segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Fim

O fim pode não ter a ver com idade ou tempo de estada nessa dimensão. Pode não ter a ver com precisar ou querer. Pode vir a ser somente a parte da história em que as pessoas aplaudem ou mantêm-se estáticas, observando as luzes se apagarem e as cortinas se fecharem.
O fim não depende do começo e tem relação intima com o meio, já que se encontram próximos. O fim é a parte mais temida e esperada do trajeto, do momento, da vida! O fim é almejado. Almejado pelos que acreditam racionalmente não existir mais nada além dele, mas que pulsam em seus corações um tantinho de esperança. Almejado pelos que o tratam como um novo começo. E almejado por quem cultiva a vida ainda em andamento.
O fim pode ser um bom companheiro à distância. E pode chegar repentinamente te separando de tudo, até dele mesmo. E quando se tem o fim como melhor amigo e, ainda assim, ele não chega, é que se renovam as melhores histórias.
O fim é um deus de alguma mitologia não identificada sobre a qual não se fala mas se reconhece a existência. Ele controla, machuca, abraça, demora e vem. Um dia vem e nos pega no colo.
O fim te arranca as palavras de uma maneira voraz e te deixa na sarjeta com suas três letras que, juntas, soam agudas o suficiente para machucar os ouvidos... O fim te arranca a plenitude e a alma. Aliás, todas as almas pertencem a ele, seja lá o que "ele" for.
O fim dói e ainda assim consegue ser melhor do que muitas partes. O fim não chega; e nem ao menos conseguimos definir se queremos vê-lo em breve. O fim não vai, porque sem ele não há todo o resto.
O fim não tem a ver com querer, realmente!... E o querer nem sabe se quer.
O fim é um ponto cruel na história de nossas esperanças. O fim não tem cor, mas é denso; e seu peso pode ser reconfortante.
O fim grita o nome de tudo em cada uma de suas letras tortas, ouve quem quer! Ouve quem já se aproximou dele o bastante para reconhece-lo sem vê-lo, mas ainda teve a oportunidade de correr de volta pros braços do começo.
Ao fim não há definição... E há definição que não tem fim!
Por isso e mais, em meus dias, peço ao fim que não se esqueças de mim.

O Tecido

Me disseram uma vez que a dor ensina e o tempo cura. E segui acreditando nisso com tanta fé que desenvolvi certo tipo de vício em minha própria nostalgia. E cheguei a pensar que "quando essa fase passasse..."; mas não passou. Nunca passou. A tempestade segue tão determinada e contínua que chego a fantasiar que sou protagonista de um pesadelo de fundo emocional psicodélico. 
Já viram aquele tecidos rústicos remendados, que em teoria são agressivamente lindos e coloridos mas a verdade é que não passam de sobras de tantos outros que um dia foram perfeitos e intactos? Pois bem, no mundo dos tecidos essa seria eu. Cada remendo representa algo. Alguns são bem feios, mas ali no meio podem ser ignorados facilmente pelos outros que, gritantes, demonstram até, por que não dizer, certa beleza?!
E a cada novo remendo pensamos: "Ok, está tudo bem! Ninguém vai notar...". E a cada olhar atento e detalhista oramos por dentro "Não, não faça isso. Olhe o todo! Veja de longe!!!".
E essas peças, por serem mais agressivamente rústicas aparentam serem mais fortes do que um simples corte de seda. A verdade, meus amigos, é que seda rasga-se facilmente; mas um pano remendado não fica muito atrás...
Tenho costuras em cada parte de mim que, num belo conjunto, parecem já estarem adaptadas, mas seguem apenas alinhavadas, prontas para romper. E nas poucas áreas que mantêm-se um tecido leve e natural segue a cruel agulha costurando, perfurando, sangrando e destruindo qualquer beleza ingênua que possa ainda ser o destaque de um belo vestido de baile.
Se quiserem que lhes cubram, o tecido ainda serve e parece bom. Podem analisar, tocar, puxar e verão que a obra talvez nem seja tão feia quanto aparenta aos olhares atentos, mas o conselho que lhes dou é que procurem outra peça, porque essa está prestes a romper.
E é certo que, de dolorosas histórias, se criam bons livros; mas não boas lembranças...
Muito menos bons tecidos!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Motivo notívago

Que eu nunca dormi mais de 3h é certo;
Mas te juro que agora o motivo é você.
Não descredibilize essa insônia dedicada
Pois isso, por agora, é o que tenho a oferecer.
E quando desistires de mim, confesso
Sem culpa, medo ou dor, desisto também de te ver.