quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016

Tiraram o tapete da sala...
Morreram as samambaias...
Mudaram a cor das paredes...
Levaram os quadros enormes...
Silenciaram as madrugadas...
Desafinaram um violão...
Esqueceram a essência da casa...
Calaram os dias de festa...
Gritaram com quem mal ouvia...
Desmotivaram quem mal existia...
Alimentaram minha nostalgia...
Ainda serena, até então.

Mudei os encantos de endereço.
Não brinco mais no tapete.
Mal lembro do meu começo.
Já mal escutam as plantas.
Os quadros já mal me olham.
Madrugada me julga, já fria.
Mal lembro da essência daqui.
O burburinho de festa me enoja.
Já não sei proteger quem eu amo.
Hoje sou, em parte, um engano.
Agora, pensem vocês
Que nesses espelhos já fui criança,
Mas hoje é 2016.

sábado, 19 de dezembro de 2015

E se eu disser que isso é um roteiro, esboçado e verdadeiro, envolvendo eu e você?

O que você sente
Quando digo que te amo?
E quando fica assim, incerto,
Esse incansável "querer estar perto"?
O que você pensa
Quando digo que é eterno
E que, mesmo no verão
Posso um dia ser inverno?
E se eu disser que te quero
Como nunca quis ninguém?
E quando eu jurar que menti
Mentindo, pro seu próprio bem?
E se eu te beijar na chuva
O que você vai sentir?
Se na hora nossa música tocar
Você vai me deixar partir?
E se eu te disser que enfim escolhi nosso tema?
E que são todas as canções que eu gosto,
Você vê nisso um problema?
E quando descobrir que eu enfim te escrevi um poema?
O que você vai criticar
Se eu te disser que não vejo defeito?
Que, pra mim, você é perfeito
Que é meu; e não tem mais jeito?
E se eu insistir que você não é jovem
Você vai, assim, me odiar?
Pois, pra mim, jovem sou eu
Com confissões que mal sei declarar.
Que desculpa você vai criar
Se eu tirar sua roupa em janeiro?
Posso esperar o mês inteiro
Pra tentar te convencer.
O que você vai sentir se agora eu confessar
Que você me tira o pouco dom que tenho de escrever?
O que você vai pensar
Se eu disser que já não encontro palavras
E já não encontro o ar
Não sei mais nem respirar
Por não deixar de te querer?
Menino que eu sei que um dia some...
E se eu não esquecer o seu nome?
E não desistir de você?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Silêncio

Hoje eu acordei sem ouvir direito,
Achei que esse seria o problema;
Acordei sem ouvir pra não ouvir como grita o silêncio de sua ausência.
Dói mais que em meus ouvidos sua falta aqui.
Me falta a sua voz acompanhando o violão ou criticando minhas roupas,
Me faltam suas doces críticas,
E sua insistência militante por minha fé,
Que luta por minha alma mesmo quando eu mesma já não luto.
Já não escuto sua teimosia
E é tanto silêncio,
Não porque sua voz não ecoa nas largas paredes desse sobrado,
É silêncio de presença, de energia...
De amor!
E silêncio já não é paz.
Pois o medo de te perder agora grita tão alto que já nem sei como abafar.
Sua forte presença abafa o silêncio do mundo
Volte bem!
E não me negue seu barulho nunca mais.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Vem de novo, amor!...

Cai do penhasco em seu colo aberto. E ali, vento certo não me deixa respirar.
Que honra, que medo, que sonho de azar...
Brinca agora comigo,
Perigo!
Nem morri e já estava abraçada. Nasci de novo, rebatizada.
Me registra ao teu nome com voracidade,
E ai de mim! Outra vez perdendo a identidade...

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A Menina Primavera

A menina do olhar duro e sorriso raro achou linda a definição, mal sabendo, com precisão, que não há beleza em mágoa.
Não há dor na primavera que, quando chegada, não sabe trazer mais do que cabe a ela.
E no início da estação, desprovida de emoção, o olhar se mantém opaco.
E o orvalho de lágrima, aos poucos trazes mais flor, que assim desabrochando, não vê mais dor, de fato.
Ah menina primavera! Que traz saudade em seus ventos... Meus sorrisos, desatentos, só são raros à tua espera.
E te entendo, como entendes o olhar com que te olho, e sendo tua por entrega, não nego a comoção.
Se em meu ser há primavera, há  inverno no coração.


É tempo de ao tempo calar

Eu venho errando em muita coisa. E nem digo "tentando acertar". Venho errando sem tentar, sem propósito, com pesar. 
É o caminho de descoberta, que se abriu pra me acabar.
E ainda já nem sei se quero ou consigo ser diferente, por ora. 
Mas pobre daquele que amo e ainda insiste em me amar...
Calma! Tem tempo, tem tudo; não tem prazo, mas vai passar!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Sou. Você.

Se sou eu; também sou você.
Se sou nós; você, tempo a perder.
Se sou noite; você, dia.
Se sou mar; você, calmaria.
Se sou bruxa; você, inquisição.
Se sou ciência; você, religião.
Se sou ódio; você, perdão.
Se sou amor; você, razão.
Se sou santa; você, protestante.
Se sou protesto; você, comodismo.
Se sou livro; você, estante.
Se sou o instante; você, lirismo.
Se sou o agora; você, nostalgia.
Se sou álcool; você beberia.
Se sou desenho; você, traço.
Se sou traça; você, papelão.
Se sou distância; você, abraço.
Se sou deus; você, pagão!
Se sou fumante; você é o maço,
Se sou Sim. Você, meu Não!

Tantas indigestões

Nascerão quantos poemas
Dessa coisa, ainda pequena,
Que ousam chamar de amor?

Viverá quanta esperança
Dessa incansável dança
Que é não entender a vida?

Retornarão quantos feridos
Desse martírio diário
Que é procurar um abrigo?

Sofrerão quantas mães
Por seus filhos em sarjetas
E embora pague imposto,
Não têm direito a um rosto?

Farei quantas rimas cansativas
Por segundo
Pra realizar o meu desejo
De que um lápis mova o mundo?

E em meio tais questões
Pergunto-me envaidecida:
Até o fim desse poema 
Hei enfim de entender a vida?

Indiferença central

E em mais um bar te chamei
Achando que já te amei
Drogada de carência, meu bem
Que o que te quer em mim, é tédio...
É fato!
Não pense que não te quero também.
Queria mais uma dose;
E companhia aleatória;
De qualquer morador boêmio do reduto;
E em nossas conversas, em parte
Confesso que mal te escuto.

E mal te quero na minha história...
Meu vício em fingir querer, por ora, confunde você, ou vai dizer que não liga?
Que seja, arranje briga!
E bom proveito, rapaz...
Há cada coisa que a gente faz por gente que a gente nem liga!

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Hipnótico

Te vi domingo em meio ao cotidiano barulhento. Pessoas seguiam suas rotinas sem se dar conta que ali, hipnotizada, eu me atirava em uma abismo sem volta, sem paz, sem você. 
Senti que era diferente, que era artista, que era um início. E senti tantas outras coisas que estabilizei-me em meu dom de fingir não sentir nada. Só consegui jogar meu cabelo. "De lado, fique de lado! Merda! Assim me faz parecer qualquer coisa, menos natural!". E nada era natural. Não era natural olhos tão claros, cabelos tão claros, pele tão clara, beleza tão rara. Não era natural sua figura me olhando e mal conseguindo disfarçar. Pensei algumas coisas na esperança de que fossem passageiras. Tolice minha. Pensei em como te olhar sem te olhar. Em como seus olhos ofuscavam as luzes já tão claras do trem. E no seu sorriso magnético, desconcentrando minha difícil tarefa de fingir que estava fácil respirar ali, estando tão perto. Pensei no que falar. Como te impressionar. E se, aquela música que eu ouvia poderia ser, quem sabe, a trilha que nos faria algum sentido. Pensei tanta coisa que o tempo passou rápido. Rápido demais para mim. E já perto da porta de saída pude ver que passara rápido também para você. E percebi quando me olhava, com aquele mesmo olhar de despedida que eu desejava lançar mas não tinha coragem. O olhar de "Ei, estranho, não gosto da idéia de nunca mais te ver".
E desci. Fui embora pensando "Difícil figura masculina com cabelos tão lindos. Mas por que fui reparar tanto nos cabelos? Logo mais eu esqueço dele... Mas dos olhos..."
E não esqueci. Sonhei. A verdade é que reparei em cada parte de você. E acordei desacreditando, sem conseguir desistir de alimentar as últimas lembranças de seu rosto em minha mente. 
Mas algo palpitou em mim. Os mesmos "cinco minutos" que já me fizeram descobrir o que eu não queria. E meu coração não acalmou até eu seguir minhas próprias coordenadas e te encontrar.
Te encontrei e pensei "Que bom! Agora não perco ele de vista!"
E algo em mim dói tanto que não me deixa esquecer:
Só de vista.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

sábado, 26 de setembro de 2015

A bailarina da caixinha de música;

Minha prima/irmã/melhor amiga/inspiração fez quinze anos em maio e o turbilhão de acontecimentos dessa fase corrida me impediu de postar o poema que fiz a ela. A verdade é que segurei essa postagem ao máximo pois eu queria que fosse perfeita. Mas como resumir quinze lindos anos em apenas um poema? Como expressar o amor que sinto pela melhor irmãzinha do mundo com apenas palavras? Tolice!
Fracassei. Não consegui colocar tudo o que eu queria. Mas me consolo ao pensar que nem Drummond conseguiria descrever o quanto és linda Maitêzinha; e o quanto torna a vida menos dura com seu gingado, mais doce com seus olhares, mais simples com seus sorrisos, e mais linda com sua alegria de viver. Momentos ruins, todos temos! Peço apenas que, nos seus, continue apenas dançando. E girando, girando, girando... Até o mundo girar de volta!
Parabéns pelos quinze, minha bailarina da caixinha de música de minha infância!

"Abriu-se enfim a caixinha de música
E hoje já mal reconheço seu som.
Não é mais choro, mágoa, medo ou dor,
E ouço, agora, canção em outro tom.

Nessa fase, que atenta-me o sentir,
Lembro-me então da saída da escola,
Que buscavam-me todos a sorrir,
Nesse dia em que a solidão foi embora 

Lembro-me, na época, algo que mal notei
Que, em uma caixinha, rodava sem parar
Uma bailarina que acompanhei
Ao lado da cama, se pondo a girar

Para sentir-me bem em hospital
Só poderia ser você chegando
E, aos oito, brincando de ser maternal
Havia um bebê; e meus olhos brilhando!

Entre risos e provocações infantis
Encontro, de minhas bonecas, as cabeças.
E foram bons momentos juvenis,
Espero que disso nunca esqueças!

Deixo de bobagem para celebrar, agora
O momento em que sorrir chorando faz parte;
Se a vida era noturna, saiba que chega a aurora
E, envolta em luz, a dança é só segunda arte.

Hoje não és menos que irmã e amiga
E seu dom de dançar desde sempre me fascina
Rodando a brincar com cada rasteira da vida
Num palco ou não, para mim, és a mais bela bailarina!"

Quando o inimigo é amor; amor próprio...

O amor próprio é um monstro que se alimenta de frustrações e coisas não ditas. Eu não nasci pra viver num mundo em que dizer o que sente, sem joguinhos e inseguranças, ainda é tabu.
É simples. Direto. Leve. Complicar é retrocesso!...

Confissão

Ter e ter perdido dói bem mais do que não ter vivido; e você me guia pela trilha mais árdua. Escolhi e escolheria esse caminho que destrói, pois sangrar minh'alma por ti, hoje, é morte que não dói, perto do tédio que já vivi. E vivi anos sem sua imagem em minha mente. Vivi vida coerente, sem impulsos ou loucura. Trilhava um caminho certo, longe de ti, mas tão perto de basear-me em ternura. E eis que surge, tão estranho, amor cruel, sem tamanho, consumindo quem eu era. E evitando o contato, apostei tudo, de fato, somente perto da primavera; que chegava em noite quente que, em mim, fria, em nada refletia a gente. 
E bagunçou meus cabelos como bagunçou meus dias. E é certo que nem se lembra de detalhes de mim, por fim. Mas procuro em cada olhar algo do seu, e hoje só sei viver assim.
Confesso um único desagrado em seu olhar, que é, nele, não me ver refletida. Um único desagrado em sua alma; que é encontrar-se, hoje, fora de minha vida.
E em você, por inteiro, o defeito é não ser metade meu. Minha metade. Pois, de certo, sem você não sei ser mais tão eu.
Já no fim dessa confissão, nem sei se peço perdão pela falta de coragem por não tê-lo insistido. Espero de volta a minha vida que, embora destruída ainda brilha, em parte, só por ter te conhecido...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Fim

O fim pode não ter a ver com idade ou tempo de estada nessa dimensão. Pode não ter a ver com precisar ou querer. Pode vir a ser somente a parte da história em que as pessoas aplaudem ou mantêm-se estáticas, observando as luzes se apagarem e as cortinas se fecharem.
O fim não depende do começo e tem relação intima com o meio, já que se encontram próximos. O fim é a parte mais temida e esperada do trajeto, do momento, da vida! O fim é almejado. Almejado pelos que acreditam racionalmente não existir mais nada além dele, mas que pulsam em seus corações um tantinho de esperança. Almejado pelos que o tratam como um novo começo. E almejado por quem cultiva a vida ainda em andamento.
O fim pode ser um bom companheiro à distância. E pode chegar repentinamente te separando de tudo, até dele mesmo. E quando se tem o fim como melhor amigo e, ainda assim, ele não chega, é que se renovam as melhores histórias.
O fim é um deus de alguma mitologia não identificada sobre a qual não se fala mas se reconhece a existência. Ele controla, machuca, abraça, demora e vem. Um dia vem e nos pega no colo.
O fim te arranca as palavras de uma maneira voraz e te deixa na sarjeta com suas três letras que, juntas, soam agudas o suficiente para machucar os ouvidos... O fim te arranca a plenitude e a alma. Aliás, todas as almas pertencem a ele, seja lá o que "ele" for.
O fim dói e ainda assim consegue ser melhor do que muitas partes. O fim não chega; e nem ao menos conseguimos definir se queremos vê-lo em breve. O fim não vai, porque sem ele não há todo o resto.
O fim não tem a ver com querer, realmente!... E o querer nem sabe se quer.
O fim é um ponto cruel na história de nossas esperanças. O fim não tem cor, mas é denso; e seu peso pode ser reconfortante.
O fim grita o nome de tudo em cada uma de suas letras tortas, ouve quem quer! Ouve quem já se aproximou dele o bastante para reconhece-lo sem vê-lo, mas ainda teve a oportunidade de correr de volta pros braços do começo.
Ao fim não há definição... E há definição que não tem fim!
Por isso e mais, em meus dias, peço ao fim que não se esqueças de mim.

O Tecido

Me disseram uma vez que a dor ensina e o tempo cura. E segui acreditando nisso com tanta fé que desenvolvi certo tipo de vício em minha própria nostalgia. E cheguei a pensar que "quando essa fase passasse..."; mas não passou. Nunca passou. A tempestade segue tão determinada e contínua que chego a fantasiar que sou protagonista de um pesadelo de fundo emocional psicodélico. 
Já viram aquele tecidos rústicos remendados, que em teoria são agressivamente lindos e coloridos mas a verdade é que não passam de sobras de tantos outros que um dia foram perfeitos e intactos? Pois bem, no mundo dos tecidos essa seria eu. Cada remendo representa algo. Alguns são bem feios, mas ali no meio podem ser ignorados facilmente pelos outros que, gritantes, demonstram até, por que não dizer, certa beleza?!
E a cada novo remendo pensamos: "Ok, está tudo bem! Ninguém vai notar...". E a cada olhar atento e detalhista oramos por dentro "Não, não faça isso. Olhe o todo! Veja de longe!!!".
E essas peças, por serem mais agressivamente rústicas aparentam serem mais fortes do que um simples corte de seda. A verdade, meus amigos, é que seda rasga-se facilmente; mas um pano remendado não fica muito atrás...
Tenho costuras em cada parte de mim que, num belo conjunto, parecem já estarem adaptadas, mas seguem apenas alinhavadas, prontas para romper. E nas poucas áreas que mantêm-se um tecido leve e natural segue a cruel agulha costurando, perfurando, sangrando e destruindo qualquer beleza ingênua que possa ainda ser o destaque de um belo vestido de baile.
Se quiserem que lhes cubram, o tecido ainda serve e parece bom. Podem analisar, tocar, puxar e verão que a obra talvez nem seja tão feia quanto aparenta aos olhares atentos, mas o conselho que lhes dou é que procurem outra peça, porque essa está prestes a romper.
E é certo que, de dolorosas histórias, se criam bons livros; mas não boas lembranças...
Muito menos bons tecidos!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Motivo notívago

Que eu nunca dormi mais de 3h é certo;
Mas te juro que agora o motivo é você.
Não descredibilize essa insônia dedicada
Pois isso, por agora, é o que tenho a oferecer.
E quando desistires de mim, confesso
Sem culpa, medo ou dor, desisto também de te ver.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Que tempo mais vagabundo...

Me pergunto se quando Cazuza escreveu o trecho "que tempo mais vagabundo esse agora que escolheram pra gente viver" ele imaginava que algo próximo do que aconteceu com a Maju, do JN, poderia ser apenas mais um caso dentre tantos outros de discriminação que vemos semanalmente revoltarem as pessoas que ainda se importam com  a justiça. Se ele imaginava que a frase "nem quis comer a sua mãe" de Só As Mães São Felizes receberia uma censura 12 anos perto do discurso de ódio dos aproveitadores de plantão, que divulgam vídeo de famoso morto e "defendem a boa música" em hora inoportuna, nessa era em que um ser humano vale menos que uma opinião. E se ele soubesse que "te chamarem de ladrão, de bicha, maconheiro" hoje é elogio perto do que têm feito aos homossexuais num contexto em que todo mundo é Deus e decide o que fazer por Ele?!
A verdade é que essa guerra psicológica só se agrava conforme a sociedade se afunda nesse poço de individualismo no qual estamos. Surpreende e machuca a alma pensar que ainda temos que lutar por coisas ridiculamente básicas e obrigatórias; como o direito de amar fora de um padrão imposto. 
Falta respeito, falta silêncio e reflexão, falta tanta coisa boa e sobra tanta coisa ruim que a gente se põe a discutir toda e qualquer questão a fim de melhorar, mas não ouvimos uns aos outros.
É irônico que nossa luta pela paz se torne cada vez mais violenta.
Podem estranhar que nesse turbilhão de polêmicas algumas vezes eu me mantenha quieta; a verdade é que não existem palavras para descrever a dor que me causa ver que um mundo repleto de atos e sentimentos sublimes (que ainda resistem!) esteja prestes a ser descartado por culpa da intolerância; e como sobra opinião, sinto-me acuada, tentando me adequar à posição de ouvinte... E me disponho a essa tarefa de tentar entender, apenas entender, o porquê da felicidade hoje estar tão desvinculada da humildade.
Falta compreensão, falta paz, falta coletividade, falta amor, falta ARTE.
Arte! Nosso último recurso e tentativa de sensibilizar os olhares sanguinários que pedem guerra aos que só exigem seus direitos. E pergunto-me se meus colegas artistas também encaram nosso esforço com a seriedade necessária a fim de resgatar o restinho de amor puro que a humanidade precisa.
Falta paz em mim, reflexo do medo. Só não falta esperança! Já fragilizada... Mas essa preciosidade ainda guardo por aqui.
No mais, que tempo mais vagabundo esse agora que escolheram pra gente viver!!!!!!!

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Meu inferno de bom grado

Pelo visto não ouviste meu pedido
Para que venhas estragar minha vida,
Chegando em silêncio, descomprometido
Trazendo paixão, vicia-me em recaída!

Enviei-lhe por telepatia 
Obsessiva, diariamente lembrei
Do seu rosto, que anestesia,
Que, a mim, és a droga que almejei

Deves estar pensando em alguém
Que não tenha visto apenas de passagem
Questiono nas vezes que volto pro trem
Se seus olhos teriam sido miragem

Independente, assim chegue de mansinho
Tenho amor tranquilo, leal e profundo
Que jogaria ao vento sem dó nem carinho;
Se vieres agora bagunçar o meu mundo!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A linda fórmula da inconveniência

Para ser feliz, conforme-se.
Para ser artista, inconforme-se.
Para ser feliz, mantenha sorriso.
Para ser artista, retire sorriso.
Para ser feliz, esqueça.
Para ser artista, adoeça.
Para ser feliz, persista.
Para ser artista, mal exista.
Para ser feliz, ame.
Para ser artista, seja amor.
Para ser feliz, seja artista.
Para ser artista, seja dor.


sábado, 25 de abril de 2015

Exaustão

Viciei na exaustão.
E perdi meus olhos pras palavras
Minha pele pro toque
Meus cabelos pro vento
E minha boca para a expressão.

Viciei na exaustão.
Perdi meus pés num jogo de corda
Meus dias pros meus sonhos
Meus ouvidos pra música 
E meus traços pra coordenação 

Viciei na exaustão.
Perdi meus joelhos num circo 
Meus amigos pro trabalho
Meu trabalho para a arte
E minha lógica pra emoção.

Perdi meu tempo em devoção 
Perdi minha alma pro amor
Minha força pra qualquer dor
Perdi-me em tanta alegria
Viciei na exaustão.
E pro mundo perdi-me então.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A velha estação

O chamado do trem noturno
Longe do centro, na ponta da cidade
Traz passado, deixa saudade
E faz sempre o mesmo som.
Não há quem negue sua história
Cuja estação, em tempos de glória
Fazia música de um só tom.

De lá chegava a italiana calada
De um boêmio poeta acompanhada
Em busca de um velho colégio convento
E as quatro crianças, de olhar atento
Acompanhavam a mudança na madrugada
E assim nem viam passar o tempo.

Tempo que trouxe os anos dourados
Onde a estação, reduto de namorados
Cheirava a respeito e a brilhantina 
E a grande dama, que tem me criado
Relata viagens de trem, e além!
Desde seus tempos de menina

A estação que a mandava aos avós mineiros
Possui ainda relatos inteiros
De viagens que sinto, sem ao menos ter ido
E ponte para a Sampa, tão modificada
Pro Rio, e para a Três Corações amada
Hoje encontra-se triste e abandonada.

E assim naquela mesma rua
Hoje há tanto concreto que cobre a lua
E que gabam-se por sua construção
Perdoem-me engenheiros renomados
Embora ergam seus prédios planejados
Nada jamais ganhará da estação!

sexta-feira, 20 de março de 2015

Pena de amar-te

Aqui com o desprezo, cruel penitência,
Mesmo mal sabendo de minha existência
Saiba que já te julgo culpado;
Até sei teu tom de voz
Seus trejeitos, olhares, defeitos
E se penso em ti, já penso em nós.
Decorei teu jeito dedicado
Devorei de jeito apaixonado
Sua imagem em mim, causando demência.
Desculpe-me estranho, a obsessão
Paixão saudável, que dure, ou não
Viciada estou nessa inconveniência.
Minha pena, que pena, é viver normalmente
Normal, sem você, sem nós, sem a gente
E com esse vazio, sem ti, e profundo;
Estivesse enquadrada em patologia
E, antes, teu crime, não fosse apatia
Cumpriria a pena mais feliz do mundo!

Introspectivo mundo

Fosse esse mundinho real
Não me seria fraternal
Um poema incapaz
De afagar-me as loucuras
Tão sinceras, insanas, puras
Que tanto sentido me faz!

Crio mundos pra não visitar
Poemas para ninguém ler
Histórias pra ninguém gostar
Personagens pra ninguém lembrar
Lembranças pra ninguém querer
Dias pra ninguém passar
Datas sem comemorar
Vínculos pra não esquecer.

E sigo assim venerando
Saudades que não são minhas
Vontades que morrem sozinhas
Ídolos que não existem
Sentimentos que mal persistem
Vozes que mudas acabam
E mãos que nunca me afagam.

E nessas letras tão tortas
Corro olhando para trás
Bato, com força, as portas
Piso em toda paz...
Seguindo o som do vento
Olho pro tempo, em tempo
De ver a falta que o tempo faz.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A luta dança

Quando a canção tocou eu soube que era a hora
E na noite, em silêncio, os olhos tão assustados
Observavam-nos, aflitos, por tocarmos-nos agora

Seu constrangimento bruto em não saber o que fazer
Me fizeram conduzir tantas coisas em nós dois
E fizesse o que fizesse bastava, a mim, ser você

Em suas amargas batalhas, sempre soube controlar
Mas se envolve algo em mim, parece estar desajeitado
Em seu mundo, em que é mais fácil ferir do que dançar
Assume o dom da culpa mesmo não sendo o culpado

E na insistência sutil que te fez estremecer
Vi seu olhar insistindo por um estranho certo cuidado
E com as mãos sobrepostas confirmei ao  amanhecer
'Sendo assim tão diferentes, não poderia dar errado'!

E escrevi com meus olhos em seu corpo o que queria
Entre tantos outros riscos e adereços de metal
Não me importa sua história, mágoa, dor ou apatia
Cada risco em ambigüidade nos traça de maneira igual

Não sentes que é criança em falsas roupas de soldado?
Ou que a ternura em meus olhos, só reflete ao seu olhar?
Sabes, garoto, acho que fostes bem contemplado
Com esse seu dom de ser amor e fingir não saber amar.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Força bruta

Na sua voz de rancor ouço, no tom, o som do apreço.
Não sabes ao menos ficar, e já é em ti meu endereço.
Perde a força ao me encarar,
É tão claro em sua apatia...
Brincando de não me olhar
Agindo como eu jamais agiria.
Seus traços em rosto e resto escrevem parte de mim
E sinto que não tem fim
Seu jeito incoerente,
Só verdade sei ver em cada gesto que mente.
Se achas que enervo por medo,
É claro que nega em segredo
Seu ponto-fraco, assim.
Já derrotei por inteiro,
Sem força, você, guerreiro
Agraciado por mim.
Não há luta a vencer
E com o exército rumo à casa.
Sua guerra está no fim.
É contra os planos estarmos a sós,
Não sei se entendo a causa
Mas em seu olhos, que clamam por nós
Sinto que não há lei
Que torne, um dia, impossível 
Dizer ao mundo que te amei.
Estavas a dizer a alguém
Que em sua alma ainda há coerência,
E embora apegue-se à violência
Sei que, a mim, só faz bem!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

É o apito do trem!

Ouve? É o apito do trem!
E o antigo barulho da roda
Sente como vai e como vem
Pensa agora em algo que convém
E lembra como se agisse à antiga moda

Sente? É o apito do trem!
E tem carga chegando aqui por perto
Tem gente lembrando, e lembrando bem!
E lá dentro de mim me perguntam "Quem?"
"Quem poderia sentir que lembrar não é certo?"

Viu? É o apito do trem!
Que despejou a carga toda assim
Em cacos cortantes vejo um reflexo além
De uma infância de saudade que dor não tem
Mas cada parte dessa carga perfura em mim

Vai! Vai, meu apito do trem!
E leva nos trilhos o que me recordo de bom 
Leva um pouco de mim, para o meu bem
Pro que me deixares lhe digo "amém!"
E agradeço a viagem que fiz pelo som.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Pressa e prece

Rogo por um mundo que me encante
Por um dia que me levante
Por uma noite que me acorde
Por uma alma que me sinta
Por um amor que não minta
Por um estranho que me adore
Por um homem que me rapte
E por algum outro que chore

Rogo por uma dor que me ensine
Por uma inveja que me aproxime
Por uma criança que me admire
Por uma música que me toque
Por baladas mais blues, menos rock
Por um pai que me procure
Por uma bebida que dure
E por pontos na média do ibope

Rogo por mais dias nos anos
Por mais fatos, menos planos
Por amar ou perder sem enganos
Por tudo mais que me interesse;
Rogo por minhas andanças
Por janelas sem lembranças
Por tudo isso, que me cansa
Rogo por não rogar em prece.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O tom da fome

Pintou cada estrela de um tom
Depois comeu-as, uma a uma
Do mar agitado, comeu o som
Comeu a areia, comeu o sol
Comeu a lua.
Comeu o arco, também o íris
Comeu as nuvens, comeu o céu
Comeu as flores, e fez-me dor
Mastigou o resto do que havia
Impiedoso, chamei-lhe amor
E o sentir-lhe, chamei de azia.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O marujo


Meu coração ancorou e eu nem vi se era tu que vinhas do mar
Se fosses marujo ou sereia seria de um jeito a me conquistar

Meu coração ancorou num navio de pesca que eu nem vi chegar
Seus braços puxando a rede sentiram que eu é que estava lá

Meu coração ancorou e eu nem vi que a lua espelhava no mar
O som da água em cascata me foi serenata para o seu olhar

Meu coração ancorou e eu nem sei se a vela estava a soprar
E fui caminhando contigo arranjando abrigo no seu caminhar

Meu coração ancorou e eu vi no horizonte um barco deixar
Tanta lua, reflexo e saudade de um dia de história que mal vi passar.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Cais

Em seus olhos, que carregam o mar, já não cabe a mim. Talvez porque carregue em mim você, mil vezes. 
E a indiferença que seca minha'lma é a que alimenta seus sonhos navegantes.
Soubesse você amar assim, talvez ancorasse seu mundo em meu cais.
E em seus olhos restaria a mim, seus sonhos e nada mais.
Ou apenas o tal mar de antes...