sábado, 27 de agosto de 2016

"Bandido bom..."

A gente tenta mover o mundo de maneira passional, que lindo isso. Mas não me parece que os mesmos ímpetos de revolta que bradam: "Tem que linchar! Tem que matar!" sejam coerentes quando pedimos compreensão.
É cultural? É natural que tenhamos mais vontade de punir do que de resolver o problema?
Tudo isso me parece um interminável jogo de poder no qual a compaixão definitivamente não se encaixa. 
Me parece questão de poder opinar incitando ódio. "Você errou. Eu estou acima de você porque não errei, portanto, vou puni-lo."
De que maneira isso pode melhorar as coisas? Não importa. Importa que as angústias sejam acalmadas vendo a "justiça" sendo feita através da raiva.

"Mas e se fosse seu filho?", "E se fosse com você?".... E seguimos nos baseando em nossos sentimentos num momento de mágoa para julgar as coisas. 
Não é à toa que designamos um órgão responsável por resolver situações alheias. Órgão esse que deveria, mas também não melhora coisa alguma.
Qual a medida de urgência, portanto?
Bom, incitar a ira alheia é que não é.

Há pessoas que gostam muito de citar a Bíblia quando lhes é conveniente. Nos apegando à história  (não colocando em pauta sua veracidade) de Jesus. O cara resolvia as coisas através do amor, do perdão... Funcionou? Funciona com você? Você realmente já tentou? Ou vai tentar essa semana com o pensamento inicial de destruir essa tese para, mais um vez, se sentir "certo", "superior"?

Pois bem, reflexões à toa.
Vai ter gente que vai responder esse diálogo mentalmente com um "Vai tomar no cu", como na cena clássica de "Óh paí, óh" em que argumentos são rebatidos com agressão.
Então fica o lembrete. A gente sente raiva, é natural; mas não é ela que deve governar o mundo.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Sobre gentileza

Estive pensando... Há uma menina em meu curso que me irrita. 
Com pensamentos arrogantes, ideais vazios e trejeitos chamativos. 
Toda vez que eu a noto eu acho que chego a revirar os olhos e penso em ignorá-la, mesmo quando ela pede ajuda. "Por sorte ela não é problema meu!", repito como um mantra. 

Mas então, numa gavetinha escondida de minhas memórias, me surge você. E você aparece me pedindo paciência. Chega até mesmo a ficar brava dizendo coisas como "Você não foi dócil. Não te eduquei assim. Ela é só uma criança. Não a trate desse modo." 
Mas e eu, não fui criança? (Talvez não tenha sido. Não a seus olhos. Que bom!)
E já emendo um pensamento de minha avó que dizia algo como "A sua gentileza independe da dos outros." (era isso?).

Olho pra toda essa gente desagradável (com o perdão da arrogância) e penso: "Ela não faria assim. Ela teria pena. Compaixão. 
Ela não negaria ajuda. 
Ela não trataria mal. 
Poderia até se arrepender depois. Gritar. Quebrar coisas. Vociferar palavras vãs e a célebre frase: "Merda! Preciso aprender a dizer NÃO!"
Mas na hora eu sei o que você faria. 
Sei que não negaria um sorriso, uma ajuda, um olhar... 
E assim sigo, às vezes, sendo amável com gente que não gosto. 

Você pode ter errado em muita coisa; mas você me ensinou a não odiar completamente; mesmo com seus ataques de fúria, suas confusões ou desestabilização emocional. 
 Ensinou amar. 
Ensinou o amor. 
Me ensinou que todo mundo vale alguma coisa. E gostaria que descobrisse o seu próprio valor. Valor mesmo! Livre de cobranças, méritos ou vantagens. O valor de sua alma. 
Você me ensinou que amar não é saber reconhecer um bom favor. O amor independe de tratos ou ganhos. E isso já vale por uma vida

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Trilha de pedras rústicas

Caminhando lentamente, com os pés fracos e a mente vazia, foi deixando para trás todos os sonhos que já nem via. Caminhando em suspeita paz. Em paz de morte. De quem desistiu. E nem viu que tanta gente caminhava logo atrás.

Se julgando sozinha guiou seus seguidores. Que ao tentarem desviar em tal caminho sem flores só se afundavam. 
E ela andou tão lenta que muita gente a ultrapassou. Parou por um tempo, beijou quem amava, chorou, mentiu e voltou. Mas depois seguiu andando, com seus olhos implorando para que não vissem mais.
Para que o mundo apagasse.
Desistiu da paz.

Logo foi desintegrando. O vento foi batendo e nem viu que estava morrendo nas curvas que a vida faz. 

Com seu olhar oprimido, guardou em um canto da face, somente pra quem a notasse, seu antigo sorriso escondido. 
E no fundo o coração carregava tanta mágoa não procedente que já nem mais processava. E havia tanta alegria ausente que naquele caminhar árduo esqueceu-se de quem amava.

Mas os devotos iam seguindo e, pra onde estavam indo, talvez até houvesse pausa. Só que naquele caminho repetido, muita gente havia morrido, e já não havia mais descanso, só pranto naquela causa.
Seguindo com sua paz estranha, jamais seguira sozinha apesar da rebeldia. E com os súditos de seu pranto, carregando-os para o inferno, com o mesmo olhar terno; era o fim que procurava.
Saltava qualquer abismo. Repousava em qualquer canto.

Pois leve, caminho estreito!
Pois não há mais outro jeito...
Me mostre de vez a jornada que seguirei contrariada, mas que não hei de ignorar.
Não cogito desistência; por caráter ou demência, hoje não vou recuar. 
Nesse abismo de plena dor, pularei então por amor, para reaprender a amar.

Carta à sua luz lll

Lua,

É tarde.
Não lhe chamo mais "dama", "querida", "mãe"... E nem há mais mãe por aqui pra chamar.
É tarde. Já passou da hora. E na dor de outrora o frio ainda arde.

Logo mais chega a noite e volta a senhora me olhando. E covardemente, sua luz vem julgando. 

Não sei se fiz certo, e a senhora, tão perto, não me orientou.
Brilhava protetora mas, arrasadora, não senti seus cuidados. 
Hoje, ao chegar a noite, manterei os meus olhos fechados.

O sol voltou, a ambulância chegou, e a levaram chorando.
E eu, lua ingrata, hoje sem serenata, não sigo te amando.

Espero que aprenda. Não faço oferenda, desenho ou poema. Enquanto não devolveres meus sonhos, meus versos e a minha vida plena.

A senhora deixou que a levassem, por fim.
E até segunda ordem, enquanto não me ajudares, não quero mais brilho, mais noite ao luar, e te renego em mim.

Sai, Lua! 
Tirou-a da rua e levou-a de mim! 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Carta à sua luz ll

Olá Lua,
Eu, novamente, lhe peço ajuda. Encontro-me perdida nessa noite imensa; que nenhuma crença é capaz de afagar. A esperança escapou-me e lhe peço, óh lua, pra que peça agora pra ela voltar.
Amanhã a tarefa não pode ser falha nessa batalha que mal sei lutar. Se há salvação a ela ou não, mandou-me o amor tentar conversar.
Então lua, me rege. Tão desgovernada, desaprendi a existir e até a chorar. 
Peço, mãe lua, que amanhã me protege.
O pavor é demais profundo.
E nunca no mundo ousei recuar.
Então me empurra pra esse caminho e me faz, com carinho, conseguir falar.
Falar de um modo que convença a ela que, apesar de singela, a vontade é salvar.
Me guia, mãe lua, estou apavorada, com medo, assustada pois não sei ser mãe.
Já que de "mãe" falamos, me ajude a manter mais uns anos a que mal existe.
Agradeço a atenção. Com ajuda ou não, minha coragem persiste.

Atenciosamente,
De maneira descrente,
Sua filha mais triste.

Rimas soltas de coragem motivada

Pensei enquanto me despedia:
Vou viver mais um dia,
Só para o nosso reencontro.

Cada minuto que conto
Te deixa mais perto de mim.

Vou viver mais um dia 
E quebrar a apatia
Com a sua insistência,
Seu amor,
Sua clemência,
Com seu jeitinho, enfim;

Pois te tenho agora,
Hoje e sempre te amo,
Então não vá embora
É por você que vivo mais.

Acredite rapaz: 
Você me ganha, sem perder, sem engano
E com o bem que me traz
Me faz, todo dia, querer mais um ano.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Se eu morrer essa noite...

Peçam perdão por mim,
Porque eu morri sem saber amar direito
Fiz tudo errado e do meu jeito
Fui cruel
Não consegui melhorar.

Se eu morrer essa noite quero que durmam em paz
A saudade o tempo desfaz
Morri tarde
Sufocada
Pelas coisas que não resolvi 

Se eu morrer essa noite peço que sigam vivendo
Vivam da mesma maneira
Pois eu tive a vida inteira 
E não aprendi a ser feliz

Se eu morrer essa noite não se desfaçam de nada.
Ou desfaçam.
A minha jornada
Eu levo junto comigo.

Desistência com coerência

É dor vindo de tantos cantos
Tantos medos e desencantos
Que desaprendi a chorar...

Tem mágoa de todo jeito
Que o efeito não vai passar.

Já não sei defender nem a mim,
Já que também acabei assim,
Tomara o mundo saiba acabar.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O maior poema do mundo

Eu tenho faces sinistras. Remoer é uma delas. Eu mesma sou minha pior carrasca.
Desde novinha gosto do que me dá medo, do que me machuca, do que me assusta. Talvez me tenha sido cobrado um amadurecimento prematuro que eu busquei por vias erradas. Talvez.
Talvez eu mesma não me permita sofrer. Talvez eu me odeie por não saber resolver. Talvez eu me cobre muito mais do que viver.
Fiz um poema-tortura que faço questão de completar a cada problema que passo. Desilusões amorosas não valem. Coisas internas não valem. Problemas pequenos não valem. Está em jogo apenas o que que visivelmente e inquestionavelmente uma ponta de precipício.

São muitas estrofes remoídas. Daqui muitos anos eu volto e conto se sou dona de uma vida consideravelmente feliz ou do maior poema do mundo.

Te quero no próximo inverno

Hoje quase te perdi
Quase me perdi
Nem te reconheci
Chegou sem me beijar
Olhou sem me amar
Mas continuava lindo, por fim
Seus olhos não clamavam por mim
Mas senti que era justo 
Fiquei mal porque estava certo
Apesar dos segundos torturantes
Que passei sem poder estar perto
A noite até chegou fria
Só refletindo o que eu sentia
Levando os bons dias de verão 
Dilacerando um coração
Que, embora frio, renascia.

Ensaio sobre a perda de uma paixão


Te fiz um verso em tom de adeus
Falando dos carinhos seus
Pra poder não me despedir
Pra não te olhar
Me obrigar a ir
Te ver ficar sem consentir
E pra lembrar dos olhos teus
Que, tão ingênuos
E serenos
Me lembram menos hoje os meus.
Fazendo um verso em tom de adeus
Pude chorar sem você ver
Pude tremendo escrever
O dia em que não foram meus.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Sampaleando

Na esquina da Ipiranga tem som
E tem rock na galeria.
No Ibira corrida, com tempo bom
Tem trânsito sim, todo dia!
Tem samba no centro
Não tem paz, no momento
Nesse centro desigual
Pois morador do recinto
É alegoria, não minto
Na virada cultural.

Na Oscar Freire tem madame
Vai lá no Sírio, buscar o exame!
Ou na Beneficência Portuguesa?
Se conseguir a proeza
Chegue a tempo na São João.
Se atravessar a cidade
Vem pra leste, que é felicidade
Pois tem jogo no Itaquerão.

Vai ter protesto na Paulista, viu?
Bora véi, andar na ciclovia...
Ocuparam as escolas, governador sumiu
E agora é panelaço todo dia.
Vem pra Augusta esquecer essa história
A rua que mescla trabalho e orgia

Na Indianópolis tem rapaz solteiro
A Faria Lima não é Brigadeiro!
Saudades do antigo Teatro Abril...
Falando em teatro, vamos pra Roosevelt
O Parlapatões não fecha tão cedo
E sempre tem peça que a gente não viu.

O Higienópolis, ainda sem trem
Repleta de gente da 'elite do bem'
Que não quer metrô. "Aí já é demais!"
"Vai encher meu bairro de marginais,
Que parcelam fogão nas Lojas Cem"
Voltar de busão, afinal, que mal tem?

Ah, cuidado com o Arouche à noite
Com a Mooca, não mais do que com o Carrão
E aquele sotaque "italianado"
Que sai paulistíssimo, em tom engraçado
É só o começo da imigração.

Na Liberdade nem liberdade tem
E os bolivianos invisíveis?
Fabricando tecido mal compram o pão
Assim seguimos insensíveis
E o tecido africano só paga a intenção.

Cuidado com a gíria, não diga "mermão"
Tem taxista que enrola cliente
Se entrar na 25 só sai em Março.
E tem tanto turista no Mercadão
Que às vezes enrolam até a gente.

A Estação da Luz é perto do Brás
Tem roupa barata, melhor que o Iguatemi
Mas é fácil demais se perder por ali
E se acaso o caminho não souberes mais
O metrô liga tudo, que diferença faz?

Mas cuidado é pouco na capital paulista
GLBT, militante e feminista.
O povo de Sampa não é brincadeira.
Paulistano assalta, pula na linha e morre
E é essa gente no metrô, que corre
Que carrega em suor a nação brasileira.

Foto: @gabrielrufp


Velando

Ah se soubessem os novos o clima que a morte traz
O cheiro das velas acesas
As flores manchando as mesas
A noite mostrando as presas
De sua maneira voraz.

As peles esverdeando
E aquele silêncio chegando
Ouvindo os padres cantando
Com o coração definhando.
Em nada me lembra a paz.

E os seres mais pequeninos
Que esperam na terra, ansiosos
Pelos minutos dolorosos
Em que adentramos dormindo.

E ignorando os tampões
Que nos poupam das secreções
Para nossa plena sorte.
Seguimos com lágrimas frias.

Salgadas, em plena agonia
É choro e corpo acabando
Terminamos cultuando
Mais uma vez a morte.

Em nome do imoral e dos maus costumes

Tava pensando aqui, brasileiro é um bicho engraçado né?

Que a gente tira sarro de tudo, é fato. Que perdemos mais tempo fazendo memes do que assistindo TV Senado, infelizmente também é. Mas sei lá, triste pensar que na terra de Zuêraland ainda haja tanta guerra apesar dessa sintonia bizarra que todos temos para a babaquice. Talvez tenhamos o potencial de um exército do Monty Phyton, mas isso nunca saberemos, porque a gente assiste mêmo é vlog engraçadão e segue @A_Pomba no Twitter.

O povo brasileiro é tipo a criança da família. Daquelas que apresentam o Snap do Fábio de Melo pros primos no almoço de domingo. Brasileiro é o pivete que consagra Carreta Furacão por identificação. Consagra tudo que se aproxime da falta de sentido que nossas vidas são. Brasileiro é a criança chata que apanha dando risada e termina com um "nem doeu", quando na verdade doeu sim. E dói todo dia! Dói no bolso, no ego, na alma... Dói na esperança...

Brasileiro é o pirralho que briga com o irmão por CapitãoAmericaXIronMan, BatmanXSuperman, ForaPetêXNãoVaiTerGolpe porque acredita que ainda assim vai valer a pena apanhar depois por conta da gritaria (E, sem ironia, que lindo!). O povo brasileiro é o irmão mais velho e a nossa política é o irmão mais novo que faz xixi na cama. No final é a gente que apanha da mãe; mas nóis zoa antes de apanhar. (Ô! E como zoa!!!!)

Afinal, o que importa mesmo é a esperança de um dia não termos o que detonar na net.

Brasileiro é foda! Ri do 7x1 pra ser forte. Ri pra tentar melhorar. E não melhora, mas também não desiste.

A gente tenta definir o povo brasileiro com analogias mais podres que nossas "ideologias" (entre milhões de aspas) mas acaba fazendo o que todo bom internauta mais sabe fazer: falar merda. E seguimos rindo do estado islâmico e de suas ameaças. Porque nesse país tão lindo e abençoado viver AINDA É um atentado diário.


Grata pela atenção.

Bora voltar pra exaltação ao ódio e à Carreta Furacão...

domingo, 5 de junho de 2016

O centésimo poema

Se não fossem cem poemas
Endossando tanta mágoa
Num recanto que afaga
Pra acalmar tantos problemas
Hoje, quem seria eu?

Se não fosse cada verso
Cada colo literário
Antes fosse o contrário
Nesse mundo tão disperso
Hoje, quem seria eu?

E sem as rimas cortantes
E confissões adoçadas
Palavras duras, embasadas
Em sentimentos conflitantes
Hoje, quem seria eu?

Se não fossem os cem poemas
Tais palavras e problemas
Seriam só vazio profundo.

Preenchidos com o que amamos
Sem problemas, me salvam os anos
Os cem poemas que mudam meu mundo.