Esconderijo

Quando morrem as últimas pessoas que sabiam quem você é, as coisas mudam de lugar. 
A história muda de rumo,
a dúvida muda de lar. 
Eu fico me perguntando se os meus mortos ainda olham para mim. 
Se olham, o que pensam de mim.
Tropeçando entre as feridas e fazendo tudo errado, 
arrastando um vazio pesado pelos cantos, 
me afogando numa intensa solidão.
Que forma eu tenho agora? 
Ou deixei de ser alguém, 
com tantas partes que eu já perdi?
Eu talvez não exista mesmo, como disse a minha mãe. 
Já nem sei olhar para as estrelas como se elas me olhassem de volta. 
Não tenho mais luz, 
não tenho a mim. 
Mas eu ainda sou a menininha deles?
Com os mesmos olhos tristes, carregada de dor.
Talvez eu a tenha perdido em algum erro meu.
Por isso eu cuido das crianças dos outros, 
por isso eu tento ser outras pessoas no palco,
por isso eu me sinto melhor sem os meus pés no mundo. Um mundo que me devastou.
Um dia a minha avó pediu ao jardineiro que cortasse as folhas de um jeito estranho,
para aumentar a falha da árvore, 
porque era importante para mim. 
Deixou o jardim menos bonito, mas de um jeito que eu cabia ali, escondida entre as folhagens. 
Era um canto que eu chamava de "esconderijo". 
Mesmo escondida, naquele tempo, alguém me via. 
Alguém me olhava como se a minha existência fosse notável demais. 
Depois, esses olhares foram morrendo...
Ninguém mais soube me encontrar perdida entre as memórias,
nem nas falhas da vida,
nem nas folhas do tempo.
Fui me diluindo escondida. 
Hoje já não existo mais. 

[30 de maio de 2026.]