A noite
Quando a madrugada não dorme, a saudade entra devagar pela fresta da janela na noite fria. Arrasta os pés frios pelos cantos do quarto e, sem que eu me dê conta, me dá um beijo pálido no canto da testa, dizendo "Dorme. Dorme, que eu não vou te deixar só."
E a noite passa num silêncio arrastado, dolorido e longe. Num choro de chuva sem chuva. Num ar fresco bonito sem ar.
Nas noites da minha infância, quando a saudade era pouca, o beijo pálido na testa era o de minha avó. Mas antes, ela me colocava sentada na beira da janela pra gente orar.
Olhar pra noite calma de vento fresco foi a maneira bonita com a qual ela me ensinou a rezar.
A gente falava ali entre as cortinas sobre as dores do mundo. E ela me explicava que, um dia, eu ia doer também. Eu via o vento passar lá pra longe, rumo à rodovia, balançando as folhas das árvores, e pensava: "Tudo parece tão frio, mas ainda está tudo bem".
Eu fui uma criança estranha, que não queria crescer porque já sabia coisas demais do mundo. E quando a gente cresce a gente tem que abrir o olhar. Se do pouco da nossa janela a oração já não dava conta, meu medo era o mundo ser triste demais para mim.
Talvez nem seja esse tormento todo. Só silêncio e vento da noite que, agora, não tem mais cheiro das plantas do jardim de minha avó.
Quando chegava perto da hora de fechar a janela, depois da angústia, depois da reza, depois do vazio, eu ainda me sentia aninhada. Uma criança grande demais pra dormir ainda no colo dos meus avós. E pequena demais para perdê-los.
Eu sempre vou ser pequena demais para tê-los perdido, mas isso é segredo nosso, coisa que só eles saberiam entender. Hoje, quando as minhas mãos grandes fecham a fresta da janela com medo da saudade voltar, eu sinto o beijo na testa. É o beijo da noite antiga dizendo: "Dorme. Dorme, que eu não vou te deixar só."
(Janeiro de 2026.)