sábado, 10 de outubro de 2009

fases

A felicidade é relativa; sempre relativa. O que me faz feliz pode ser pouco para você e vice-versa. O fato é que hoje estou feliz, e decidi escrever.
Para quem não sabe (acho que contei somente para alguns amigos, minha mãe está passando por um tratamento em uma clínica a exatamente 2 meses e 26 dias (sim, eu estou contando dia após dia o tempo em que ela está lá). No começo deste ano ela estava muito mal e foi piorando gradativamente. Sua doença emocional, a bipolaridade, acabou desencadeando uma série de outros distúrbios, entre eles a anorexia, o que resultou em uma internação involuntária às pressas.
Tenho encarado esse tempo em que ela está longe como um 'cartão de entrada' para uma nova vida, uma chance, uma oportunidade única de estabilizar seu humor e voltar a ser a mulher guerreira e linda que todos admiram.
Hoje é sua primeira 'ressocialização'. Ela foi liberada pela clínica para passar 3 dias em casa, na companhia dos familiares, como forma de incentivo ao tratamento.
Meu padrasto a buscou de manhã, chegaram logo após o almoço, e logo em seguida chegaram meus tios, tias e minha priminha.
Exatamente nesse momento estou escutando as vozes e risadas vindas da cozinha, e se querem saber (ou não)... percebi que são mais que apenas momentos em família, são a representação do meu passado, é meu feliz presente, e quem sabe até mesmo parte do meu futuro? São momentos únicos, marcantes, que me levam a refletir... E se um dia tudo isso acabar? Por que passamos por tantas tempestades para retornarmos ao ponto inicial? Quem decide quando esses momentos estarão presentes?
Mas nunca passam de momentos de reflexão.
A verdade é que jamais teremos essas respostas, jamais saberemos quando esses dias chegarão.
Só quero estar sempre consciente de que esses momentos são únicos, e aproveitar ao máximo cada segundo perto de minha família, de meus amigos, e de mim mesma; afinal, passamos por fases difíceis, fases alegres, e nunca somos compleamente felizes, o que nos torna cada vez mais fortes e compreensivos.
Acreditem... Se minha família ainda consegue ter momentos de alegria, é porque nunca perdemos as esperanças, e qualquer um pode conseguir ser feliz, basta desejar isso com muita fé! Tenham um óotimo sábado, e saibam que, quando me refiro aos amigos, isso inclui todos vocês, os amigos virtuais!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bem tarde

No canto da sala de janelas pequenas e brancas estava sentada uma pequena criaturinha com seu livro de capa azul sobre os biomas brasileiros. Chovia desde as três da tarde e já estava anoitecendo. Os ponteiros do relógio arrastavam-se e o telefone no final do corredor tocava de minuto em minuto. O colégio estadual primário estava vazio, embora todas as luzes ainda estivessem acesas. A menininha, que mexia incansavelmente no canto de suas unhas do polegar, não se importava com o fato de estar sozinha, e nem ao menos levantava os olhos quando ouvia os raros passos largos que ecoavam no corredor de piso frio.
Passaram-se duas horas e a pequena ainda estava lá, sentada no cantinho da sala, em um banquinho de madeira todo colorido. Estava tensa e imóvel. Não era uma quinta-feira qualquer, era o dia em que completaria oito anos, e milhões de sonhos passavam na sua mente de criança.
Ouviu através da janela um barulho de motor, e sentiu uma luz muito forte do farol de um carro atravessar os vidros quebrados da janela da sala da frente; mas não se moveu. Parou de mexer nas unhas por alguns instantes e cruzou os dedos. Minutos depois, ao perceber que tudo estava como antes, deu um suspiro profundo e fechou os olhos por alguns instantes. Encostada no canto da parede, adormeceu.
Já era tarde quando uma simpática senhora ruiva veio chamá-la. A pequena abriu lentamente os olhos ao som dos portões de ferro do colégio sendo fechados. A mulher colocou-a de pé, ajeitou o vestido da menina enquanto dizia algo como: "Vamos meu bem, vou levá-la até sua casa." A criança, esfregando os olhos claros de cílios longos explicou:
- Me desculpe professora, mas não posso ir agora, meu pai me pediu que eu o esperasse aqui!
Deixando os livros de lado, a senhora ruiva ajoelhou-se, pegou as mãos da menininha e insistiu: "Eu vou levá-la pois seu pai me pediu agora mesmo pelo telefone. Ele teve um imprevisto e não poderá buscá-la!"
A pequena olhou mais uma vez para seus dedinhos pequenos e brancos, passou as mãozinhas no cabelo, pegou seu livro de capa azul e acompanhou a professora de volta para casa enquanto lembrava-se da figura sempre ausente a quem chamava de 'pai'. Anos depois, quando o mesmo fosse beijar sua testa ao parabenizá-la por alguma conquista, poderia até mesmo sorrir em retribuição, mas jamais se esqueceria das marcas de sua infância.