terça-feira, 11 de julho de 2017

Segue assim

Orientada pela força da paz,
pelo afago do amor,
pelo colo da memória,
pela cura da dor,
segue comigo que eu sigo contigo.
Segue e chora,
que logo mais a noite chega,
o dia acaba
e a saudade vai embora.

Agarra-se ao que sobrar

Por cada pessoa querida que vai, a gente se sente mais sozinho.

A morte não dá espaço para acostumar-se. Ou a pessoa está viva ou não está. 
E de repente ordena-lhe: acostume-se sem ela!
Não te tira um toque... Depois um sorriso... Depois um olhar...
Te tira tudo de uma vez.
Hoje "ela é", amanhã "ela era". 
E sobra você, com aquela cara de dúvida, sensação de fracasso; e o olhar tentando modificar a aceitação dos fatos. 
A gente luta em mudar o olhar, porque a morte a gente não muda. 

Da vida, essa sucessão de "retiradas", pouca coisa fica. 
Te tiram tudo o que você achou que ficaria. E a gente segue errando ao pensar que o que chegou "agora fica".
Não fica!
Um dia vai também.
Nessa troca inconstante resta amor.
Um amor mutável e insistente, que a gente fica nutrindo por aí... Por esse universo aleatório...
Amor que pula de canto em canto, procurando expandir e compensar um monte de outras coisas.

Então, cultivemos amor e tudo mais que traz bem.
Repassa o que há de bom; antes que te tirem isso também. 
E te tirem também a vida. 
Tudo vai. O amor fica. 
Sem dono, só com destinatário, mas fica. 
Só por hoje, seja amor! Porque hoje "a gente é". Amanhã... "a gente era". 

Sobre a madrugada...

Gostaria de pedir perdão, publicamente, a mim mesma, por ter ficado tantos anos sem ver as estrelas.
Hoje é uma daquelas noites em que o medo impera. Medo do futuro, da fraqueza, do esgotamento, da incapacidade...
Bom, é noite né! Noites, para mim, têm sido assim: uma guerra constante entre o caos e o sono, em que se luta para que o tempo passe, para que o dia chegue, para que o céu fique claro, para que a vida fique clara...
Mas a de hoje, em especial, seguia sufocante. 
Sufocante no sentido literal. Precisei tomar um ar. 
Fui pra janela, aos prantos (...quem nunca chorou que atire a primeira pedra) e com a garganta dolorida.
Primeiro olhei pra rua. Vazia. Tantos andares de queda. Bobagem.
Mais acima estavam os prédios mais altos e a eterna pergunta que volta no auge da insatisfação cotidiana: "Será que lá, dentro daquelas janelas, estão sendo felizes?".
Em seguida fiz o que deveria ter feito há tempo. Olhei para o céu.
Nesse minuto a menininha que mora em mim reapareceu, com aquele mesmo jeitinho de quem ama a lua. 
Senti-me envergonhada por não estar honrando frequentemente meu mais doce passatempo de infância: ver as estrelas.
E aquelas estrelas sussurravam coisas boas, que cresci ouvindo, da janela do quarto de minha avó.
Ela me colocava sentada na beirada da janela, toda noite, e dizia coisas boas. Histórias, valores, lembranças, coisas sobre a vida...
As vezes que chorei repetindo que não queria viver em um mundo em que ela não estivesse, ela me encorajou. Me disse que as estrelas observavam, serenas. E que eu nunca estaria sozinha pois aquela obra de arte seguiria comigo. Cada vez que eu olhasse aqueles pontinhos, eu me lembraria de tudo o que realmente importa.
Eu pude jurar que os sussurros das estrelas, em conjunto, hoje soaram no timbre dela, rouco e confortante. 
Cada pontinho de luz emanou um conselho amável nessa noite. 
Por isso peço desculpas à menininha que mora em mim, pela falta de estrelas na alma.
Não quero mais que a noite passe...
O medo passou. A saudade venceu. As estrelas ficaram. 
Eu ainda não sei viver sem ela e sem sua voz rouca.
Não sei se um dia saberei.
Não sei nem ao menos viver.
Mas ainda sei olhar as estrelas...

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Força

Com o coração totalmente remendado a gente segue tentando ser forte.
Não sei ser forte.
O que tenho em mim é ferimento por toda parte.
Força não é o nome dado a um museu de cicatrizes que ainda sangram conforme a respiração se altera.
Força deve ser algo entre o desespero e a letargia, que faz a gente caminhar.
A gente fica podre por dentro e todo mundo aplaude.
Como uma lepra emocional, as pessoas vão admirando e registrando aquela obra psicodélica que é tentar continuar vivendo. Mais aplausos!
"Que mérito! Você é forte!"
Mérito esse que ninguém quer. E todos têm.
Talvez seja apenas questão de piedade dizer a alguém que sofre que seguir em frente é sinônimo de força.
Todos seguem. 
Rotulam com um nome bonito: força.
Um nome bonito para algo indecifrável que a gente mal sabe se existe.
Quando seguimos a vida, é força. 
Quando não conseguimos parar de respirar por uma mera condição biológica, é força.
Tudo que envolve a vida, envolve a amaldiçoada força. 
É dádiva necessária!
Dádiva maldita que ninguém quer precisar. 
Talvez alguns sejam fortes mesmo.
Eu não. 

Eu perdi a minha melhor amiga

Foi o fim da conversa 
Esgotaram as histórias
Como é mesmo aquela frase?
Me apeguei, nos últimos minutos, à textura do seu cabelo
Penso em não mais esquecer o formato do seu nariz 
Fecharam seus olhos, minhas janelas
E tudo é escuro sem o seu brilho 
Me tiraram a paz
Resta algo de você pairando 
Me tiraram suas mãos quentes
E seus pés bonitos que não envelhecem 
Embaralho seus conselhos 
Sigo sem entender muita coisa 
Não sei caminhar, embora eu vá 
Minha memória segue triturando 
Eu perdi minha melhor amiga
E tenho medo de te perder mais.

No baile da saudade...

Ela, generosa, vai embora aos poucos.
Deixa tudo em ordem, faz suas últimas considerações, pede de volta meia dúzia de palavras de conforto e vai.
Vai bailando valsa triste, com a elegância que é marca registrada. 
Sem que alguns notem, retira-se da competição. Com passos discretos, ombros encaixados, olhar correto e sorriso estonteante.
Dessa vez ela não foi ao "toilette".
Meu lado criança ainda quer procurá-la nos banheiros dos bailes em que a acompanhava. Naqueles tempos, não haviam crianças em bailes. Mas, para ela, eu era artigo mais importante do que a orquestra. 
E a seguia sempre. Brincava no terraço e observava a fluência bonita dos pares.
Cresci na barra de sua saia. E permaneci "na barra de sua saia", até nossa despedida terrena. E por algum motivo sinto que, naquela despedida, conservei o olhar de menina insegura e admirada. E ao te olhar ali, parada e plena, senti que foi minha última olhada do canto do salão. Ultima dança do baile. Ultima canção. 
Agora segue o salão deselegante com os passos desajeitados que sobram. Passos desgovernados que lutam para entender a melodia.
"Quando chegar na eternidade me procure na rodinha do Frank Sinatra, Ray Charles..." ela dizia.
E ensinou, fragmentado, a seus admiradores, como dar um típico baile dos bons tempos.
A gente tenta, mas não consegue. 
Ninguém consegue musicar os ruídos da vida como ela. Ninguém sabe dançar sem tropeçar na saudade. 
Mas ela driblou, enfrentou e dançou.
Com tudo organizado, por mais que falte graça, ela se retira.
E enquanto seu parceiro não se cansar desse baile triste, ela certamente o espera treinando.
Astaire, seu ídolo, que a acompanhe. Porque num salão enfeitado é ela, altiva e alva, quem mais brilha. 
Por aqui o trabalho foi finalizado. 
Nos deixou festejando. Sempre linda e sensata, ganhando o concurso de dança dessa dimensão. O prêmio é paz. 
Fica em paz, eterna dama mais linda do salão...

A janela

Aquela estrada
Que leva aos sonhos,
Que rasga luzes,
Num céu negro de saudade;
Não sabe que enquanto cerca a cidade,
Tem alguém a olhar por ela.
Madrugada fria,
Noite singela, 
A vida passa
E eu vou com ela.
Saudade dói,
Noite corrói,
Vento cortante,
Tempo distante. 
Ainda há mais um instante!
Antes da hora
Fecho a janela. 

Perda e reencontro

Talvez seja preciso perder quem mais amamos para nos reencontrarmos.
A dor às vezes nos empurra pro nosso próprio colo. E não há maneira melhor de encará-la do que com todas as estratégias conquistadas ao longo de uma trajetória. 
A tarefa de resgatar nossas próprias armas é o que nos resta quando percebemos que nosso exército somos apenas nós e as nossas memórias.
Ao reencontro, sempre! 
...
Você se foi me deixando com toda a força que me ajudou a cultivar. Agradeço também por isso.

Má interpretação

Seres do teatro
Interativos por essência
Curtem, clicam, comentam, opinam, refutam, aderem, simpatizam...
Intérpretes,
Interagem.
Mal interpretado.
Há malícia em sorrir no patriarcado.

Vela, papel e só

Eis aqui meu pior papel: o de ser forte.
Papel trocado, apagado, triturado...
Papel que não sei recriar.
Papel queimado que virou pó.
Quero ser o amparo que precisam por aqui; mas o fato é que não sou ela. 
Não sei as falas desse personagem mal construído, que ela conduziria com amor.
Hoje sei ser pó onde ela era vela. Vela translúcida e aconchegante, que trazia luz. Que ao ser chama, dançava. Que ao ser fria, ainda assim iluminava. Vela essa que não apaga em mim.
Ela, vela.
Eu, pó.
Não sei se sei conduzir. 
Simples e só. 

Na poesia do vento

Na poesia do vento
Só tem verso longe
Sem tempo
Saudade sopra ao relento
Vontade é fria
Estremece a alma
É sempre noite
É nostalgia 
Não entendo...
Mas nunca é dia na poesia do vento 

Trans

Transborda e traz contigo o brilho da alma.
Traz, trans, a vontade de ser,
de enaltecer,
de transmutar.
Traz teu jeito sincero 
e o rosto honesto com brilho no olhar.

Trans, transborda história!
Berra pro mundo tua trajetória
e luta por seus detalhes.
Trans, transa sim com quem quiser!
Ama na cama
homem ou mulher;
Exige respeito,
Fique satisfeito,
Transplante o querer
e o teu sonhar.

Minha honra é te ver transformar.
Transformar a vida,
crescer, melhorar...
Num sorriso profundo,
Transexualiza!
E transmite ao mundo 
a vontade de amar. 

Carnaval em branco e preto

Eu ainda tento entender o que é o carnaval sem você...
O colorido tá meio cinza. As luzes, fracas. 
A música ta baixa e o samba ta lento.
Os sorrisos são falsos.
Os dias são rasos.
A agitação persiste. 
A noite é fria.
Na máscara, alegria
E o rosto é triste.

Tentei fugir do carnaval pois me lembra você.
Decidi pular carnaval pois me lembra você. 

O carnaval acontece sem sua melhor foliã. O ano acontece sem seu melhor feriado. A rotina me leva sem garantir o amanhã. 

No passo do samba não vai passar. 
O tempo pula como a avenida.
A marcha é triste.
Carnaval existe.
E o coração persiste em levar a vida.

                                             

Um último adeus

Dorme querida
E sonha com os bailes do passado.
Permanece a alma florida,
Que cultivamos no jardim amado.

Em paz a vida te leva,
Dorme e sonha com sua cidade.
Hoje, ao céu que se eleva
Só há luz; e aqui saudade.

Pega o trem dos seus avós,
Ao encontro de sua história,
E permanece a olhar por nós.

Mulher justa, forte e amável.
Te deixaremos em nossa memória.
Myrian. Paixão nossa, incomparável.


11/10/1938 - 23/03/2017
Myrian Paixão Garcez.

Paz

A paz não anula a guerra, não descarta a luta...
A paz é irmã da justiça.
Provém da igualdade.
A paz é direito, não capricho!
É matéria prima da felicidade...
Por mais que não saibamos cultivá-la. 
Paz consiste em esquivar-se do improdutivo e alçar vôo rumo ao amor. Mesmo que haja tempestade.
Que haja amor!
Haja luta!
Haja justiça!
Haja paz!