Assim eram as manhãs
Assim as manhãs eram: minha avó fazendo o almoço devagar ao som de Simonal. A panela de pressão cantando junto. O sol invadindo pelas frestas das portas imensas, como a felicidade. Meu avô chegando do mercado com uma sacola grande e amarela. Às vezes eu ia com ele, parando de banca em banca, mostrando: "É minha netinha, pergunta a ela que time ela torce!". O mercado municipal de Taubaté foi o lugar onde eu vi mais sorrisos concentrados por metro quadrado na minha vida.
Quando eu ia com meu avô, às vezes, ele comprava peixe. Em casa, minha avó seguia no samba, enquanto eu brincava com os peixes na bacia. Ela me deixava brincar com os peixes na água e gelo até a hora de cozinhar. Depois, meus amigos eram fritos. Eu ficava triste. Mas, de alguma forma, minha avó me explicava as coisas de um jeito mais simples. Um jeito que eu não consigo entender desde que ela e meu avô se foram.
Meu avô tinha um radinho de pilha que eu encontrei enquanto arrumava as coisas dele, agora de luto. Neste, não tocava Simonal. Transmitia o jogo numa narração ruidosa enquanto ele fazia a barba no banheiro, no fim da tarde. Naquela época ele escutava bem. Eu amava o cheiro da espuma de barbear e a pele lisinha do rosto dele. Eu sempre pedia para colocar minhas mãos pequenas no rosto dele pra ver se a pele agora estava macia, e sempre estava.
Minha avó ouvia música a manhã inteira. Meu avô sorria a manhã inteira. Eram manhãs muito alegres, com comida boa, bolinhos de arroz, frituras, empanados, samba e muitas certezas. Entre elas, a mais forte: de que nasci num lar feliz. Assim eram as minhas manhãs.
Eu ainda choro muito quando escuto Simonal, Nara Leão, Nana Caymmi, Elis, Adoniran, Chico, Caetano. Hoje ainda mais, porque as ausências dessas alegrias específicas ainda pesam muito nas minhas memórias. Às vezes eu acho que a minha cabeça vai explodir de tanto lembrar. O meu peito sufoca como se uma saudade imensa e pesada tivesse sentado no telhado bonito da casa de meus avós e eu não tivesse como abrir as janelas. É sufocante, mas minha avó me contou que seria assim. Que, um dia, pra ela também foi. E eu ainda a vi sorrir depois. Muitas vezes.
Quando a dor melhorar, quero lembrar de tudo com o som da música das manhãs. Com a cor do sol que entrava pelas frestas. Com o cheiro da comida da minha avó. Com a textura da pele lisinha e cheirosa do rosto alegre do meu avô. Com a luz que refletia dos olhos de minha avó quando ela conversava com a Malu pequena, que ela teve no colo até os meus quase 30 anos.
Quando a dor melhorar, eu quero levar comigo as manhãs.
[Janeiro de 2026].