Meu avô é um poema
Meu avô é um poema. E fica difícil pensar o amor depois de conhecer o verso sensível que ele compôs para existir nesse mundo cinza.
Uma tia me disse certa vez que ela assistiu o amor dos meus avós ser tão imenso que os filhos pareciam orbitar em hemisférios distantes.
O amor do meu avô é assim...
Uma coisa que minha analista não conseguiria entender. Com expectativas das quais fica difícil se curar.
Meu avô é um poema. Um poema gráfico, cada vez que ele conta do seu amor imenso. Quando ele espalha fotos da minha avó num mosaico de lembranças no lado da cama que ela deixou vazio. Um poema que conta histórias todas as noites, em sorrisos organizados sob o travesseiro.
Ele me contou que coloca os olhares de minha avó ao lado dele, todas as noites, em variados momentos da vida. E guarda pela manhã.
Meu avô é um poema constante.
Numa pasta, ele carrega o amor por todos os cantos do dia e não há pessoa capaz de duvidar que Myrian ainda é a mulher mais bonita da cidade na presença de seu guardião.
De todos os versos já lidos na vida. Dos poetas que tenho na linhagem genealógica. De todas as linhas até então já escritas, juro nunca ter visto o amor com tamanha certeza quanto vi na existência do meu poema avô.
Porque meu avô é um poema. Dos mais próximos de definir o que é amor...
[22 de dezembro de 2023.]