segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Tecido

Me disseram uma vez que a dor ensina e o tempo cura. E segui acreditando nisso com tanta fé que desenvolvi certo tipo de vício em minha própria nostalgia. E cheguei a pensar que "quando essa fase passasse..."; mas não passou. Nunca passou. A tempestade segue tão determinada e contínua que chego a fantasiar que sou protagonista de um pesadelo de fundo emocional psicodélico. 
Já viram aquele tecidos rústicos remendados, que em teoria são agressivamente lindos e coloridos mas a verdade é que não passam de sobras de tantos outros que um dia foram perfeitos e intactos? Pois bem, no mundo dos tecidos essa seria eu. Cada remendo representa algo. Alguns são bem feios, mas ali no meio podem ser ignorados facilmente pelos outros que, gritantes, demonstram até, por que não dizer, certa beleza?!
E a cada novo remendo pensamos: "Ok, está tudo bem! Ninguém vai notar...". E a cada olhar atento e detalhista oramos por dentro "Não, não faça isso. Olhe o todo! Veja de longe!!!".
E essas peças, por serem mais agressivamente rústicas aparentam serem mais fortes do que um simples corte de seda. A verdade, meus amigos, é que seda rasga-se facilmente; mas um pano remendado não fica muito atrás...
Tenho costuras em cada parte de mim que, num belo conjunto, parecem já estarem adaptadas, mas seguem apenas alinhavadas, prontas para romper. E nas poucas áreas que mantêm-se um tecido leve e natural segue a cruel agulha costurando, perfurando, sangrando e destruindo qualquer beleza ingênua que possa ainda ser o destaque de um belo vestido de baile.
Se quiserem que lhes cubram, o tecido ainda serve e parece bom. Podem analisar, tocar, puxar e verão que a obra talvez nem seja tão feia quanto aparenta aos olhares atentos, mas o conselho que lhes dou é que procurem outra peça, porque essa está prestes a romper.
E é certo que, de dolorosas histórias, se criam bons livros; mas não boas lembranças...
Muito menos bons tecidos!