Labirintos
Abriram a memória de minha mãe.
Num quarto branco imenso, eu estava sozinha.
Um sopro de silêncio que corta a tarde abafada
mostrou na memória rasa: a filha triste — trancada.
Depois as lembranças fluíram num corredor vazio.
Tudo estreito e consternado, com luzes que gritam em dor.
Não havia mais vínculo naquele contexto frio.
E as portas, sombrias de medo, silenciavam sem cor.
Revirei os cantos do tempo até chegar ao externo.
Lá fora: o mundo, brilhante num sol de verão,
não via os olhares de dentro, onde tudo era inverno.
Sorriam no jardim bonito: o medo e a adoração.
Ainda dentro, a cozinha — laranja, antiga, voraz:
devorava paredes, marcadas pelo momento.
Cada canto esvaziado que a história me traz
alimenta-se da vida, da saudade e do tempo.
Me perdi entre os quartos do labirinto constante
que é ter uma mãe de ausências — que dorme na solidão.
Sem abrir portas e frestas mas, nas lembranças de antes,
Descansei o choro intenso num resquício de oração.
Se um dia abrirem, ao acaso, as memórias de suas mães,
peço atenção à tristeza mais forte ignorada.
Pois — na frieza do mundo — não existe proteção
que faça de um labirinto uma casa organizada.
[1 de maio de 2025.]