suas janelas, seus caretas! E saiam para viver!”. Foi um dia sereno, amanhã todos trabalham e voltam às suas rotinas, mas a madrugada parece girar. Algo em mim me certifica de que o Alex não vai estar em casa até às 7h. Alex não vai aparecer no trabalho amanhã, porque até hoje ele não tem um emprego. Alex não está em casa assistindo aos programas de domingo, porque ele não respeita domingos. Alex certamente não sabe o dia, mês ou ano em que estamos. Em sua dimensão ele faz o que quer, como quer. E se isso machuca alguém, que machuque! Melhor ainda!
Era uma noite qualquer daquelas dos dezesseis anos. Não podia-se nada, mas fazíamos tudo. Até porque esse “tudo” nunca fora grande coisa. Estávamos eu, Maury (meu fiel e cruel escudeiro) e alguns outros desimportantes num bar decadente e seguro, no centro da cidade.
Acho importante situar a atmosfera dessa amizade. Nasci com Maury. Na mesma semana, na mesma cidade, aniversariamos juntos. Somos consideravelmente gêmeos, se não fosse o fato dele ter cabelos e olhos claros, situados naquela beleza irlandesa dele, que o torna ainda mais atraentemente estranho. Bom, reconheço tais méritos, mas confesso que o Maury haveria de se esforçar uma vida para deixar de ser “irmão” aos meus olhos, e ainda assim jamais conseguiria. Sempre tive por ele aquela paixonite de irmão, que não vai além de querer pentear seus cabelos ou arrumar sua gravata na noite de formatura. Uma paixonite hora incestuosa, reconheço, mas esses sentimentos eram tão relâmpagos que certamente esse meu... “irmão”, não entenderia. E estragaria tudo.
Na arte de estragar tudo, Maury era Phd. Acho importante ressaltar que, tudo que envolvesse uma terceira pessoa, virava briga nas mãos do ciúme doentio do rapaz. E é bem aí que entra Alex, outro excelente galo de ringue.
Passa-se o tempo no bar e Maury vai irritando-se. Eu conversava com outras pessoas driblando minha introspecção e isso o deixava furioso. “Lugar mal frequentado!”, “Vamos embora!”, “Que gente chata e burra!” e mais uma série de blablablás. No mais idiota dos segundos virei para o lado e Maury presenteava um estranho com o movimento de seus belos punhos cerrados. Iniciava-se mais uma brigada sem explicação, daquelas que eu detestava ter que assistir e repreender  após o término. O problema foi que, nesse lugar, a briga tomou outra proporção. Em questão de minutos já haviam indecifráveis gritos no ar e objetos voadores, como em Moulin Rouge, mas situados na poesia da violência.
Conto hoje com desprezo, caro leitor, porque já sei bem o final dessa história, mas empolgue-se você, ao saber que eu chorava desesperada tentando sair daquele lugar. As luzes pareciam estarem mais apagadas, o lugar mais sujo, o som mais alto. Senti apenas uma braçada no estômago, de um homem que caiu desmaiado ao meu lado, como um pedaço de madeira, me levando também para o chão. Ao lado dele, quase em meu colo, caiu também um rapaz de mãos ensanguentadas. Ao tentar levantar-se habilmente, seus olhos ávidos por mais briga, cruzaram com o desespero dos meus. E foi assim que vi Alex pela primeira vez, num cenário assustador  e extremamente desagradável. Podem me afirmar quantas vezes quiserem que em menos de uma hora a polícia já estava por ali; para mim, ficamos nos olhando por horas, como se estudássemos ambas personalidades e tateássemos territórios inimigos.
Havia tanto enigma naquele olhar que mal lembrei-me de mencionar que eram azuis. Grandes e azuis, como os de Maury tentavam ser, sem sucesso algum. Talvez os olhos de Maury conseguissem até mesmo ser mais interessantes que os de Alex, mas não o olhar! Aquele olhar maldoso era imbatível. Tempo depois descobri que Alex era o pior elemento que poderia passar na vida de qualquer pessoa. Sentenciado poucas vezes com trabalhos comunitários por pequenos crimes, Alex orgulhava-se de seus grandes feitos nunca terem sido descobertos; feitos esses envolvendo chantagens e abusos que deixaram Maury alarmado. Era nítido que o odiava, mas Maury respeitava Alex em minha vida, obviamente por medo.
Posso afirmar com segurança que eu fui a única pessoa na vida de Alex que ele jamais traíra, tratara com resquícios de crueldade ou praticara violência física. “Foi devoção à primeira vista, não sei explicar...”, tentava explicar a mim o que sentia. Alex não era bom em sentir, por isso pouco falava. Eu era sua “protegida”, como pejorativamente classificava Maury. Mas pouco me importa a falta dele ou sua devoção. Voltemos àquela noite.
Nos olhamos por um bom tempo, assustados, até que aquele olhar pareceu sorrir-me sarcasticamente. Ele segurou minha mão, sujando parte da minha roupa de sangue. Ajudou-me a levantar (em partes, em meio ao quebra-quebra) e fomos ligeiramente nos esquivando da briga, até o portão dos fundos do bar. Sem uma palavra, Alex abriu com um chute a porta e saímos, nos escondendo atrás do entulho. Ele corria para me tirar de lá, mas não parecia verdadeiramente preocupado; tudo parecia estar divertido para ele.
Agitado e ainda ofegante perguntou-me: “Quem é você?”. Ainda nervosa, pensando naquele olhar cínico, sorridente e azul, respondi: “Não sei!”. Alex prensou-me com um dos braços no canto do entulho e, ainda agachado, deu uma olhada rápida para ver se ninguém estava vindo. Logo, voltou-se a mim novamente: “Não sabe quem você é? Então você é louca...”. Ainda focada em seu braço esquerdo que tocava meus seios e me imobilizava ensaiei dizer meu nome quando ele me interrompeu: “Não quero saber seu nome, quero saber quem você é para me fazer sentir essa coisa estranha.”
As coisas começavam a não fazer o menor sentido e eu só conseguia pensar no que eu poderia dizer para ele não querer me soltar nunca mais.
- Que coisa estranha? – perguntei. “Não sei – respondeu em voz baixa dando mais uma olhadela na porta do bar – Uma vontade estranhar de não te machucar!”
Ok, até aí tudo estava completamente fora dos padrões. Pessoas não deveriam estranhar o simples fato de não quererem machucar as outras, mas Alex era assim. Em seu mundinho de brinquedos para desmontagem eu era aquela boneca que não se tira da caixa.
- Olhe bem, eu vou te soltar, mas se você correr... Se você fugir... – e algo nele parecia querer me ameaçar, mas não o fez – Se você fugir não vou fazer nada. É isso! Que se dane!...

E tirou o braço de meu peito, jogando todo seu peso sobre os joelhos. Sentou-se aos poucos e olhou para o horizonte, derrotado. Essa seria, inquestionavelmente, a hora certa de ir embora e agradecer mentalmente (só mentalmente) a ajuda do estranho enquanto corria para casa. Travei. Travei ao lado dele enquanto a razão me dizia para correr e alguma força estranha me dizia para ficar. A força estranha ganhou e ainda me fez tocá-lo. Segurei sua mão com a maior sutileza que pude e ele me lançou aquele olhar de estranhamento, ainda cínico, como se gostasse muito daquilo, apesar da surpresa. Seu olhar cativante agora era indecente. Mas não soltei sua mão; apenas segurei ainda mais forte como se quisesse prendê-lo a mim, e ele entendeu. Aos poucos fui perdendo o medo de seus olhares depravados e atormentadores. Eram, na verdade, olhares de cumplicidade, e descobri que, naquela noite, eu ganhara um novo “meio-irmão-incestuoso”, “melhor amigo” ou qualquer outra coisa na qual eu quisesse classificar.

domingo, 21 de dezembro de 2014

James Dean

Te analiso sem poder deixar de ser assim
E gosto de coisas em você,
Coisas que não gosto em mim.
E uma adorável simetria
Contrasta com a apatia
Que carrega no olhar, sem fim.
Olhar baixo, bom em não me olhar;
Mestre em me ignorar
Phd em desprezo
Que tanto fez a me interessar,
Protótipo de James Dean.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Regalo incompleto

Rapaz viajante cujo nome dorme comigo
Da tal maneira antiga, não te endossando perigo
Aquele coração simplório que doei um dia, de bom grado
Por algum acaso estranho não estaria adulterado?
Guardas cada pedaço contando em ordem crescente?
Há uma idéia amarga que agora não me sai da mente
Sinto que um pedacinho incômodo ainda restou assim
E corre pela minh'alma a agonia de um amor sem fim
Que não tem dono, nem sono, nem paz e nem dó de mim! 


Por que levou jogo incompleto, amor desorganizado?
Se foi pra brincar de sonho, suponho que brincaste errado.
E quando se rouba algo,  o leva inteiro do lugar.
Se estavas ocupado com tua música, podias ao menos guardar num canto
Meu presente simbólico que hoje,
Sangrando só,  e tanto!
Suspeito que esteja dividido,
Contigo, com ele, comigo...
E com mais ninguém por enquanto.
Se querias dividir meu presente
Devias ser coerente
E não entregá-lo à pranto.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Roleta de Pandora

Naquela roleta enorme não havia serenidade

Cada brinde, um pesadelo
Cada giro, uma idade. 

No giro 2, um abandono.
História essa que dá sono, comparada às novidades. 

E um longo descanso
Seguido do giro 15,
Que parou na paranóia
Particular! Com sua imagem...
Mas que nunca há de acabar!

No giro 16, favor me lembrem vocês, se houve uma separação.
Onde havia uma criança, que mal entrara na dança e já jogava com emoção 

Já no giro 17, suplicou que se aquiete
A grande roda giratória.
Ali não houve escapatória,
E semi-órfã duas vezes, armazenou trauma de um vício.
Momento esse que partiu, pra sua sorte!
E, agraciadamente, sem morte
Não ousou deixar resquício. 

E lá pros giros vinte e tantos, a mesma separação tornou a girar;
Junto veio uma doença, desenganada,  que a crença, tratou de curar.
No presente desse giro havia tanta noite em hospital que já não sei mais dizer,
Se foi por alguém que ama; por cavalheiro, avó ou dama; se foi por ela ou por você. 

E por cerca de três bons anos, creiam vocês, aos 22, não houveram danos.
Mas a vida, novamente, mastigava cruelmente, sem digerir, seus planos. 
E já disposta a ser feliz, sendo freneticamente atriz, foi já bem aos 23 que caiu de cabeça na vida.
Novamente em hospital, em carência maternal, encontrava-se querida. 

E sem ter passado um ano, antes fosse ledo engano a volta do maior medo.
Nesse giro repetitivo,
Juro, não houve motivo,
E já nem choro em segredo.
Retornou à dependência, seja ou não por inocência o maior amor de sua vida.
E entregue ao vício imundo, a vida, nem por um segundo, cedeu à sua clemência.
Ah horas torturantes!...
Ah paranóia constante!...
Ah antiga negligência!

Calma, destino! Uma falha por ano... Uma dor por momento...
Vejam só, mais desalento...
Abandono novamente.
Roda, que lembra anel de noivado
Mal parou, já tem rodado
Um término inconsequente.
Dum namoro, após 6 anos.
Que acaba, sem traição
Sem motivo, só "Perdão!".
"...Mas hoje te amo diferente!"

E nos demais giros recentes inda não houve calmaria. 
Viciada em brindes malvindos, rodando dia após dia, há de aguardar utopia.
Sei que foi tanta tempestade, apesar da pouca idade,  que a água do Brasil secou. 
E na roleta de sua vida,
Onde os brindes são pesadelos
Aprendeu que não há saída.
E em poema exalto agora:
Com tanta mágoa adocicada
Hei de girar, novamente, assustada
Essa roleta de Pandora.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Teu poema sonoro

Rasguei seus bilhetes sonoros
Ainda cativantes
E desliguei o som de seu sotaque
Único e em mim vibrante

E o silêncio de você faz som
Me consome, e some...
Seu timbre, reconheço em qualquer tom

Num acorde arranhado
Em sua canção, que me encante
Educa meu tom desafinado



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Bafafá de fim de festa

E estava sutilmente ardente
Aquela noite de balão no ar
Quando algo incoerente
Fez a moça deixar de amar

Não era grito de horror nenhum
Mas de horror restara o fato
Que, entre sussurro e ziriguidum
O casal não concluiria o ato

Foi balão caindo constrangido
E fogueira pulando sozinha
Mulher esbofeteando marido
E tombamento de barraquinha

Sem doce, moleque dando no pé
E avental se borrando todinho
Fuga de padre vestido de mulher
E brinde rasgando o próprio saquinho

A garota quebrava tudo murmurando
E o moço chorando dizendo que ama
E em coro de junho, a festa gritando:
"Ô rapaz, não se troca nome de dama! "

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Paixão em sete artes


Não há como afinar o desafeto.
E colorir a tela preta é pretensão.

Esculpindo cada passo,  cada gesto,
Arquitetar sentimento é razão.

Em uma sinfonia inaudível, de um tom mil oitavas acima
Não há beleza ou ao menos comoção.

Tento te focar nessa lente, que mente!
Me mostrando que pode não ser rascunho
As palavras que te fiz, de próprio punho.

Mas as cortinas se fecham sem contra-regragem
Nessa cena de desespero e devoção.
Pois nessa saga, de três filmes de paixão
Já não vejo trilogia,  é mania!
Que, com arte,  estagnou minha atenção.

Nao há cor,  som,  plano,  quadro ou palco
Que classifique contemporâneo um coração.

Poema chato e cliché

De amor não se escreve,  porque é mutável,
Não tem forma,  mas tem!
Tem uma cor ou dez,  e mais outras cem.
E sobre seu som infinito,  sempre vai,  não vem.
Seu nome é cliché,  mas sempre renomeado;
Com nome de menino,  menina,  ou qualquer outro culpado.
Se trata de amor,  sempre se agrega mais,
Se agrega o mundo e tudo que se é capaz.
Se cultiva profundo o dom de querer mais.
Não há limite no mundo!
Não há presença de paz.

Falta amor

Não sei dizer-te a que ponto estou
Levaram-me o sonhar, e o sonho ficou
Assim, querer-me, já não mais convém 
Só, no entanto, já contorno bem.

É como hoje sei ser quem sou.

E desamor pratico mais além.

Na alma que tenho, só há saudade de amar alguém.

domingo, 17 de agosto de 2014

Armadilha

Em meio a uma multidão insone e oculta
Tento eu, sutilmente, me camuflar.
A noite me cutuca com seus dedos finos, compridos e brancos;
Como agulhadas.
Pois ela sabe que estou fingindo.
Sabe bem que estou tentando. Mas não sou dessas que "vive", apenas.
Por vezes troco o "viver" pelo "pensar".
E são essas as maiores vítimas desse monstro diário.
Tome cuidado com seus dedos finos.
Não dê atenção a ela!
Não sinta sua presença!
Não escreva sobre ela!
Não a classifique como "monstro".
Isso te deixa perto. Tão perto! De ser envolvido.
Feche os olhos e aparente estar feliz.
Os monstros só atacam quem invade a cena de suspense.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Vida fácil

Um poema gigantesco e milhares de desabafos;
O problema não fora a escolha de minha profissão ingrata, de minha cidade maluca ou de qualquer coisa que esteja ao meu alcance. Minhas única lamentações dizem respeito àquilo que eu não pude opinar. Ao fato de eu ter crescido, da vida ter sido dificultada e, por diversas vezes, ter me jogado de joelhos nesse asfalto cruel que é o tempo. Sei que é preciso limpar os joelhos ralados e estar pronta para um novo tombo, portanto, não se preocupem! Cada obra minha repleta de suas inúmeras lamentações são apenas um curativo. Sem elas eu permaneceria com a ferida exposta. Aos que me amam e se preocupam, entendam: Se eu escrevi, botei para fora, portanto, estou livre dessas amarras... Sinto-me bem ao ver que estou vivendo da melhor forma a imposição que o tempo me apresentou...

"Estranhamente outra vez me vi acordar tão velha
Como nos demais dias em que refletida não me vi
E embora não entendam, pouco falo de matéria
Me refiro ao meu íntimo ao que aos poucos me envolvi.

Levantei em nova cama, sem ninguém no quarto ao lado
E despertando sozinha não houve assim discussão
Passo a passo, lentamente, pratiquei o que haviam ensinado
Tomei café ao som de uma obra em ebulição.

Sem ninguém pra me guiar, recordei o meu caminho
A cada segundo olhando os ponteiros pra me organizar
É bom lembrar que relógios não nos apressam com carinho
E se esquecer-me de algo, não há quem possa me lembrar

O trajeto desconfortável em nada lembra a cidade querida
Nem o balançar daquele trânsito gentil interiorano
O dobro do tempo demora na verdade apenas a ida
E nesses transportes, brincando, pode-se perder mais de ano.

Então chego em meu destino, que não é o saudoso colégio.
Uma grande organização onde sou um número a mais
E arriscar um sorriso, chega a ser até sacrilégio
Pois já não me tratam pelo nome, os profissionais.

E em meio à multidão, num clichê, sou sozinha
Voltando pra casa, há mais horas de trajeto
Sabendo que tal vida agora é a escolhida minha
E que mesmo sem tempo, não o sinto enfim completo.

E nos finais de tarde me pus a caminhar
Observando a pressa automática dos rostos invisíveis
E escrevia alguns versos por não ter pra quem contar
Sobre os tais desconhecidos e nossas semelhanças possíveis.

E de noite em minha cama ainda arrisco uma oração
Das que minha avó entoava, e que tento me lembrar
E sinto que naquela casa abandonei meu coração
E que, apenas lá ainda posso ousar chamar de "lar".

No apartamento vazio está guardado o meu sonho
E o futuro corre perto, por essas ruas borbulhantes
Questiono-me agora com o pensamento enfadonho
Se, tendo vindo até aqui, talvez não fosse feliz antes.

E escrevendo tanto assim, dei-me conta de que é tarde
E só restam-me algumas estrelas em meio à poluição
E essa nova vida, decorei com minha arte
Que emolduro dia a dia com a minha devoção.

Que me falta a família, nem preciso lembrar
Sinto que pulei para agora, do momento em que nasci
Mas em tal período breve, que não pude aproveitar
Lembro só que planejava vida esta que escolhi.

Mas minha vontade faz-se aqui de ficar
Pois dores cotidianas, isso o tempo cura
O que enfim, jamais altera-se, é a vontade de sonhar
E há amor pela saudade que carrego com ternura."

domingo, 29 de junho de 2014

Encruzilhada


Sozinho, viajante da encruzilhada
Que leva consigo a minha alma
Que sem ter vendido fora levada
Roubada junto de minha calma;
Não a quero de volta, dei de bom grado
Como assim me daria inteiramente
Não entendes metade do que digo
E já me destes minha vida de presente.
Levando o cigarro como quem desafia a morte
E no chapéu seu jeito meio ausente
Arriscando na estrada o mais belo acorde
Te imaginar apenas têm me feito coerente.
Nem mesmo o meu coração me fez falta
Quando entrou em meu mundo trazendo-me luz
Que ouso sentir em sintonia alta
Deixando minha paz em troca do seu blues.
E quando enfim passar essa onda quente
Que me devolve a musicalidade reprimida
Tentarei guardar seu rosto em minha mente
E não destrocar a lembrança por minha vida.
Seu jeito de falar é musica espontânea
No sul, Louisiana, ou ainda por mais perto
E de seus trejeitos já sei a coletânea;
Que te entendo como entendes música, é certo!
Bem como sentes o som e não sabe explicar
Também sei sentir algo assim inesperado
Que não sei onde é o início e nem SE vai terminar
E tão "sem definições" foi cair no meu agrado.
E como enfim entende as tais "frases feitas" do soul
Entenda que tal sensação é a que tenho apreciado
Do "my baby left me" a única coisa que restou
É a frustração por não poder ter ao menos te deixado.
Coincidências à parte, ouço então melodia esquecida.
E acho que assim defino paixão:
Pra uma garota que não era nem ouvida
Querer somente ouvir é quase devoção.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vadia

E enquanto sou a vadia para alguém
Há gente no mundo que nem vadia tem!
Que sobrevive, não vive, nem pensa, nem sente
E há quem diga por aí que essa gente também é gente!
Há quem diga também que quem presta não mente.
E se mente, é sempre por um "bem maior".
A verdade é que a falta de verdade a gente traz
Quando a nossa vadiazinha particular não nos satisfaz.
Confesso que não ligo pra protestos em versinhos
Tira a credibilidade, não tira?
Mas quais são os créditos de uma vadia tão vazia?
Eu só quero ser lembrada por ter sido capaz
De levar às vadias, com meu verbo, alguma paz.

Puta merda, mas que equívoco!
Me desculpem meus leitores, por um erro tão boçal!
Com o corretor automático criei um poema banal
Não quis rimar sobre "piranha", "prostituta" ou "bacanal"...
Estava falando da VIDA, mas esse teclado maldito..
Tendo trocado as palavras, deu outro sentido ao escrito
Peço que troquem lá em cima, e fica o dito por não dito.

Então onde houver "vadia" por favor troquem por "vida"
E nunca, em hipótese alguma, troquem suas vidas por vadias!

XOXO


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Prima, Primavera

E com o tempo que se passa hoje forço a inspiração,
O amor ainda o mesmo, sem sinal de decadência,
Mas palavras belas fogem pra perfeita descrição 
Do que ela hoje enfrenta, a chamada "adolescência".


Fase bela nos livros, dura na realidade.
Passar tardes chorando só é poético pra quem vê 
Aos poucos vai apontando inseguranças da idade, 
E mais difícil ainda é estar longe de você.


Lembre-se, linda moça, que passei tal fase difícil 
E que, apesar de complicado, passaria por você.
Se as fadas, que já não existem,  tornassem coisa possível 
Tomaria seu lugar, só pra não te ver sofrer.


Mas se quer saber,  catorze podem ser os melhores anos.
Não deixe a amarguice dessa jovem idosa estragar
Seus sonhos,  risos,  luz,  e principalmente seus planos 
E se algo for difícil,  aprenda a valorizar!


E quando chorar num sofá, parecendo insegura 
Saiba que você comanda os pensamentos que vieram 
Limpe suas lágrimas de eterna menina pura
E orgulhe-se da força que esses catorze anos te deram!

Parabéns Maitê! 
Da prima e fã, aprendiz de poetisa,
Malu.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Receita genealógica

Café, filé com queijo, abacate, danoninho,
misturados numa forma untada com carinho.
Pitanga, bolinho de arroz, sopa de letras, jabuticaba,
Seguindo fielmente a infancia é eternizada.

Sorriso, olhar triste, cabelos longos, batom, violão...
Um pouquinho de atraso e um enorme coração;
Chanceller, Crazy, meias de inverno, papelada,
Uma receita de mãe docemente adulterada.

Tailleur, saltos, jóias, discurso hipnotizante,
Orações na janela, caixa de costura na estante.
Dom na cozinha, cabelo curto vermelho europeu,
Fórmula essa, quisera em sonho fosse eu.

Radinho de pilha, cochilo, jornais e selos de troca,
Continha feita a mão, Corinthians, mercado, balinha e paçoca,
Pudim de pão, óculos com correntinha, Monza, prestatividade eterna,
Do primeiro grande ídolo,
Eterno fosse ele, quisera!

Franja, alegria, filminhos de tarde, corpo violão delicado,
Maquiagem perfeita, choppinho, gravidez, cartas de ex-namorado;
Paciencia extrema, mini-blusa, cabelos negros e simpatia,
Seria a receita de um anjo se não fosse de uma jovem tia.

Cabelos longos outra vez, mas em figura masculina,
Imagem de um All Star surrado, é vida que rebobina!
Pôsters, 80's, chicletes e adesivo de boate grudado,
Alguns dos poucos segredos de um tio-dj-descolado.

Barzinho, blues, luas que não acompanham e sarcasmo.
De estimação, fotos de viagem, cd's,  cachorro e cigarro.
Um pouco de poesia, familia e sistematização,
Genialidade incontestável nessa fórmula que é só coração.

Não por isso fácil, por fim a mais recente, 
Roupas de rock, cadernos, insegurança, coisas de adolescente!
Outrora, coisas de bebê, livrinhos, jogos e lápis de cor.
Se não fosse receita de irmã, chamaria receita de amor.

E a mim, misturados os itens, e umas pitadas de amarguice,
Possível que, caso não exploda, em algo lembre meninice.
Pois mágoa, medo, frieza, insegurança e apatia,
Se misturados aos outros, não há de ser menos que alegria.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um jardim

Dentre tanta massa podre que há na formação de um ser humano, existe uma partezinha de nós, pela qual vivemos, que é responsável por cultivar o amor. Amor pelas coisas certas, pelas coisas erradas... Pelas pessoas certas, pelas erradas... E existem milhões de ramificações dentro desse dom especial que temos.

Amamos sempre, aceitando ou não. Amamos coisas, pessoas, lugares, situações, sons, aromas, lembranças, ensinamentos... E desse "amar" nascem outros belos dons que, na correria diária, por vezes não valorizamos. Como o dom de superação, que nos faz superar a distância do seu motivo de afeição.

A origem dessa minha pequena e confortante (a mim) reflexão pode ser um tanto quanto irrelevante para a maioria das pessoas. Mas na maioria dos casos a origem das coisas pouco importa, o importante é onde nos leva. Um jardim. Foi daí que nasceu essa vontade de ressaltar o óbvio: o amor é inexplicável.

Amamos seres que nem falam a nossa língua e lambem nossas canelas.
Amamos pessoas que nunca se lembram dos nossos nomes.
Amamos situações que, posteriormente, podem nos trazer problemas.
Amamos lugares que nunca serão nossos e podem, num futuro próximo, nem mesmo existir.
Amamos lembranças que nos machucam e nos fazem chorar.
E cada um de nós ama coisas que os outros julgam não serem passíveis de amar.

Eu amo um jardim. O jardim que fica na casa dos meus avós. Que não será eterno, obviamente! Mas que me presenteou com lembranças. E essas sim são eternas. E amo ainda mais essas milhões de lembranças mágicas que pairam nele. De meus primeiros passos, primeiros tombos, dos acidentes na rede de balanço, das novas flores que sempre surgiam sem eu nem saber de onde vinham... Lembranças da casa onde eu vivi 17 marcantes anos de minha vida. E as lembranças dessa árvore que estou olhando na foto, que foi retirada há pouco tempo (do jardim!!! Não do meu coração!).
Ao longo da vida amamos tantas coisas, e eu ainda arranjei espaço para amar um jardim! E nesse jardim aprendi que o valor das coisas cresce à medida que nós desejamos que cresçam. E eu desejei esse jardim assim, repleto de boas energias.
Que fique eternizada então aqui, mais essa lembrança gostosa de amar.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Agora saudade


Certa vez poetisei tal sentimento
Narrei, proseei, encenei e senti
Mal sabia ainda não ser o momento
De almejar o que nem mesmo conheci;

O tempo, que é a maior de todas as ternuras
Nos engana e leva o que é nosso por direito
Deixa em versos livres, descritas nossas loucuras
E em peso real guarda a saudade em nosso peito

Em palavras e poemas retratei o meu mundo
Tentando não ir além de lembranças do passado
E em sonhos de infância vir a mergulhar bem fundo

Mas em breves recordações só transparecem verdades
E relembrando então meus momentos de doçura
Sinto que agora sei definir "saudade".

de 01-03-2010

versinho da madrugada

em 20/11/2008

Efêmeros sentimentos
Insanos, sem dono
Sem nome... pensamentos
quando me falta o sono.