Planetário
Fiquei orbitando nas memórias de um domingo até cair no planetário. Naquele tempo eu nem sabia que, em um só lugar, caberiam todas as histórias do universo. Eu era criança do interior, onde o mundo se resumia ao quintal de casa, a uma escultura de terra ou a um programa rápido de televisão.
Foi nas férias que o meu tio me levou no planetário.
Naquele dia ele até acordou mais cedo e abriu mão da boemia rotineira pelo passeio da manhã. Talvez fosse cedo demais para eu entender sobre as galáxias e os cálculos de velocidade e tempo, mas não era cedo para sentir que um reencontro sempre pode pairar entre as estrelas. Lembro que eu fiquei fascinada com as imagens e presa aos cálculos que eu não entendia, enquanto pensava algo como "Então o nosso lugar é além do além?".
Dessa lembrança, que nasceu num universo interminável, eu não pensaria que um momento criado poderia ser maior que o nosso sistema solar. Abrir os olhos de uma criança é acessar o seu coração. Ver os planetas girando em torno de uma luz imensa, me irradiou de perguntas. Ali, eu era tão pequena na imensidão da ciência que eu nem entendi o tamanho daquele dia.
Depois, quando o meu tio desintegrou como corpo celeste do universo, eu não mais ouvi sobre as estrelas. Não mais entendi os planetas. Não pensei em orbitar coisa nenhuma por um tempo imenso.
Até eu lembrar da infância, do planetário, do afeto e do sol, que sempre ficou ali. Pode correr a vida a anos-luz para qualquer lugar que, algumas coisas, permanecem tão perto! Tem gente que fica brilhando eternamente, pra gente saber orbitar. E girar no universo é uma das coisas mais bonitas que eu carrego em mim.
[22 de janeiro de 2025.]