sábado, 28 de fevereiro de 2015

Força bruta

Na sua voz de rancor ouço, no tom, o som do apreço.
Não sabes ao menos ficar, e já é em ti meu endereço.
Perde a força ao me encarar,
É tão claro em sua apatia...
Brincando de não me olhar
Agindo como eu jamais agiria.
Seus traços em rosto e resto escrevem parte de mim
E sinto que não tem fim
Seu jeito incoerente,
Só verdade sei ver em cada gesto que mente.
Se achas que enervo por medo,
É claro que nega em segredo
Seu ponto-fraco, assim.
Já derrotei por inteiro,
Sem força, você, guerreiro
Agraciado por mim.
Não há luta a vencer
E com o exército rumo à casa.
Sua guerra está no fim.
É contra os planos estarmos a sós,
Não sei se entendo a causa
Mas em seu olhos, que clamam por nós
Sinto que não há lei
Que torne, um dia, impossível 
Dizer ao mundo que te amei.
Estavas a dizer a alguém
Que em sua alma ainda há coerência,
E embora apegue-se à violência
Sei que, a mim, só faz bem!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

É o apito do trem!

Ouve? É o apito do trem!
E o antigo barulho da roda
Sente como vai e como vem
Pensa agora em algo que convém
E lembra como se agisse à antiga moda

Sente? É o apito do trem!
E tem carga chegando aqui por perto
Tem gente lembrando, e lembrando bem!
E lá dentro de mim me perguntam "Quem?"
"Quem poderia sentir que lembrar não é certo?"

Viu? É o apito do trem!
Que despejou a carga toda assim
Em cacos cortantes vejo um reflexo além
De uma infância de saudade que dor não tem
Mas cada parte dessa carga perfura em mim

Vai! Vai, meu apito do trem!
E leva nos trilhos o que me recordo de bom 
Leva um pouco de mim, para o meu bem
Pro que me deixares lhe digo "amém!"
E agradeço a viagem que fiz pelo som.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Pressa e prece

Rogo por um mundo que me encante
Por um dia que me levante
Por uma noite que me acorde
Por uma alma que me sinta
Por um amor que não minta
Por um estranho que me adore
Por um homem que me rapte
E por algum outro que chore

Rogo por uma dor que me ensine
Por uma inveja que me aproxime
Por uma criança que me admire
Por uma música que me toque
Por baladas mais blues, menos rock
Por um pai que me procure
Por uma bebida que dure
E por pontos na média do ibope

Rogo por mais dias nos anos
Por mais fatos, menos planos
Por amar ou perder sem enganos
Por tudo mais que me interesse;
Rogo por minhas andanças
Por janelas sem lembranças
Por tudo isso, que me cansa
Rogo por não rogar em prece.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O tom da fome

Pintou cada estrela de um tom
Depois comeu-as, uma a uma
Do mar agitado, comeu o som
Comeu a areia, comeu o sol
Comeu a lua.
Comeu o arco, também o íris
Comeu as nuvens, comeu o céu
Comeu as flores, e fez-me dor
Mastigou o resto do que havia
Impiedoso, chamei-lhe amor
E o sentir-lhe, chamei de azia.