quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Receita genealógica

Café, filé com queijo, abacate, danoninho,
misturados numa forma untada com carinho.
Pitanga, bolinho de arroz, sopa de letras, jabuticaba,
Seguindo fielmente a infancia é eternizada.

Sorriso, olhar triste, cabelos longos, batom, violão...
Um pouquinho de atraso e um enorme coração;
Chanceller, Crazy, meias de inverno, papelada,
Uma receita de mãe docemente adulterada.

Tailleur, saltos, jóias, discurso hipnotizante,
Orações na janela, caixa de costura na estante.
Dom na cozinha, cabelo curto vermelho europeu,
Fórmula essa, quisera em sonho fosse eu.

Radinho de pilha, cochilo, jornais e selos de troca,
Continha feita a mão, Corinthians, mercado, balinha e paçoca,
Pudim de pão, óculos com correntinha, Monza, prestatividade eterna,
Do primeiro grande ídolo,
Eterno fosse ele, quisera!

Franja, alegria, filminhos de tarde, corpo violão delicado,
Maquiagem perfeita, choppinho, gravidez, cartas de ex-namorado;
Paciencia extrema, mini-blusa, cabelos negros e simpatia,
Seria a receita de um anjo se não fosse de uma jovem tia.

Cabelos longos outra vez, mas em figura masculina,
Imagem de um All Star surrado, é vida que rebobina!
Pôsters, 80's, chicletes e adesivo de boate grudado,
Alguns dos poucos segredos de um tio-dj-descolado.

Barzinho, blues, luas que não acompanham e sarcasmo.
De estimação, fotos de viagem, cd's,  cachorro e cigarro.
Um pouco de poesia, familia e sistematização,
Genialidade incontestável nessa fórmula que é só coração.

Não por isso fácil, por fim a mais recente, 
Roupas de rock, cadernos, insegurança, coisas de adolescente!
Outrora, coisas de bebê, livrinhos, jogos e lápis de cor.
Se não fosse receita de irmã, chamaria receita de amor.

E a mim, misturados os itens, e umas pitadas de amarguice,
Possível que, caso não exploda, em algo lembre meninice.
Pois mágoa, medo, frieza, insegurança e apatia,
Se misturados aos outros, não há de ser menos que alegria.