Saudade, dor pungente

"A saudade é dor pungente", como cantava minha avó, Myrian. Já são 9 anos sem ela e, às vezes, eu descanso na doce ilusão de que sei lidar com essa saudade pungente, que assombra feito fantasma antigo.

Ouço sua voz na gravação. Descanso em seu colo, que hoje existe dentro de mim. Sinto seu cheiro, que eu saberia identificar mesmo que se passassem milhões de anos. E tudo isso são elementos que vagueiam pelo tempo, sem mais concretude. 

A falta que você faz hoje dança com a falta do vovô. É como se essas duas faltas arrastassem os pés cansados pelo salão, num mundo frio demais de viver. Quando eu vejo essas faltas dançando, eu lembro da sorte que eu tive, de poder ter ouvido de perto as músicas mais bonitas que já passaram no mundo. Entre elas, seus conselhos. 

A saudade é - de fato - o azar de quem um dia teve muita sorte. 

Esses dias, eu contei aos meus tios o quanto foi sábia a sua presença em minha vida, a ponto de reverberar, até hoje, em minhas caminhadas. Existem casos e histórias que você me contou quando eu era pequena demais. E repetia: "Um dia, Malu, você vai entender..." 
Talvez a memória seja a maneira mais doce de enfrentar a morte. 

Ganhei menção honrosa em um campeonato literário com o microconto:
Quando perguntei à vovó como se vence a morte, ela - sem hesitar - afirmou: "Com palavras, menina. Nem a morte pode acabar com as histórias". 
Minha maneira de enfrentar a vida vem de você. Minha inspiração para buscar sentidos, também. Meu casamento com o tempo. Parte imensa de quem eu sou. Por fim, tudo isso é mérito seu. 

Sorte a minha ter nascido de seu colo. Outra vez, obrigada por tudo, minha avó e amiga querida.

23 de fevereiro de 2026.