Pedaços remontados
Eu fiquei quebrada quando o meu avô partiu porque ele que colava os pedaços da vida. Uma vez eu encontrei um antigo desenho meu, rasgado e remontado com fita. Eu tinha essa mania, de rasgar ao meio as minhas criações imperfeitas. E ele resgatava tudo. Desenhos, afetos, pessoas...
Sempre foi assim. As coisas aconteciam e ele colava, com toda doçura do mundo.
Quando ele foi, os pedaços voltaram a trincar.
Aos poucos eu fui virando um monstro de cacos expostos, remendada e incompleta. Como os monstros dos meus desenhos. Mas, desta vez, sem a docilidade do mundo para reorganizar.
Minha vontade era a de jogar as peças pro outro lado do muro, onde morava aquele vizinho cruel, que jogava tudo fora. Meu avô guardava tudo. O vizinho reclamava até das flores que o vento trazia.
E cada pedacinho de mim viraria pó. Viraria nada.
Eu me senti tão quebrada que eu olhava em volta e não via ninguém completo. Me pareceu, por tempo demais, que todo mundo era insuficiente também. Insuficiente.
Este ano eu senti, após a vida inteira, a mesma sensação da infância, de acordar e a casa estar vazia. E senti todos os dias esse medo da solidão.
Às vezes os meus avós me deixavam sozinha por breves momentos. Era uma sensação de desespero ao acordar e não ter ninguém para me ajudar a fazer a mamadeira. Eu era bem pequena e já aprendia as ausências. Quando escrevi, aos treze anos, um poema sobre solidão, minha avó ficou frustrada. Talvez porque soubesse do meu afeto pelas faltas que eu carregava.
Quando o meu avô foi embora, pronto. A sensação triste voltou.
Não sei qual a idade comum para se estar completamente sozinho. Essas coisas não são descritas em livros ou cartilhas de recomendações. Eu diria que nunca. Acho que perdas são gradativas. Mas imagino que alguém tão novo não deveria se sentir tão sozinho.
Então eu fico com comportamentos ridículos. Acumulando coisas que fingem ter sentido, abraçando bichos de pelúcia que não me preenchem, dando vazão a maluquices que talvez sejam a minha salvação momentânea.
Virar as costas pro mundo e olhar o outro lado talvez seja uma forma de conhecer novos caminhos. Sem necessariamente ter que se mostrar triste e frustrada.
É isso. A vida parece exausta e silenciosa no momento. Mas, até que isso passe, minhas memórias confortam a solidão.
13 de agosto de 2026.