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Goteira antiga

Uma goteira no assoalho que derramava o céu. Nascia como o orvalho, fazendo da vida um véu de saudade, que cobria a memória mais linda do mundo. A casa úmida amanhecia alegre a cada segundo. E a goteira pingava no meu quarto das manhãs, enquanto a chuva chorava sob as gotas tecelãs. Na casa antiga, a madeira estalava molhada. E eu, a infância inteira, dormia atravessada; como se chora o mundo, como se esvai a história, como se escorre o segundo quando se acaba a memória. Eu queria estar no tempo em que, entre telhas, chovia. Mas hoje é outro momento: da chuva amanhece o dia. Hoje a água lava a saudade, mas não goteja a partida da casa sem tempestade onde escorreu minha vida. [9 de março de 2026]. 

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