domingo, 17 de agosto de 2014

Armadilha

Em meio a uma multidão insone e oculta
Tento eu, sutilmente, me camuflar.
A noite me cutuca com seus dedos finos, compridos e brancos;
Como agulhadas.
Pois ela sabe que estou fingindo.
Sabe bem que estou tentando. Mas não sou dessas que "vive", apenas.
Por vezes troco o "viver" pelo "pensar".
E são essas as maiores vítimas desse monstro diário.
Tome cuidado com seus dedos finos.
Não dê atenção a ela!
Não sinta sua presença!
Não escreva sobre ela!
Não a classifique como "monstro".
Isso te deixa perto. Tão perto! De ser envolvido.
Feche os olhos e aparente estar feliz.
Os monstros só atacam quem invade a cena de suspense.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Vida fácil

Um poema gigantesco e milhares de desabafos;
O problema não fora a escolha de minha profissão ingrata, de minha cidade maluca ou de qualquer coisa que esteja ao meu alcance. Minhas única lamentações dizem respeito àquilo que eu não pude opinar. Ao fato de eu ter crescido, da vida ter sido dificultada e, por diversas vezes, ter me jogado de joelhos nesse asfalto cruel que é o tempo. Sei que é preciso limpar os joelhos ralados e estar pronta para um novo tombo, portanto, não se preocupem! Cada obra minha repleta de suas inúmeras lamentações são apenas um curativo. Sem elas eu permaneceria com a ferida exposta. Aos que me amam e se preocupam, entendam: Se eu escrevi, botei para fora, portanto, estou livre dessas amarras... Sinto-me bem ao ver que estou vivendo da melhor forma a imposição que o tempo me apresentou...

"Estranhamente outra vez me vi acordar tão velha
Como nos demais dias em que refletida não me vi
E embora não entendam, pouco falo de matéria
Me refiro ao meu íntimo ao que aos poucos me envolvi.

Levantei em nova cama, sem ninguém no quarto ao lado
E despertando sozinha não houve assim discussão
Passo a passo, lentamente, pratiquei o que haviam ensinado
Tomei café ao som de uma obra em ebulição.

Sem ninguém pra me guiar, recordei o meu caminho
A cada segundo olhando os ponteiros pra me organizar
É bom lembrar que relógios não nos apressam com carinho
E se esquecer-me de algo, não há quem possa me lembrar

O trajeto desconfortável em nada lembra a cidade querida
Nem o balançar daquele trânsito gentil interiorano
O dobro do tempo demora na verdade apenas a ida
E nesses transportes, brincando, pode-se perder mais de ano.

Então chego em meu destino, que não é o saudoso colégio.
Uma grande organização onde sou um número a mais
E arriscar um sorriso, chega a ser até sacrilégio
Pois já não me tratam pelo nome, os profissionais.

E em meio à multidão, num clichê, sou sozinha
Voltando pra casa, há mais horas de trajeto
Sabendo que tal vida agora é a escolhida minha
E que mesmo sem tempo, não o sinto enfim completo.

E nos finais de tarde me pus a caminhar
Observando a pressa automática dos rostos invisíveis
E escrevia alguns versos por não ter pra quem contar
Sobre os tais desconhecidos e nossas semelhanças possíveis.

E de noite em minha cama ainda arrisco uma oração
Das que minha avó entoava, e que tento me lembrar
E sinto que naquela casa abandonei meu coração
E que, apenas lá ainda posso ousar chamar de "lar".

No apartamento vazio está guardado o meu sonho
E o futuro corre perto, por essas ruas borbulhantes
Questiono-me agora com o pensamento enfadonho
Se, tendo vindo até aqui, talvez não fosse feliz antes.

E escrevendo tanto assim, dei-me conta de que é tarde
E só restam-me algumas estrelas em meio à poluição
E essa nova vida, decorei com minha arte
Que emolduro dia a dia com a minha devoção.

Que me falta a família, nem preciso lembrar
Sinto que pulei para agora, do momento em que nasci
Mas em tal período breve, que não pude aproveitar
Lembro só que planejava vida esta que escolhi.

Mas minha vontade faz-se aqui de ficar
Pois dores cotidianas, isso o tempo cura
O que enfim, jamais altera-se, é a vontade de sonhar
E há amor pela saudade que carrego com ternura."