terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Olá, estranho!

Não há nada mais conveniente a se narrar nessa noite intensa do que a noite em que conheci o Alex. O escuro lá fora grita a sensação de “Abram suas janelas, seus caretas! E saiam para viver!”. Foi um dia sereno, amanhã todos trabalham e voltam às suas rotinas, mas a madrugada parece girar. Algo em mim me certifica de que o Alex não vai estar em casa até às 7h. Alex não vai aparecer no trabalho amanhã, porque até hoje ele não tem um emprego. Alex não está em casa assistindo aos programas de domingo, porque ele não respeita domingos. Alex certamente não sabe o dia, mês ou ano em que estamos. Em sua dimensão ele faz o que quer, como quer. E se isso machuca alguém, que machuque! Melhor ainda!
Era uma noite qualquer daquelas dos dezesseis anos. Não podia-se nada, mas fazíamos tudo. Até porque esse “tudo” nunca fora grande coisa. Estávamos eu, Maury (meu fiel e cruel escudeiro) e alguns outros desimportantes num bar decadente e seguro, no centro da cidade.
Acho importante situar a atmosfera dessa amizade. Nasci com Maury. Na mesma semana, na mesma cidade, aniversariamos juntos. Somos consideravelmente gêmeos, se não fosse o fato dele ter cabelos e olhos claros, situados naquela beleza irlandesa dele, que o torna ainda mais atraentemente estranho. Bom, reconheço tais méritos, mas confesso que o Maury haveria de se esforçar uma vida para deixar de ser “irmão” aos meus olhos, e ainda assim jamais conseguiria. Sempre tive por ele aquela paixonite de irmão, que não vai além de querer pentear seus cabelos ou arrumar sua gravata na noite de formatura. Uma paixonite hora incestuosa, reconheço, mas esses sentimentos eram tão relâmpagos que certamente esse meu... “irmão”, não entenderia. E estragaria tudo.
Na arte de estragar tudo, Maury era Phd. Acho importante ressaltar que, tudo que envolvesse uma terceira pessoa, virava briga nas mãos do ciúme doentio do rapaz. E é bem aí que entra Alex, outro excelente galo de ringue.
Passa-se o tempo no bar e Maury vai irritando-se. Eu conversava com outras pessoas driblando minha introspecção e isso o deixava furioso. “Lugar mal frequentado!”, “Vamos embora!”, “Que gente chata e burra!” e mais uma série de blablablás. No mais idiota dos segundos virei para o lado e Maury presenteava um estranho com o movimento de seus belos punhos cerrados. Iniciava-se mais uma brigada sem explicação, daquelas que eu detestava ter que assistir e repreender  após o término. O problema foi que, nesse lugar, a briga tomou outra proporção. Em questão de minutos já haviam indecifráveis gritos no ar e objetos voadores, como em Moulin Rouge, mas situados na poesia da violência.
Conto hoje com desprezo, caro leitor, porque já sei bem o final dessa história, mas empolgue-se você, ao saber que eu chorava desesperada tentando sair daquele lugar. As luzes pareciam estarem mais apagadas, o lugar mais sujo, o som mais alto. Senti apenas uma braçada no estômago, de um homem que caiu desmaiado ao meu lado, como um pedaço de madeira, me levando também para o chão. Ao lado dele, quase em meu colo, caiu também um rapaz de mãos ensanguentadas. Ao tentar levantar-se habilmente, seus olhos ávidos por mais briga, cruzaram com o desespero dos meus. E foi assim que vi Alex pela primeira vez, num cenário assustador  e extremamente desagradável. Podem me afirmar quantas vezes quiserem que em menos de uma hora a polícia já estava por ali; para mim, ficamos nos olhando por horas, como se estudássemos ambas personalidades e tateássemos territórios inimigos.
Havia tanto enigma naquele olhar que mal lembrei-me de mencionar que eram azuis. Grandes e azuis, como os de Maury tentavam ser, sem sucesso algum. Talvez os olhos de Maury conseguissem até mesmo ser mais interessantes que os de Alex, mas não o olhar! Aquele olhar maldoso era imbatível. Tempo depois descobri que Alex era o pior elemento que poderia passar na vida de qualquer pessoa. Sentenciado poucas vezes com trabalhos comunitários por pequenos crimes, Alex orgulhava-se de seus grandes feitos nunca terem sido descobertos; feitos esses envolvendo chantagens e abusos que deixaram Maury alarmado. Era nítido que o odiava, mas Maury respeitava Alex em minha vida, obviamente por medo.
Posso afirmar com segurança que eu fui a única pessoa na vida de Alex que ele jamais traíra, tratara com resquícios de crueldade ou praticara violência física. “Foi devoção à primeira vista, não sei explicar...”, tentava explicar a mim o que sentia. Alex não era bom em sentir, por isso pouco falava. Eu era sua “protegida”, como pejorativamente classificava Maury. Mas pouco me importa a falta dele ou sua devoção. Voltemos àquela noite.
Nos olhamos por um bom tempo, assustados, até que aquele olhar pareceu sorrir-me sarcasticamente. Ele segurou minha mão, sujando parte da minha roupa de sangue. Ajudou-me a levantar (em partes, em meio ao quebra-quebra) e fomos ligeiramente nos esquivando da briga, até o portão dos fundos do bar. Sem uma palavra, Alex abriu com um chute a porta e saímos, nos escondendo atrás do entulho. Ele corria para me tirar de lá, mas não parecia verdadeiramente preocupado; tudo parecia estar divertido para ele.
Agitado e ainda ofegante perguntou-me: “Quem é você?”. Ainda nervosa, pensando naquele olhar cínico, sorridente e azul, respondi: “Não sei!”. Alex prensou-me com um dos braços no canto do entulho e, ainda agachado, deu uma olhada rápida para ver se ninguém estava vindo. Logo, voltou-se a mim novamente: “Não sabe quem você é? Então você é louca...”. Ainda focada em seu braço esquerdo que tocava meus seios e me imobilizava ensaiei dizer meu nome quando ele me interrompeu: “Não quero saber seu nome, quero saber quem você é para me fazer sentir essa coisa estranha.”
As coisas começavam a não fazer o menor sentido e eu só conseguia pensar no que eu poderia dizer para ele não querer me soltar nunca mais.
- Que coisa estranha? – perguntei. “Não sei – respondeu em voz baixa dando mais uma olhadela na porta do bar – Uma vontade estranhar de não te machucar!”
Ok, até aí tudo estava completamente fora dos padrões. Pessoas não deveriam estranhar o simples fato de não quererem machucar as outras, mas Alex era assim. Em seu mundinho de brinquedos para desmontagem eu era aquela boneca que não se tira da caixa.
- Olhe bem, eu vou te soltar, mas se você correr... Se você fugir... – e algo nele parecia querer me ameaçar, mas não o fez – Se você fugir não vou fazer nada. É isso! Que se dane!...

E tirou o braço de meu peito, jogando todo seu peso sobre os joelhos. Sentou-se aos poucos e olhou para o horizonte, derrotado. Essa seria, inquestionavelmente, a hora certa de ir embora e agradecer mentalmente (só mentalmente) a ajuda do estranho enquanto corria para casa. Travei. Travei ao lado dele enquanto a razão me dizia para correr e alguma força estranha me dizia para ficar. A força estranha ganhou e ainda me fez tocá-lo. Segurei sua mão com a maior sutileza que pude e ele me lançou aquele olhar de estranhamento, ainda cínico, como se gostasse muito daquilo, apesar da surpresa. Seu olhar cativante agora era indecente. Mas não soltei sua mão; apenas segurei ainda mais forte como se quisesse prendê-lo a mim, e ele entendeu. Aos poucos fui perdendo o medo de seus olhares depravados e atormentadores. Eram, na verdade, olhares de cumplicidade, e descobri que, naquela noite, eu ganhara um novo “meio-irmão-incestuoso”, “melhor amigo” ou qualquer outra coisa na qual eu quisesse classificar.