Luto e carnaval
No ano passado eu me empolguei para o carnaval. Mais do que sempre, porque foi o ano em que nos casamos. E nos casamos exatamente no carnaval. Eu de noiva vi os foliões que passavam para os últimos blocos da região do centro. Tivemos as comemorações simbólicas que a gente merecia, na mesma época do ano em que nos conhecemos. Simbolizar nosso casamento na festividade mais alegre que o ano traz foi importante para mim.
Eu vim de uma família alegre, festeira e carnavalesca. Mas tudo em mim era pesado e triste. Talvez por conta de algumas vivências eu tenha solidificado a ideia de que a alegria era algo externo. Mas eu cresci cercada por muita festa e cor. Quando eu era muito nova eu não gostava de carnaval porque eu não me sentia pertencente. Não ironicamente, eu gostava do Dia das Bruxas, que era onde morava o medo. O que me dói ainda, porque toda criança deveria ter direito a acessar - também - a alegria. Mas isso foi como eu lidei com alguns fragmentos da minha história. De nada tem a ver com criação. Porque, como eu disse, eu cresci num lar feliz.
E se eu não tivesse crescido num lar tão feliz talvez eu nem tivesse força para encarar o mundo.
A alegria foi o legado mais bonito que eu recebi.
Mas esse ano vai ser difícil amar o carnaval e entender essa alegria, que é minha por direito. Porque, às vezes, a alegria dá espaço à dor. E, como sempre ensino aos meus alunos pequenos, todo sentimento é importante. Acolher e entender que a vida é feita desse todo. E, embora o carnaval venha sempre em fevereiro, a alegria é essa nuance que vem e vai embora.
É doloroso ter perdido todos os meus carnavalescos favoritos. É como se o lembrete de "sorrir" estivesse agora tão longe que eu não sei nem mais como fazer. Hoje tenho um carnaval silencioso dentro do meu peito. Com momentos alegres guardados em gavetas e em latas de fotos. E é difícil tirar o meu sorriso da gaveta porque hoje eu sinto que o lugar dele é lá, perto das pessoas que perdi.
Mas o carnaval ainda é uma das coisas mais lindas para mim. É onde eu guardo as minhas maiores alegrias, melhores lembranças e o momento mais lindo da minha vida, que sela a união do passado e presente com todo o meu amor.
Cada instante é colorido de uma maneira e assim a história vai correndo, bonita e importante, como tem que ser.
Aos que estarão entregues à comemoração da alegria coletiva, um bom carnaval! Aos que, por algum motivo, estão reclusos, um abraço.
Que a vida cure e registre as boas memórias nos instantes em que o bloco passar...
[Fevereiro/2026.]