segunda-feira, 10 de julho de 2017

No baile da saudade...

Ela, generosa, vai embora aos poucos.
Deixa tudo em ordem, faz suas últimas considerações, pede de volta meia dúzia de palavras de conforto e vai.
Vai bailando valsa triste, com a elegância que é marca registrada. 
Sem que alguns notem, retira-se da competição. Com passos discretos, ombros encaixados, olhar correto e sorriso estonteante.
Dessa vez ela não foi ao "toilette".
Meu lado criança ainda quer procurá-la nos banheiros dos bailes em que a acompanhava. Naqueles tempos, não haviam crianças em bailes. Mas, para ela, eu era artigo mais importante do que a orquestra. 
E a seguia sempre. Brincava no terraço e observava a fluência bonita dos pares.
Cresci na barra de sua saia. E permaneci "na barra de sua saia", até nossa despedida terrena. E por algum motivo sinto que, naquela despedida, conservei o olhar de menina insegura e admirada. E ao te olhar ali, parada e plena, senti que foi minha última olhada do canto do salão. Ultima dança do baile. Ultima canção. 
Agora segue o salão deselegante com os passos desajeitados que sobram. Passos desgovernados que lutam para entender a melodia.
"Quando chegar na eternidade me procure na rodinha do Frank Sinatra, Ray Charles..." ela dizia.
E ensinou, fragmentado, a seus admiradores, como dar um típico baile dos bons tempos.
A gente tenta, mas não consegue. 
Ninguém consegue musicar os ruídos da vida como ela. Ninguém sabe dançar sem tropeçar na saudade. 
Mas ela driblou, enfrentou e dançou.
Com tudo organizado, por mais que falte graça, ela se retira.
E enquanto seu parceiro não se cansar desse baile triste, ela certamente o espera treinando.
Astaire, seu ídolo, que a acompanhe. Porque num salão enfeitado é ela, altiva e alva, quem mais brilha. 
Por aqui o trabalho foi finalizado. 
Nos deixou festejando. Sempre linda e sensata, ganhando o concurso de dança dessa dimensão. O prêmio é paz. 
Fica em paz, eterna dama mais linda do salão...