Bala de menta

"Saudade é bala de menta que ainda mora no bolso 
dos dias felizes."
[Agosto de 2024.]

Se eu pudesse resumir o meu avô em um breve conto, seria esse. Com esse continho eu fui finalista do concurso da Editora 3 Serpentes. 
Acho bonito pensar que, nas vezes em que eu fui para as finais literárias, eu estava falando sobre as minhas saudades. Sobre os meus sentidos. Sobre amor. Eu fui finalista falando dos meus avós, da minha infância, do jardim de flores onde eu aprendi a andar. 

Sobre as balas de menta: era um dos tantos recursos que meu avô tinha para agradar a gente. Ele oferecia balinhas o tempo todo, antes mesmo de dar "Bom dia". Durante a infância eu sempre recusava, porque ele gostava das balas mais estranhas, na minha opinião infantil. Balas de café, de paçoca, de mel e de menta. Nenhuma mísera lembrança de morango ou iogurte para me alegrar. 
Depois eu entendi que talvez eu fosse uma criança amarga demais para reclamar das balinhas afetuosas. E meu avô, uma pessoa doce demais, que via alegria nos sabores mais rejeitados. 

E nessa volta toda eu me pego reflexiva pensando: "Que saudade das balas de menta que ele oferecia." Eu sempre soube que a saudade seria imensa, mas não sabia que seria tão amarga. Ao contrário das lembranças dele, que são sempre doces. 

Se eu pudesse, eu guardaria todas as minhas lembranças mais bonitas no bolso e andaria com elas por aí: no trabalho, no metrô, nos dias mais nublados. Eu carregaria, de um lado, o jardim da minha avó. Do outro, o acervo de balinhas do meu avô. Tem coisas que a gente carrega no bolso. Outras, no coração. 

Fica aqui o registro do continho mais doce que eu já escrevi. Um microconto finalista feito de menta e saudade. 

[Nota de Janeiro de 2026]