Inércia
Uma inércia horrível, que não transborda e afaga nem na poesia. Esse é o domingo — e todo o resto dos dias. Lembro do medo, de quando eu era menina, de chegar onde eu estou agora. Minha avó fechava os olhos quando eu contava o medo da vida. Dizia que, menina jovem, tinha que reluzir, não cuidar do tempo. Mas eu me arrastava nos cantos da casa com medo da solidão. Da saudade. Da perda. Eu tive a sorte de me darem coisas demais para perder. É irônico pensar que a gente só perde porque um dia teve. Mas quando tinha, a gente talvez nem tenha visto, por medo do dia de perder. Tudo muito confuso. E pode ser — outra vez — só fase que vai passar. Mas volta e meia a gente descobre que a vida é isso. Espasmos alegres entre os dias tristes. Talvez seja mais um domingo de luto que a poesia ainda vai afagar [não hoje]. Mas, por ora, eu nunca sei — se é só essa dor ou se é a vida mesmo. [Inércia - 26 de abril de 2026.]